{"id":2033,"date":"2017-06-03T11:57:41","date_gmt":"2017-06-03T14:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2033"},"modified":"2017-06-03T12:35:44","modified_gmt":"2017-06-03T15:35:44","slug":"o-chato-do-marido-da-melhor-amiga-da-minha-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-chato-do-marido-da-melhor-amiga-da-minha-mulher\/","title":{"rendered":"O chato do marido da melhor amiga da minha mulher"},"content":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio do que acontece entre as mulheres de melhores amigos, os consortes, namorados ou maridos de melhores amigas precisam ter uma rela\u00e7\u00e3o maior do que simples civilidade. \u00c9 preciso encontrar pontos em comum, simpatias e identifica\u00e7\u00f5es que permitam um m\u00ednimo de amizade. Afinal, ao contr\u00e1rio do que acontece com as mulheres de melhores amigos, seremos obrigados a passar muito tempo juntos enquanto elas entram em lojas, v\u00e3o ao banheiro, discutem quintas pessoas ignorando as nossas presen\u00e7as ou simplesmente imp\u00f5e a nossa participa\u00e7\u00e3o de metade de casal em eventos sem nos consultar. Se vamos passar tanto tempo sozinhos, mesmo que acompanhados, com outra pessoa \u00e9 melhor que ele seja pelo menos um pouco nosso amigo.<\/p>\n<p>Com a gente foi assim. Quando nos conhecemos foi, \u00f3bvio, constrangedor. Fomos apresentados como crian\u00e7as que precisam se tornar amigas por la\u00e7os que nos transcendem:<\/p>\n<p>&#8211; Olha, fulaninho, esse \u00e9 o sicraninho. Voc\u00eas v\u00e3o ser melhores amigos daqui por diante, t\u00e1?<br \/>\n&#8211; T\u00e1- n\u00f3s respondemos sem op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao pouco come\u00e7amos a buscar onde escorar a nossa rela\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as a Deus voc\u00ea gostava de quadrinhos, mesmo que n\u00e3o dos mesmos que eu, e a minha biblioteca permitia conversas movidas pelo que n\u00e3o sab\u00edamos um do outro.<\/p>\n<p>&#8211; Uau, voc\u00ea curte Conan?!<br \/>\n&#8211; J\u00e1 gostei mais. Hoje em dia acho os livros melhores do que os quadrinhos.<br \/>\n&#8211; Eu gosto pacas de 007. J\u00e1 vi todos. V\u00e1rias vezes. Voc\u00ea gosta?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o vi todos, mas gosto bastante da fase do Roger Moore.<br \/>\n&#8211; E o Daniel Craig? T\u00e1 perfeito, n\u00e9?<br \/>\n&#8211; Concordo que seja o mais fiel ao livros, mas 007 pra mim \u00e9 um lance anacr\u00f4nico. Por isso a fase galhofa do Roger Moore \u00e9 a minha preferida.<br \/>\n&#8211; Deixa de ser chato.<br \/>\n&#8211; S\u00e9rio. Um dia vou escrever um artigo sobre isso.<br \/>\n&#8211; Quando escrever me manda pra eu ler.<br \/>\n&#8211; Beleza.<\/p>\n<p>E assim, como meninos discutindo seus her\u00f3is e quadrinhos fomos formando nossa rela\u00e7\u00e3o. Quando nossas mulheres se encontravam, era quase um play date para n\u00f3s. Separ\u00e1vamos jogos de tabuleiro, filmes e livros para ofertar um ao outro e estreitar os nossos la\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4, j\u00e1 leu essa hist\u00f3ria do Fantasma?<br \/>\n&#8211; Eu gostava da \u00e9poca do Lee Falk.<br \/>\n&#8211; Deixa de ser chato. Essa parada \u00e9 nova mas \u00e9 bem legal. L\u00ea. Leva.<br \/>\n&#8211; Sei l\u00e1.<br \/>\n&#8211; Leva.<br \/>\n&#8211; T\u00e1, mas n\u00e3o quer levar o livro do Conan?<br \/>\n&#8211; OK. OK. A gente troca, ent\u00e3o. Beleza.<br \/>\n&#8211; Beleza.