{"id":2201,"date":"2017-12-30T10:47:20","date_gmt":"2017-12-30T12:47:20","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2201"},"modified":"2017-12-30T11:17:10","modified_gmt":"2017-12-30T13:17:10","slug":"os-livros-dos-jos-e-o-livro-de-jo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/os-livros-dos-jos-e-o-livro-de-jo\/","title":{"rendered":"Os livros dos J\u00f3s e o livro de J\u00f4"},"content":{"rendered":"<p>No segundo semestre de 2017 estranhamente me peguei lendo biografias, ou melhor, autobiografias de comediantes. A primeira foi uma sobre <a href=\"http:\/\/amzn.to\/2CrzIQf\">o caso de amor de Jerry Lewis e Dean Martin<\/a>. Uma bela hist\u00f3ria de amizade que reproduz com muita sinceridade e do\u00e7ura o velho &#8220;boy meets boy, boy loses boy, boy gets boy back thanks to Frank Sinatra&#8221;. A segunda, um livro de <a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/jose-vasconcelos\/os-caminhos-do-sucesso\/2081848304\">auto-ajuda do Jos\u00e9 Vasconcelos<\/a>&#8211; s\u00e9rio!- que serve muito bem como a autobiografia que ele nunca escreveu. Entre um cap\u00edtulo e outro, enquanto explica as leis c\u00f3smicas do sucesso e como atingi-lo, Z\u00e9 Vasconcelos d\u00e1 um show de humildade contando os problemas que passou na vida e como lidou com eles. A terceira foi a surpreendente e telegr\u00e1fica <a href=\"http:\/\/amzn.to\/2Ee1mR4\">autobiografia de Rodney Dangerfield<\/a>. Contada em pequenos par\u00e1grafos, diretos e contundentes, como as piadas em seus shows de stand up, Dangerfield, como os demais, trata os problemas e tristezas que viveu, e a falta de respeito da qual sempre foi v\u00edtima, com muita sabedoria e bom humor. A quarta, <a href=\"http:\/\/amzn.to\/2zQtgz7\">uma colet\u00e2nea dos textos e apresenta\u00e7\u00f5es de Bill Hicks<\/a>&#8211; se nunca ouviu falar dele, pode procurar agora- que se tornou o \u00fanico registro da sua curta e excepcional vida. E, pra fechar o ano, li <a href=\"http:\/\/amzn.to\/2DyNM9N\">o Livro de J\u00f4<\/a>.<\/p>\n<p>Pra come\u00e7ar, vou te dizer que nunca topei muito o J\u00f4. Assistia ao Viva o Gordo quando pequeno, achava algumas coisas legais, mas n\u00e3o me falava ao cora\u00e7\u00e3o como a Chiclete com Banana, o Casseta Popular e o Planeta Di\u00e1rio que t\u00ednhamos nas bancas. Era um humor velho que n\u00e3o parecia pra minha gera\u00e7\u00e3o. Quando ele saiu da Globo e foi pro SBT montar seu talk show, ap\u00f3s amargar mais um per\u00edodo de personagens anuais e esquetes, n\u00e3o achei nada demais. Enquanto todo mundo babava nas suas entrevistas, eu j\u00e1 sentia que os seus melhores momentos eram justamente aqueles em que n\u00e3o deixava o entrevistado falar e ele pr\u00f3prio se entrevistava. Era um show de ego que n\u00e3o me agradava. Quando, nos anos 90, ele foi al\u00e7ado informalmente \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de maior &#8220;intelectual&#8221; brasileiro, achei que era s\u00f3 mais um sinal da nossa indig\u00eancia cultural. Em suma, nunca fui um f\u00e3.<\/p>\n<p>Mas, confesso, estou ficando velho e indulgente. Gra\u00e7as aos samples do Kindle, tenho me dado a chance de conhecer coisas que facilmente passariam ao largo da minha pequena aten\u00e7\u00e3o. Pedi o sample, li e mordi a l\u00edngua. Fui fisgado pela sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como a maioria dos outros comediantes que li esse ano, ele n\u00e3o teve uma vida f\u00e1cil. Houve, claro, momentos de fartura, mas h\u00e1 sempre no ar sinais de azares repentinos, trag\u00e9dias anunciadas e temores que se tornam reais. Nada diferente da vida de qualquer um de n\u00f3s. Nada diferente de qualquer com\u00e9dia. A diferen\u00e7a das biografias normais \u00e9 como eles lidam com isso. N\u00e3o h\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o de sentido, m\u00e9rito, recompensa ou insatisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 vit\u00f3rias, derrotas ou miss\u00f5es. Os comediantes apenas olham para a vida como uma sucess\u00e3o de hist\u00f3rias curiosas, boas ou ruins, mas desprovidas de sentido e raz\u00e3o. Coisas para observar, estranhar, fazer gra\u00e7a e rir.