{"id":2183,"date":"2017-12-13T18:53:32","date_gmt":"2017-12-13T20:53:32","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2183"},"modified":"2017-12-13T18:54:10","modified_gmt":"2017-12-13T20:54:10","slug":"abaixo-os-privilegios-alheios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/abaixo-os-privilegios-alheios\/","title":{"rendered":"Abaixo os privil\u00e9gios (alheios)"},"content":{"rendered":"<p>https:\/\/twitter.com\/GibaOliva\/status\/939032208378970112<\/p>\n<p>Parece que a onda da vez \u00e9 justificar qualquer tipo de loucura como uma forma de acabar com os privil\u00e9gios. Na Reforma Trabalhista, na Previdenci\u00e1ria, nos campeonatos de futebol e na divulga\u00e7\u00e3o de spoilers (ou n\u00e3o) dos \u00faltimos lan\u00e7amentos de cinema nerd, a maior preocupa\u00e7\u00e3o (declarada) \u00e9 que todos tenham direitos iguais, ou, pelo menos, mais ou menos equilibrados. Infelizmente sabemos que a banda n\u00e3o toca dessa forma e acaba que os tais privil\u00e9gios acabam se exaurindo mesmo no lado mais fraco da corda.<\/p>\n<p>Essa sanha pretensamente justiceira de direitos iguais me lembra um costume bem cruel que o meu pai tinha. Meu av\u00f4 foi coronel e teve, al\u00e9m do meu pai, quatro filhas. Como manda o figurino, todas tinham direito a tal da pens\u00e3o de filha de militar. Meu pai se enfurecia com isso. Al\u00e9m de achar que tinha sido passado pra tr\u00e1s na heran\u00e7a, porque tinha apenas 5 anos quando ficou \u00f3rf\u00e3o, ele se sentia vilipendiado toda vez que lembrava que as minhas tias, todas casadas no religioso e com filhos, podiam visitar mensalmente o banco pra tirar o seu troco por serem filhas &#8220;solteiras&#8221; de militar. Mesmo que s\u00f3 no civil.<\/p>\n<p>De dois em dois anos, ele se dava conta dessa injusti\u00e7a, tinha um faniquito e se punha a trabalhar pelo fim dos privil\u00e9gios. Como n\u00e3o podia fazer muito a respeito, ele pedia pra algu\u00e9m ligar pras irm\u00e3s dele e perguntar se elas estavam vivas:<\/p>\n<p>&#8211; Que absurdo! Claro que eu estou viva. Onde j\u00e1 se viu?- elas se indignavam.<br \/>\n&#8211; Pois, \u00e9, minha senhora- o testa de ferro dele respondia.- Meu nome \u00e9 tenente sicrano e trabalho no minist\u00e9rio do ex\u00e9rcito, mais especificamente no setor de pens\u00f5es. Como as senhoras j\u00e1 est\u00e3o numa idade beeeem avan\u00e7ada, a gente precisa verificar se ainda est\u00e3o vivas pra evitar que algu\u00e9m esteja recolhendo indevidamente a sua pens\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Sei, sei. Mas eu estou viva. Pode avisar a\u00ed que eu estou viva.<br \/>\n&#8211; Quisera eu que fosse t\u00e3o simples, minha senhora. Quisera eu. Pra comprovar que n\u00e3o morreram, as senhoras v\u00e3o precisar se apresentar no dia 2 de janeiro \u00e0s 7 da manh\u00e3 na vila militar com os seguintes documentos&#8230;<\/p>\n<p>E o testa de ferro desfiava uma lista de documentos hom\u00e9rica que ia dar um trabalho enorme pra elas conseguirem arrumar.<\/p>\n<p>Morrendo de medo de perder o seu privil\u00e9gio, as velhinhas rumavam pra onde eram mandadas com uma pastinha carregada de certid\u00f5es, carteirinhas e declara\u00e7\u00f5es, s\u00f3 pra darem com a cara na porta.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que, toda vez que ele fazia isso, elas sempre iam pra onde fossem mandadas. Eu questionava como elas ainda podiam acreditar nessa lorota depois de terem ca\u00eddo tantas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; O medo de perder a boca \u00e9 maior que a desconfian\u00e7a. Por maior que a desconfian\u00e7a seja elas nunca v\u00e3o querer abrir m\u00e3o dessa mamata. Vai que \u00e9 verdade. Vai que- meu pai explicava.<\/p>\n<p>Quando vejo essas lutas pelo fim dos privil\u00e9gios, por mais justas que sejam, sempre me pergunto o quanto disso n\u00e3o \u00e9 inveja. Se meu pai, por exemplo, recebesse essa pens\u00e3o, ser\u00e1 que ele abriria m\u00e3o da mesma pelos seus &#8220;valores&#8221; e continuaria atormentando as minhas tias? Duvido.<\/p>\n<p>Por isso, acho muito doido que o pessoal fique revoltado quando aqueles com poder decis\u00f3rio (legislativo e executivo), ou com a for\u00e7a da lei (judici\u00e1rio) ou com o direito legal de portar armas (for\u00e7as militares) fiquem sempre de fora desses cortes de privil\u00e9gios. Nada mais natural que se outorguem os direitos que os outros n\u00e3o podem ter.<\/p>\n<p>Claro que isso n\u00e3o justifica o imenso abismo entre eles e n\u00f3s, mas, n\u00e3o sejamos ing\u00eanuos, quem busca o poder o faz pelo b\u00f4nus e n\u00e3o pelo \u00f4nus.<\/p>\n<p>Uma sa\u00edda? Vejo poucas. Ou voc\u00ea busca o poder pra ter esses privil\u00e9gios e ficar do outro lado da discuss\u00e3o, ou precisa se acostumar a ser a v\u00edtima desse esquete tragic\u00f4mico chamado sociedade brasileira. Por outro lado, o aperto do lado de c\u00e1 \u00e9 t\u00e3o grande que eles poderiam pelo menos dar um refresco pra gente. N\u00e3o acha?<\/p>\n<p>Como \u00e9 imposs\u00edvel acabar com esses privil\u00e9gios todos, a minha sugest\u00e3o seria que eles dessem uma pequena aliviada nos deles e nos permitissem um punhado maior das migalhas que sempre nos restaram. Dessa forma a hipocrisia seria mais facilmente generalizada e n\u00e3o um privil\u00e9gio (olha ele a\u00ed de novo) apenas do grupo que se encontra eternamente no poder. Assim, tipo o que rolou no super ciclo.<\/p>\n<p>Afinal, se meu pai tivesse recebido o maldito rel\u00f3gio Patek Philippe do meu av\u00f4 na sua heran\u00e7a, que ele alegava ter lhe sido roubado, tenho certeza absoluta, ele n\u00e3o seria t\u00e3o cruel com as pobres privilegiadas das suas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>Ou ser\u00e1 que a nossa \u00fanica sa\u00edda continuar\u00e1 a ser, como fazia meu pai, transtornar a vida dos privilegiados at\u00e9 que esse b\u00f4nus se torne um \u00f4nus?<\/p>\n<p>Algo a se pensar. Algo a se pensar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>https:\/\/twitter.com\/GibaOliva\/status\/939032208378970112 Parece que a onda da vez \u00e9 justificar qualquer tipo de loucura como uma forma de acabar com os privil\u00e9gios. 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