{"id":2025,"date":"2017-05-23T11:14:47","date_gmt":"2017-05-23T14:14:47","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2025"},"modified":"2017-05-23T11:14:47","modified_gmt":"2017-05-23T14:14:47","slug":"lidando-com-a-mare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/lidando-com-a-mare\/","title":{"rendered":"Lidando com a Mar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Hoje parecia at\u00e9 um dia daqueles. Sabe? Um daqueles dias que a gente nem ousa falar o nome. Um dia de (bate na madeira) falta daquilo ou excesso daquilo outro. Entendeu, n\u00e9? Um dia que a gente preferia esquecer. Fila, falta de dinheiro, confus\u00e3o, congestionamento; neg\u00f3cios n\u00e3o fechados, promessas n\u00e3o cumpridas; chuva quando estamos na rua, e estiagem assim que botamos o p\u00e9 dentro de casa. Um dia daqueles, deu pra sentir?<\/p>\n<p>Na verdade acho que n\u00e3o tem sido um dia daqueles; tem sido um ano, ou melhor, uns anos daqueles. As coisas pioram; aceitamos um mont\u00e3o de abusos para que elas melhorem; melhoram, mas parece pouco; logo depois, piora de um jeito que a gente nem imaginava que ia piorar; uma constante espera por sermos surpreendidos negativamente. Uma lista de tristezas pontuada por esperan\u00e7as perdidas e promessas frustradas. Um ano, ou melhor, uma d\u00e9cada pra esquecer.<\/p>\n<p>Mas a gente n\u00e3o esquece; a gente fica com raiva. A frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3logo da ira. Queremos fazer algo, brigamos com os outros, prometemos nos revoltar, mas, no fim das contas, jogamos toda essa agressividade n\u00e3o dirigida pra n\u00f3s mesmos e ficamos cada vez mais deprimidos.<\/p>\n<p>Um c\u00edrculo vicioso que mina as nossas for\u00e7as e nos deixa com cada vez menos energia para lutar pelo pouco que os tempos atuais nos permitem conseguir.<\/p>\n<p>Quando tenho um desses dias, sempre me lembro do Prai\u00e3o de Barra de S\u00e3o Jo\u00e3o. Seu nome remete tanto \u00e0 sua extens\u00e3o como ao tamanho do seu mar. Um mar agitado de ondas altas que quebram quase em cima da areia e n\u00e3o serve direito nem pro banho nem pros surfistas. \u00c9 uma daquelas praias varridas por um vento constante, onde as fam\u00edlias se escondem nos quiosques para tomar cerveja e acompanhar os poucos corajosos que arriscam entrar no seu mar.<\/p>\n<p>Meu amigo Ronald \u00e9 um desses corajosos. E, gra\u00e7as a ele, eu me tornei um desses tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Numa das primeiras vezes em que fui ao Prai\u00e3o, ele se levantou para entrar no mar e me chamou.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 falando s\u00e9rio? &#8211; foi o que consegui responder.<br \/>\n&#8211; T\u00f4. Pode vir. Vou te ensinar a entrar nesse mar.<\/p>\n<p>Ficamos parados na beira, e ele me explicou:<\/p>\n<p>&#8211; Um mar desse tamanho tem que ser respeitado. N\u00e3o temido. \u00c9 preciso saber entrar, aceitar os seus movimentos e sair. Tudo tem a ver com a economia de energia. Se fizer for\u00e7a e resistir no momento errado, vai ficar fraco pra quando aparecer a oportunidade de sair e o mar vai te levar. Se for afoito demais, vai ajudar o mar a te levar embora e nunca mais vai voltar. \u00c9 preciso aceitar a mar\u00e9. Ela n\u00e3o \u00e9 boa, nem m\u00e1. Ela apenas se move e vai te levar pro lugar que voc\u00ea deve ir se n\u00e3o lutar com ela.<\/p>\n<p>&#8220;O mar vem e vai. Quando ele te puxar, deixa ele fazer a for\u00e7a e relaxe. Se ficar tranquilo, daqui a pouco estar\u00e1 no mesmo lugar onde entrou. Quando ele te empurrar pra praia, ajude ele e acompanhe seu movimento, que ele te ajudar\u00e1 a sair.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 s\u00f3 saber a hora de descansar e a hora de nadar que voc\u00ea vai ficar bem. Vamos entrar?