{"id":2247,"date":"2018-02-09T08:59:37","date_gmt":"2018-02-09T10:59:37","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2247"},"modified":"2018-02-09T08:59:37","modified_gmt":"2018-02-09T10:59:37","slug":"um-lembrete-pra-mim-mesmo-sobre-belo-horizonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/um-lembrete-pra-mim-mesmo-sobre-belo-horizonte\/","title":{"rendered":"Um lembrete pra mim mesmo sobre Belo Horizonte"},"content":{"rendered":"<p>Pode ser um exagero dizer isso, mas a minha clara impress\u00e3o, nos quatro anos e meio como morador, \u00e9 que\u00a0Belo Horizonte\u00a0\u00e9 uma cidade mal amada. N\u00e3o por que lhe faltem admiradores. Muito pelo contr\u00e1rio. Pelas ruas n\u00e3o \u00e9 d\u00edficil ver pessoas vestindo camisas com os dizeres &#8220;Amo\u00a0BH\u00a0Radicalmente&#8221; ou proclamando seu amor pela cidade de forma apaixonada. Mas esse amor, na minha opini\u00e3o, pouco se materializa. \u00c9 poss\u00edvel inclusive ver esses mesmos apaixonados deixando a cidade todos os fins de semana pois &#8220;Em\u00a0BH\u00a0n\u00e3o tem nada pra fazer&#8221;. Est\u00e3o totalmente enganados.<\/p>\n<p>Parece que, como bom marido ausente, o belo horizontino m\u00e9dio passa tempo demais no botequim da esquina falando da cidade &#8220;amada&#8221; ao inv\u00e9s de cortej\u00e1-la adequadamente. E quando come\u00e7a a aproveitar suas belezas se rende facilmente ao que est\u00e1 na moda ou faz escolhas incrivelmente erradas que s\u00f3 aumentam o seu desejo de ir pro s\u00edtio nos fins de semana.<\/p>\n<p>Enfim, \u00e9 uma cidade &#8220;taken for granted&#8221;. Suas belezas mais conhecidas s\u00e3o ostensivamente visitadas mas o que realmente representa a alma da cidade \u00e9 t\u00e3o integrado ao seu ambiente que pode at\u00e9 passar desapercebido ou morrer sem aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quer ver s\u00f3? Todo mundo vai ao Mercado Central mas n\u00e3o costuma passar dos bares que formam o primeiro cintur\u00e3o. Ficam espremidos entre mineiros e turistas, tomam uma cerveja ruim e saem com uma hist\u00f3ria curiosa para contar. Nessa hora o folcl\u00f3rico se torna o inimigo do \u00f3timo. Isso \u00e9 que deve ter levado \u00e0 fal\u00eancia, por exemplo, o Sabores e Id\u00e9ias, lojinha pequena com v\u00e1rias del\u00edcias (sandu\u00edches no p\u00e3o de queijo, tortas de sardinha e broas incr\u00edveis) que ainda era especializado em refrigerantes ex\u00f3ticos de todo o Brasil. N\u00e3o sobreviveu aos bares comuns.<\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 bons lugares a visitar no Mercado. Na\u00a0tabacaria Sabi\u00e1\u00a0h\u00e1 um bom caf\u00e9 e um belo p\u00e3o de queijo com pernil; no\u00a0Bar da L\u00f4ra\u00a0h\u00e1 os pratos que fizeram a sua fama no comida di buteco, como o Pure Energy of The Blonde, ou, em bom portugu\u00eas,\u00a0pura garra da L\u00f4ra\u00a0; j\u00e1 o\u00a0Coisas D&#8217;Hana\u00a0representa bem a culin\u00e1ria \u00e1rabe em\u00a0BH; e ainda h\u00e1 a possibilidade de meter a m\u00e3o na massa e ter\u00a0aulas de culin\u00e1ria com a equipe do Eduardo Maya no espa\u00e7o Nestl\u00e9.