<\/p>\n<p>Entre empr\u00e9stimos e coment\u00e1rios do que nos ofert\u00e1vamos, a nossa rela\u00e7\u00e3o foi sendo constru\u00edda. Aos poucos n\u00e3o s\u00f3 nos tornamos colegas, mas t\u00e1buas de salva\u00e7\u00e3o nos protegendo mutuamente em situa\u00e7\u00f5es sociais das quais n\u00e3o quer\u00edamos tomar parte.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e1bado vai ter o anivers\u00e1rio da Fulana &#8211; nossas mulheres diriam.<br \/>\n&#8211; O marido da Sicrana vai? &#8211; perguntar\u00edamos um do outro.<br \/>\n&#8211; Vai, por que?<br \/>\n&#8211; Nada, s\u00f3 pra saber. Se ele for vai ser menos chato.<\/p>\n<p>Aos poucos, por nos ajudarmos a sobreviver a ambientes sociais que eram particularmente desconfort\u00e1veis para n\u00f3s, o coleguismo se tornou amizade e todo o resqu\u00edcio de embara\u00e7o inicial tinha sumido na nossa rela\u00e7\u00e3o. Inclusive, come\u00e7amos a prometer nos encontrar separadamente, o que nunca cumprimos, e a estimular a amizade de nossas mulheres s\u00f3 pra podermos nos ver.<\/p>\n<p>&#8211; Tem m\u00f3 tempo que voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea a Fulana.<br \/>\n&#8211; Pois, \u00e9.<br \/>\n&#8211; Chama ela aqui na sexta pra tomar um cerveja e comer um chili.<br \/>\n&#8211; Tem certeza?<br \/>\n&#8211; Tenho. V\u00ea se o chato do marido dela pode vir, t\u00e1?<br \/>\n&#8211; T\u00e1.<\/p>\n<p>Ou pior, come\u00e7amos a inventar motivos idiotas pra nos ver.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4, n\u00e3o t\u00f4 conseguindo instalar essa porra na Smart TV.<br \/>\n&#8211; Olha no manual como faz.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, acho melhor chamar o chato do Sicrano aqui. Ele entende dessas porras.<br \/>\n&#8211; Tem certeza?<br \/>\n&#8211; Claro, chama eles a\u00ed e a gente toma uma cerveja tamb\u00e9m.<br \/>\n&#8211; OOOOK.<\/p>\n<p>Enfim tudo se tornou natural e nos tornamos mais do que uma simples extens\u00e3o da amizade de nossas mulheres. Mesmo nos chateando, nos tornamos amigos.<\/p>\n<p>Um dia voc\u00ea ficou doente.<\/p>\n<p>N\u00e3o levamos a s\u00e9rio. Voc\u00ea ia superar isso. Imagina s\u00f3, logo voc\u00ea ia deixar se abater? N\u00e3o deixou e depois de um tratamento complicado especialmente pela sua cren\u00e7a na imortalidade que lhe impedia de ter um plano de sa\u00fade, tudo voltou ao normal.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a se tornou mais um assunto que passamos juntos mas tinha sido, gra\u00e7as a Deus, superado. Foi mais um lance que mostrou o quanto est\u00e1vamos a\u00ed um para o outro. Chatos, por\u00e9m amigos.<\/p>\n<p>Mas essa doen\u00e7a \u00e9 safada e acabou voltando. Dessa vez pior, mais r\u00e1pida e mais destruidora. Mal ficamos sabendo da volta, voc\u00ea, com suas raz\u00f5es, se isolou. E n\u00f3s tolamente, a princ\u00edpio, respeitamos esse tempo. Em poucos meses, ficamos sabendo que a situa\u00e7\u00e3o tinha piorado.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea come\u00e7ou o segundo tratamento, quebramos o protocolo e fomos visit\u00e1-lo. Voc\u00ea estava mal; fraco; cansado. A esperan\u00e7a que tivera no primeiro tratamento, apesar de novamente declarada, parecia um discurso velho e gasto. Ao contr\u00e1rio da primeira vez, em que a vida continuava apesar de tudo, dessa vez tudo parara em nome da doen\u00e7a. Por mais que torc\u00eassemos, n\u00e3o parecia que havia chance de ganhar. Quando o tratamento chegou ao fim, as not\u00edcias n\u00e3o foram boas. A sua sa\u00fade tinha piorado.