{"id":2193,"date":"2017-12-19T09:03:04","date_gmt":"2017-12-19T11:03:04","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2193"},"modified":"2017-12-19T09:03:04","modified_gmt":"2017-12-19T11:03:04","slug":"no-onibus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/no-onibus\/","title":{"rendered":"No \u00f4nibus"},"content":{"rendered":"<p>A mulher chega.<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed, t\u00e1 indo para Mau\u00e1?<br \/>\n&#8211; T\u00f4 &#8211; responde o homem.<br \/>\n&#8211; P\u00f4, ent\u00e3o, posso sentar do seu lado? Conversando a viagem passa mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p>A mulher se senta e come\u00e7a a falar. Conta que vai encontrar o namorado. Namorado? N\u00e3o, marido. Ou quase. Conta que trabalha no Banco do Brasil. Gerente? N\u00e3o, no atendimento. Que mais? Mora na G\u00e1vea, tem dois coelhinhos com nome de gente e n\u00e3o come nada h\u00e1 dois dias. Dieta? N\u00e3o, sem apetite. Por qu\u00ea? Muita tens\u00e3o. O homem faz massagem na m\u00e3o dela. Ela ri.<\/p>\n<p>&#8211; Ai que bom. Faz de novo.<\/p>\n<p>O homem tenta dizer que \u00e9 vegetariano. Ela interrompe.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m sou.<\/p>\n<p>Conta que j\u00e1 tirou uma parte do \u00fatero, desmaia sem motivos e gosta de comer Tofu. Gosta? N\u00e3o, adora. Conta da av\u00f3 doente. Conta dos ex-namorados. Uns brutos. Al\u00e9m de a abandonarem, at\u00e9 batiam nela. Fala do namorado, o novo, o atual. Um doce. V\u00e3o se casar.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o morar no Rio ou em Mau\u00e1? &#8211; o homem pergunta.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabe. Mas se amam. Ele trata ela muito bem. Ele tem uma pousada. Em Maromba? N\u00e3o, em Maring\u00e1. O \u00f4nibus para numa rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 frio. Vamos tomar um vinho? &#8211; ela convida.<\/p>\n<p>O homem aceita. Ela desce para buscar o vinho. O homem desce e fica na frente do \u00f4nibus. Tenso. Faltam apenas 2 horas para a viagem acabar e n\u00e3o aconteceu nada. Ela volta com o vinho. Sobem no \u00f4nibus. A viagem continua.<\/p>\n<p>&#8211; U\u00e9, num trouxe copo?- o homem se espanta.<\/p>\n<p>Eles bebem no gargalo. Corre\u00e7\u00e3o: ela bebe. Ele? D\u00e1 pequenos goles. A voz dela, j\u00e1 alta, aumenta de tom. Os outros passageiros, j\u00e1 atentos a conversa, desde o in\u00edcio, aproveitam para rir. Alto. O homem, impaciente, acha que ela j\u00e1 est\u00e1 b\u00eabada o suficiente e faz o primeiro movimento.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, posso, &#8211; ela o afasta- sou casada.<br \/>\n&#8211; E da\u00ed? Eu tamb\u00e9m- ele responde.<\/p>\n<p>O celular dela toca. \u00c9 o namorado. O homem se cala.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, querido, eu n\u00e3o estou b\u00eabada &#8211; nega.<\/p>\n<p>O namorado desliga o telefone na cara dela. Ela come\u00e7a a chorar. O \u00f4nibus chega em Mau\u00e1. O homem desce sem se despedir. Ela parece n\u00e3o notar e continua chorando. Tenta ligar para o namorado. N\u00e3o consegue. Fala sozinha. Lamenta. Resmunga.<\/p>\n<p>&#8211; Num faz isso comigo, eu te amo! &#8211; grita para o telefone mudo.<\/p>\n<p>Chora, geme. O \u00f4nibus chega em Maring\u00e1. Ela, cambaleando, desce. Some. No \u00f4nibus, apenas uma garrafa vazia de vinho para contar a hist\u00f3ria. Os outros passageiros riem da mulher. Mais uma vez.<\/p>\n<p>No dia seguinte, na volta, quando paramos em Maring\u00e1, fiquei esperando ela subir no \u00f4nibus. Ela n\u00e3o subiu. Pensei em ficar triste. Ela pode ter apanhado desse tamb\u00e9m. Ela pode ter sido abandonada mais uma vez. Ela pode ter procurado o homem que conheceu no \u00f4nibus. Ela pode, at\u00e9, ter ficado de bem com o namorado. Possibilidades demais. Deixei para l\u00e1. O que fazer? Simples, transformar numa anedota. N\u00e3o existe maneira melhor de esquecer e passar o problema para outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mulher chega. &#8211; E a\u00ed, t\u00e1 indo para Mau\u00e1? &#8211; T\u00f4 &#8211; responde o homem. &#8211; P\u00f4, ent\u00e3o, posso sentar do seu lado? Conversando a viagem passa mais r\u00e1pido. A mulher se senta e come\u00e7a a falar. Conta que vai encontrar o namorado. Namorado? N\u00e3o, marido. Ou quase. 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