<\/p>\n<p>Por falar no chef Eduardo Maya, agora, depois de ter sa\u00eddo do Comida di Buteco, ele tem \u00a0uma feira chamada\u00a0Aproxima. Muito boa para provar e conhecer novos sabores e comprar produtos org\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Atualmente existem diversas feiras e eventos de rua em\u00a0BH, mas normalmente sua periodicidade \u00e9 o famoso quando d\u00e1 e a sua localiza\u00e7\u00e3o \u00e9 onde der. Vale acompanhar o\u00a0SouBH\u00a0para estar por dentro desses eventos. A feira Aproxima tamb\u00e9m \u00e9 itinerante e de periodicidade indefinida, mas fui a ela diversas vezes no Mercado Cruzeiro, um outro espa\u00e7o excelente e tamb\u00e9m menosprezado.<\/p>\n<p>Pra provar o meu ponto, no Mercado Cruzeiro todo s\u00e1bado tem\u00a0uma bela feira de vinil, rodeada de barzinhos com cervejas artesanais, que quase ningu\u00e9m conhece. Para comer, o povo costuma ir na\u00a0Parrila del Mercado\u00a0\u00a0que, confesso, tem uma excelente comida argentina, mas poucos se esfor\u00e7am para ir ao outro lado do mercado e aproveitar os espetinhos da\u00a0Espetaria do Mercado, onde voc\u00ea encontra espetos ex\u00f3ticos e chopp Backer baratinho. At\u00e9 se voc\u00ea quiser se desentoxicar de tanta carne, no mesmo mercado tem o\u00a0Formoso\u00a0com delicias vegetarianas.<\/p>\n<p>Acho que resumir\u00a0BH\u00a0\u00e0 culin\u00e1ria mineira \u00e9 um crime. \u00d3bvio que tem coisas maravilhosas como o Xapuri e tal, mas h\u00e1 um mundo muito maior a se conhecer no quesito gastronomia: a\u00a0Salumeria, com uma linda vista do alto da Pra\u00e7a da Esta\u00e7\u00e3o; o\u00a0Duke&#8217;n&#8217; Duke, com boas cervejas, hamb\u00fargueres e comida bem brit\u00e2nica; o\u00a0Kobes, de carnes de ca\u00e7a e com o charme de ser dentro de uma garagem; o bar\u00a0Seu Rom\u00e3o\u00a0, em Santo Ant\u00f4nio, pertinho de onde eu morava, com petiscos razo\u00e1veis, mas com cervejas excelentes; e o\u00a0Caf\u00e9 Palhares, o lar do Kaol (que se eu nunca tivesse comido, ia perder minha carteirinha de ex-morador de\u00a0BH).<\/p>\n<p>Mas\u00a0BH\u00a0n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 comida, tem bebida tamb\u00e9m. Estranhamente, em\u00a0Belo Horizonte, a aclamada B\u00e9lgica brasileira, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil tomar as pr\u00f3prias cervejas locais. Alguns lugares s\u00e3o bem conhecidos pela quantidade de cervejas, como o Caf\u00e9 Viena, mas n\u00e3o vale a pena visit\u00e1-los. A sugest\u00e3o \u00e9 ir \u00e0s distribuidoras diretamente e levar boas cervejas para casa, ou tomar uma l\u00e1 mesmo. Os dois melhores lugares que encontrei s\u00e3o o\u00a0Tonel\u00a0, perto da Savassi, e o\u00a0Mam\u00e3e Bebidas\u00a0na fronteira entre Floresta e Santa Tereza.\u00a0 Uma outra op\u00e7\u00e3o bem legal \u00e9 fazer o beer tour do Rodrigo Lemos e conhecer as cervejarias e diversos bares legais num mesmo dia. O pre\u00e7o \u00e9 bem em conta para o que oferece. Mas tamb\u00e9m \u00e9 quando der, onde der.