<\/p>\n<p>\u00c9 nessas horas que me questiono se h\u00e1 um verdadeira diferen\u00e7a entre a trag\u00e9dia e a com\u00e9dia.<\/p>\n<p>Enquanto o drama \u00e9 puro Stanislavski, a com\u00e9dia \u00e9 basicamente brechtiana- favor n\u00e3o dar uma de deputado carioca e confundir com Bertoldo Brecha- na medida em que pede do seu ator um distanciamento consciente do personagem e da situa\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo a com\u00e9dia estimula no espectador esse mesmo distanciamento da a\u00e7\u00e3o e dos comportamentos exibidos que s\u00e3o apenas um espelho da vida daqueles que os assistem. Enquanto o drama pede envolvimento e emo\u00e7\u00e3o, a com\u00e9dia te permite observa\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o. Sobre o mundo, sobre os outros e, principalmente, sobre n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Por isso, acho que o nome do livro n\u00e3o poderia ser mais apropriado. Sei que pode parecer apenas um trocadilho safado, e \u00e9, mas comparar J\u00f3 e J\u00f4 traz uma sugest\u00e3o interessante. J\u00f3 n\u00e3o era apenas um sofredor resignado que nos prova que Deus sempre est\u00e1 certo no fim, se crermos nele e o temermos. J\u00f3 era um comediante. Ao contr\u00e1rio de n\u00f3s, que recebemos a hist\u00f3ria completa, ele n\u00e3o tinha como saber o seu final, e, mesmo assim, mantinha a sua postura de distanciamento. N\u00e3o podia ser um simples caso de f\u00e9 cega. N\u00f3s, humanos, somos po\u00e7os de d\u00favidas. Com J\u00f3 n\u00e3o devia ser diferente. E se terminasse na amargura? E se Deus, no fim das contas, n\u00e3o existisse? E se no fim tudo n\u00e3o passasse apenas de uma piada? Mesmo frente a todas essas d\u00favidas com as quais convivia, ele conseguiu se afastar das agruras que sofria e, mesmo sendo acusado pelo seu infort\u00fanio pelos pr\u00f3prios amigos, dizia: &#8220;Podem parar. Eu <strong>sei<\/strong> que n\u00e3o pequei. Agora quanto a raz\u00e3o pela qual estou sendo punido? N\u00e3o tenho a menor ideia&#8221;. Enquanto os seus amigos buscavam uma raz\u00e3o para tudo e agiam com seriedade, ele deixava as coisas acontecerem e nos trazia mais d\u00favidas do que certezas.<\/p>\n<p>Na vida que J\u00f4 conta acontece o mesmo. A m\u00e3e perde os dedos e se consola por poder pedir desconto a manicure. O pai perde tudo mas mant\u00e9m a dignidade, e quando perde um neg\u00f3cio por n\u00e3o se corromper, aliviado, consegue dormir melhor. A ditadura se instaura, e ele dan\u00e7a em cima da mesa da reda\u00e7\u00e3o do jornal. Seu filho nasce, mas sua felicidade dura apenas 40 minutos, findando com a descoberta\u00a0 de uma doen\u00e7a gen\u00e9tica. Uma s\u00e9rie de pequenas trag\u00e9dias que se tornam com\u00e9dia pelo distanciamento e pela certeza de que n\u00e3o h\u00e1 certeza de nada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, me digam, n\u00e3o \u00e9 essa a fun\u00e7\u00e3o de um verdadeiro comediante? Nos fazer rir de n\u00f3s mesmo frente aos infort\u00fanios que levamos a s\u00e9rio demais? Nos permitir suportar a falta de sentido com a for\u00e7a do riso? Afinal, se a vida n\u00e3o passa de uma hist\u00f3ria contada por um idiota, cheia de som e f\u00faria, sem sentido algum, por que devemos nos preocupar?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2203\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/0098721-300x127.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"170\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/0098721-300x127.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/0098721-768x326.jpg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/0098721-750x318.jpg 750w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/0098721.jpg 1009w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>Se eles n\u00e3o se pr\u00e9 ocuparam, acho n\u00e3o devemos nos pr\u00e9 ocupar tamb\u00e9m. N\u00f3s, esse bando de J\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No segundo semestre de 2017 estranhamente me peguei lendo biografias, ou melhor, autobiografias de comediantes. A primeira foi uma sobre o caso de amor de Jerry Lewis e Dean Martin. 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