<\/p>\n<p>Fomos te visitar novamente. Quase n\u00e3o convers\u00e1vamos mais das coisas que nos tornaram pr\u00f3ximos. A vista lhe faltava, a cabe\u00e7a do\u00eda, e n\u00e3o t\u00ednhamos como conversar entre chopes sobre as coisas das quais gost\u00e1vamos. A doen\u00e7a , como uma convidada indesejada, entrara na sala e pedia toda a nossa aten\u00e7\u00e3o. A n\u00f3s s\u00f3 restava nos calar e ficar lado a lado tentando ignorar o que gritava na nossa frente.<\/p>\n<p>Sem saber como fazer o meu papel de amigo numa situa\u00e7\u00e3o como essa, enfim cumpri a minha promessa, escrevi o artigo sobre o 007 que tanto tinha prometido e lhe enviei. Voc\u00ea, ao contr\u00e1rio do que eu esperava, leu e tinha uma opini\u00e3o a respeito:<\/p>\n<p>&#8211; Entendi o que voc\u00ea quer dizer com anacr\u00f4nico, mas, porra, voc\u00ea \u00e9 chato pra caralho. N\u00e3o d\u00e1 pra deixar as pessoas curtirem as coisas sem dar uma opini\u00e3o? P\u00f4, deixa de ser chato.<\/p>\n<p>Ainda havia muito de voc\u00ea por baixo de toda a doen\u00e7a que o cercava.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, voc\u00ea deu uma pequena melhorada e surgiu a esperan\u00e7a de um novo tratamento. Dessa vez a gente tinha certeza que as coisas iam dar uma virada. Voc\u00ea, mesmo fraco como estava, ia conseguir se recompor, dar a volta por cima e deixar essa hist\u00f3ria pra tr\u00e1s como da \u00faltima vez.<\/p>\n<p>Infelizmente, o tratamento n\u00e3o deu resultado. Nem voc\u00ea, nem nossas mulheres, nem eu sab\u00edamos o que fazer ou dizer. Por isso simplesmente fic\u00e1vamos l\u00e1, esperando. Esperando um milagre, o fim, uma virada para uma situa\u00e7\u00e3o que se era quase insustent\u00e1vel pra n\u00f3s, imagina como era pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>Essa semana voc\u00ea foi internado. N\u00e3o conseguia mais comer e ficou dias sem se alimentar direito. Talvez dessa vez voc\u00ea conseguiria ganhar um peso e, mais fortalecido, come\u00e7ar um caminho \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o deu tempo nem de ter esperan\u00e7as. Ontem voc\u00ea resolveu ir embora.<\/p>\n<p>Me faltam palavras no momento. Por isso escrevi tantas. N\u00e3o entendo des\u00edgnios divinos e tenho grande dificuldade em botar tudo na conta de uma cruel aleatoriedade sem rosto. N\u00e3o sei se foi bom ou se foi ruim; se voc\u00ea deveria ter lutado mais ou menos; se foi melhor descansar; ou se devo me sentir culpado por ter feito menos do que poderia fazer. Simplesmente foi. E contra isso n\u00e3o existem argumentos. Perdi um amigo.<\/p>\n<p>Sem saber o que sentir ou dizer, sou obrigado a retribuir o que voc\u00ea vivia dizendo pra mim:<\/p>\n<p>&#8211; Porra, cara, deixa de ser chato.<\/p>\n<p>Infelizmente \u00e9 tarde demais pra isso e minhas palavras ecoam nas paredes surdas. Mas confesso que quase consigo ouvir voc\u00ea respondendo:<\/p>\n<p>&#8211; Olha quem fala? O cara mais chato do mundo.<\/p>\n<p>Edson, foi um prazer te chatear. Boa viagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio do que acontece entre as mulheres de melhores amigos, os consortes, namorados ou maridos de melhores amigas precisam ter uma rela\u00e7\u00e3o maior do que simples civilidade. \u00c9 preciso encontrar pontos em comum, simpatias e identifica\u00e7\u00f5es que permitam um m\u00ednimo de amizade. 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