&#8221;<\/p>\n<p>Entramos.<\/p>\n<p>Confesso que, nas primeiras ondas, achei que fosse me afogar. A mar\u00e9 vinha e ia t\u00e3o rapidamente que parecia tragado por um redemoinho. Via uma onda e com medo mergulhava sem saber onde ela ia me levar, resistindo e nadando sem saber se ia pra frente ou pra tr\u00e1s. Ronald, tranquilo, tentava me orientar:<\/p>\n<p>&#8211; Deixa ela te levar. Deixa ela te levar.<\/p>\n<p>Respirei fundo e segui sua orienta\u00e7\u00e3o. Larguei o corpo sobre a \u00e1gua e comecei a boiar. O mar me carregava de um lado pro outro, a princ\u00edpio atabalhoadamente, at\u00e9 que, como um par de dan\u00e7arinos, encontramos o nosso ritmo. Em pouco tempo, sem ansiedade ou medo, tinha passado a arrebenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As pessoas que estavam na areia olhavam preocupadas como se fosse o \u00faltimo momento em que nos veriam vivos, mas, onde est\u00e1vamos, parec\u00edamos estar sentados num muro vendo a vida do lugar mais seguro do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Pronto pra voltar? &#8211; Ronald perguntou.<br \/>\n&#8211; Sim, sim.<br \/>\n&#8211; Vamos aproveitar aquela onda grande vindo depois dessa.<\/p>\n<p>Deixamos a primeira onda passar nos carregando primeiro pra frente, depois para tr\u00e1s. Quando fomos deixados em frente a onda grande, Ronald gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Nada. Nada!<\/p>\n<p>E nadei. A onda nos empurrou e apenas seguimos o movimento dela. A onda nos levou pra antes da arrebenta\u00e7\u00e3o e com apenas um pouco de esfor\u00e7o, chegamos na areia e sa\u00edmos do mar. Est\u00e1vamos vivos. Est\u00e1vamos salvos. Soubemos respeitar o mar.<\/p>\n<p>Quando sinto que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda e o mar de progn\u00f3sticos negativos e tristezas v\u00e3o nos afogar, eu lembro do Prai\u00e3o. Lembro que h\u00e1 a hora de deixar a \u00e1gua te levar e economizar energia. Lembro que \u00e9 importante sentir os momentos prop\u00edcios para se mover ou para ficar parado. Lembro que uma hora vir\u00e1 a onda certa para nos levar ao lugar seguro, ao lado de nossos amigos e familiares, e que, nessa hora, \u00e9 preciso ter for\u00e7a para nadar. Lembro que precisamos respeitar os ritmos e n\u00e3o tem\u00ea-los. Lembro que precisamos lidar com os ritmos e n\u00e3o tentar domin\u00e1-los.<\/p>\n<p>Sim, quando vivo uma situa\u00e7\u00e3o dessas, eu penso no Prai\u00e3o. Especialmente agora, depois de tudo o que estamos passando, eu penso no Prai\u00e3o. Por isso, eu sei e quero que voc\u00eas saibam que estaremos vivos e estaremos a salvo se respeitarmos as mar\u00e9s e as \u00e1guas agitadas onde estamos. Desde que n\u00e3o tenhamos medo, nem sejamos afoitos, esse mar de loucura, medo, maldade e incompreens\u00e3o n\u00e3o ir\u00e1 nos afogar. Se soubermos lidar com ele, agir na hora certa e n\u00e3o comprar brigas na hora errada, estaremos bem. Estaremos salvos. Estaremos vivos.<\/p>\n<p>Afinal, n\u00e3o h\u00e1 dias bons, nem ruins; n\u00e3o h\u00e1 dias daqueles, nem desses; h\u00e1 apenas dias e o que fazemos deles. E na minha opini\u00e3o, acho que a onda que ir\u00e1 nos levar \u00e0 praia n\u00e3o tarda a chegar. Por isso, vamos guardar nossas for\u00e7as e na hora certa gritaremos uns aos outros:<\/p>\n<p>&#8211; Vai.Nada. Nada. Nada!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje parecia at\u00e9 um dia daqueles. Sabe? Um daqueles dias que a gente nem ousa falar o nome. Um dia de (bate na madeira) falta daquilo ou excesso daquilo outro. Entendeu, n\u00e9? Um dia que a gente preferia esquecer. 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