{"id":2235,"date":"2018-02-03T08:11:11","date_gmt":"2018-02-03T10:11:11","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2235"},"modified":"2018-02-03T11:30:03","modified_gmt":"2018-02-03T13:30:03","slug":"memento-mori","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/memento-mori\/","title":{"rendered":"Memento Mori"},"content":{"rendered":"<p>Diz a lenda que quando um general romano voltava pra capital do imp\u00e9rio coberto de gl\u00f3rias, durante a parada triunfal realizada em sua homenagem, um escravo ficava ao seu lado sussurrando em seu ouvido: &#8220;<em>memento mori&#8230; memento mori&#8230;<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo ver os pol\u00edticos, pseudo intelectuais e celebridades, bazofiando seu poder e suas vit\u00f3rias ilus\u00f3rias na TV, na imprensa e nas redes sociais, sem me sentir como aquele escravo e sem pensar alto: &#8220;<em>memento mori&#8230; memento mori..<\/em>.&#8221;.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca do imp\u00e9rio romano, a fun\u00e7\u00e3o desse escravo era lembrar ao general que, apesar de todas as suas vit\u00f3rias, ele ainda era mortal e todas as suas conquistas seriam passageiras; e, por isso, n\u00e3o havia motivo para vaidade ou orgulho. Por essa raz\u00e3o eles eram obrigados a ouvir: &#8220;<em>memento mori&#8230; memento mori&#8230;<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Hoje, infelizmente, isso n\u00e3o funciona mais como naquela \u00e9poca. N\u00e3o porque deixamos de ser mortais ou porque nossas obras permanecer\u00e3o para sempre. Muito pelo contr\u00e1rio. Tudo o que criamos \u00e9 ainda mais transit\u00f3rio e importa cada vez menos para a hist\u00f3ria da humanidade. Mesmo assim parece que ningu\u00e9m mais entende quando dizemos: &#8220;<em>memento mori&#8230; memento mori&#8230;<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que parece, a princ\u00edpio essa n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de falta de entendimento; \u00e9 uma quest\u00e3o filos\u00f3fica. Enquanto no imp\u00e9rio romano, as pessoas seguiam preceitos estoicos ou relacionados ao cristianismo primitivo, hoje vivemos um hedonismo iluminado, em que o pragmatismo e as conquistas da raz\u00e3o s\u00e3o colocadas a servi\u00e7o do prazer sem fim. Por isso, por mais que sejamos lembrados da nossa mortalidade a todo momento, a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente quando ouvimos: &#8220;<em>memento mori&#8230; memento mori&#8230;<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Hoje, quando somos lembrados da nossa transitoriedade, s\u00f3 pensamos em aproveitar ao m\u00e1ximo antes que a morte chegue. Pensamos que, se nada \u00e9 permanente, porque dever\u00edamos deixar algo em p\u00e9 depois que nos formos? Pra que ser humildes? Pra que respeitar os outros? Vamos esgotar tudo e todos com o nosso poder pela nossa simples satisfa\u00e7\u00e3o pessoal. Afinal de contas: &#8220;<em>memento mori&#8230; memento mori&#8230;<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Mas essa \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o errada. Isso n\u00e3o \u00e9 <em>memento mori<\/em>; sequer \u00e9 <em>carpe diem<\/em>. Isso est\u00e1 mais para <em>clepto diem<\/em>: uma busca desenfreada pela satisfa\u00e7\u00e3o pessoal atrav\u00e9s do abuso de poder sobre o outro. Isso n\u00e3o \u00e9 uma lembran\u00e7a de que somos mortais, mas, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o dessa verdade. Isso \u00e9 o oposto de &#8220;<em>memento mori&#8230; memento mori&#8230;<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 roubar sem parar mesmo quando n\u00e3o tem mais onde guardar ou como gastar. Isso \u00e9 provocar pol\u00eamicas vazias s\u00f3 para estimular uma adora\u00e7\u00e3o sem prop\u00f3sito. Isso \u00e9 maltratar pessoas em nome de uma lideran\u00e7a inexistente. Isso \u00e9 colocar pa\u00edses em conflito para reafirmar uma masculinidade poente. Isso \u00e9 tratar c\u00f4njuges como trof\u00e9us, filhos como soldados, e vizinhos como gado. Isso \u00e9 estender a altos custos uma vida sem significado s\u00f3 pelo prazer de exercer um poder que nada cria e s\u00f3 destr\u00f3i. Isso \u00e9 o que me faz gritar para esses ouvidos surdos de raz\u00e3o: &#8220;<em>MEMENTO MORI! MEMENTO MORI!<\/em>&#8221;<\/p>\n<p>Mas sou uma voz pequena; sem for\u00e7a; sem poder. Por isso, como escravo de mim mesmo, e ciente de que vou morrer, preciso encontrar energia para lutar pelo que acho certo e tornar esse mundo um lugar menos pior. Assim, mesmo desesperan\u00e7oso, suspiro em meus pr\u00f3prios ouvidos, as palavras que todos devemos lembrar:<\/p>\n<p><em>Memento mori&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Memento mori&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Memento&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Mori.<\/em><\/p>\n<p>E sonho que essas palavras cheguem certeiras aos ouvidos que precisam ouvi-las.<\/p>\n<p><em>Memento Mori.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diz a lenda que quando um general romano voltava pra capital do imp\u00e9rio coberto de gl\u00f3rias, durante a parada triunfal realizada em sua homenagem, um escravo ficava ao seu lado sussurrando em seu ouvido: &#8220;memento mori&#8230; memento mori&#8230;&#8220;. 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