<\/p>\n<p>Culturalmente, os belzontinos m\u00e9dios tamb\u00e9m conhecem muito pouco da cidade. Enchem as pe\u00e7as estreladas por atores globais e as exposi\u00e7\u00f5es badaladas mas, fora o usual (KM de Vantagens Hall, Pal\u00e1cio das Artes, SESC e etc), h\u00e1 uma clara pregui\u00e7a em se ocupar novos espa\u00e7os ou privilegiar os antigos. Assim, voc\u00ea n\u00e3o os v\u00ea nas noites de sexta no\u00a0Edif\u00edcio Maleta\u00a0curtindo os sebos e os bares moderninhos que abriram na sua varanda, nem visitando a tradicional Cantina do Lucas; eles n\u00e3o v\u00e3o ao\u00a0Teatro Giramundo; n\u00e3o frequentam a\u00a0Galeria do Rock\u00a0(\u00e9, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 em S\u00e3o Paulo que tem); n\u00e3o conhecem o\u00a0museu dos brinquedos; n\u00e3o v\u00e3o \u00e0\u00a0Biblioteca Estadual Luis Be\u00e7a, que tem pe\u00e7as e eventos interessantes; nem v\u00e3o ali do lado no\u00a0Espa\u00e7o do Conhecimento da UFMG, que tem inclusive um planet\u00e1rio; n\u00e3o costumam ir no\u00a0Belas Artes\u00a0para curtir um filminho, a livraria e o bistr\u00f4; e muito menos iam no falecido Nelson Bordello ou na festa\u00a0Alta Fidelidade\u00a0ou ainda tem um preconceito eterno com o belo inferninho que \u00e9\u00a0A Obra. Quando vamos aos arredores da cidade, a coisa piora: n\u00e3o conhecem\u00a0as cervejarias de Nova Lima; n\u00e3o foram comer Fondue no\u00a0Topo do Mundo; \u00a0e, pasme, a grande maioria que conheci nunca foi no Inhotim. \u00c9 de doer o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O povo fica t\u00e3o enfurnado nos carros, nos shoppings, nas pr\u00f3prias casas e nos botequins que a impress\u00e3o \u00e9 que o que h\u00e1 de mais belo na cidade vai morrendo \u00e0 m\u00edngua por falta de carinho.<\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Existem muitos que amam a cidade de fato e mesmo os que andam pelo mau caminho podem ser salvos. Por isso acho que o maior gesto de amor \u00e0\u00a0Belo Horizonte\u00a0\u00e9 n\u00e3o s\u00f3 aproveit\u00e1-la plenamente, mas especialmente apresent\u00e1-la a todos que puder. E aqueles que j\u00e1 moram nessa linda cidade e n\u00e3o a conhecem de fato s\u00e3o os primeiros que devem ser resgatados.<\/p>\n<p>Amar\u00a0BH\u00a0radicalmente \u00e9 isso. Sair \u00e0s ruas e descobrir o que a cidade tem a oferecer com o misto de desconfian\u00e7a e encantamento que s\u00f3 o mineiro consegue ter. Foi isso o que descobri. Foi isso o que\u00a0BH\u00a0me ensinou. E foi por isso que essa cidade tanto me encantou. E talvez por esse amor \u00e9 que ela tenha sido o lugar que o destino escolheu para a minha filha nascer.<\/p>\n<p>Espero que essas dicas me ajudem a redescobrir a cidade.\u00a0 N\u00e3o esque\u00e7a de me dizer depois o que voc\u00ea encontrar de novo por l\u00e1!<\/p>\n<p>Bom carnaval!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode ser um exagero dizer isso, mas a minha clara impress\u00e3o, nos quatro anos e meio como morador, \u00e9 que\u00a0Belo Horizonte\u00a0\u00e9 uma cidade mal amada. N\u00e3o por que lhe faltem admiradores. Muito pelo contr\u00e1rio. 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