{"id":2327,"date":"2018-07-07T11:07:51","date_gmt":"2018-07-07T14:07:51","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2327"},"modified":"2018-07-07T11:07:51","modified_gmt":"2018-07-07T14:07:51","slug":"meu-ultimo-tweet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/meu-ultimo-tweet\/","title":{"rendered":"Meu \u00faltimo tweet"},"content":{"rendered":"<p>Confesso que estou surpreso.<\/p>\n<p>Depois que <a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/518-dias-sem-facebook\/\">sa\u00ed do Facebook em 2012<\/a>, sempre considerei o twitter um recanto de paz. Poucas pessoas; papos construtivos e bem humorados;, refer\u00eancias interessantes; um lugar onde se estar.<\/p>\n<p>Infelizmente, nos \u00faltimos tempos comecei a ver um afluxo de caras conhecidas e o clima meio que come\u00e7ou a mudar. Numa aparente debandada do Facebook, que, pelos coment\u00e1rios, imagino estar mais t\u00f3xico que as piscinas dos clientes da Erin Brockovich, o pessoal veio se refugiar no twitter.<\/p>\n<p>Infelizmente, muitas vezes os que fogem de algo carregam em si aquilo mesmo do que est\u00e3o fugindo. Logo, a mentalidade do Facebook (paga\u00e7\u00e3o de moral em text\u00e3o, conversas agressivas guiadas pela necessidade de lacrar, narcisismo exagerado e sem motivo) se uniu ao esp\u00edrito de zoa\u00e7\u00e3o do twitter e transformou o ambiente numa abomina\u00e7\u00e3o. Ao inv\u00e9s daquele recanto de paz, de repente me vi numa c\u00e2mera de eco em que se tentava discutir coisas s\u00e9rias na velocidade da luz com apenas 280 caracteres.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, guiado pela minha autodestrutiva ingenuidade, comecei a me manifestar. Tentava parar as tretas; alertar para a divulga\u00e7\u00e3o de fake news; questionar coment\u00e1rios preconceituosos e carregados de \u00f3dio de amigos que n\u00e3o sabia terem esse tipo de pestil\u00eancia dentro de si. \u00d3bvio, deu chabu. Ao inv\u00e9s de acalmar os \u00e2nimos, comecei sem querer a ati\u00e7ar brigas. Pessoas que nem estavam no papo come\u00e7avam a se meter e, em pouco tempo, o que era um esclarecimento ou tentativa de levantar uma outra vis\u00e3o sobre uma pol\u00eamica qualquer virava uma batalha campal da qual me retirava pedindo desculpas pelo que tinha feito.<\/p>\n<p>Inevitavelmente, pelo bem da minha sa\u00fade mental, fui obrigado a dar mute em amigos. Gente com quem cresci ou trabalhei. N\u00e3o podia assistir a destrui\u00e7\u00e3o da imagem de pessoas pelas quais tinha tanto apre\u00e7o. Era como ver sem a menor a\u00e7\u00e3o um parente ser consumido por c\u00e2ncer terminal, s\u00f3 que nesse caso na alma.<\/p>\n<p>Conversei com algumas pessoas a respeito e todas acharam exagerado o meu mal estar. &#8220;Deixa pra l\u00e1&#8221;; &#8220;Seja mais seletivo&#8221;; &#8220;N\u00e3o d\u00e1 pra levar a s\u00e9rio as pessoas nas redes sociais&#8221;. Eu entendia essa posi\u00e7\u00e3o mas me sentia como um depressivo recebendo tapinhas nas costas seguido de um &#8220;anime-se, isso \u00e9 coisa da sua cabe\u00e7a&#8221;. Eles tem raz\u00e3o. \u00c9 coisa da minha cabe\u00e7a. Gosto de trocar ideias e discutir longamente sobre as coisas; preciso de tempo pra pensar no que dizer e nas minhas conclus\u00f5es sobre elas; adoro mudar de ideia e opini\u00e3o; n\u00e3o acho que minhas observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais importantes que as dos outros nem acredito em verdades indiscut\u00edveis; enfim, sou um cara do s\u00e9culo passado. E o twitter deixou de ser o espa\u00e7o onde podia fazer isso.<\/p>\n<p>Uma coisa que costumamos esquecer \u00e9 que a \u00e1gora, o espa\u00e7o de discuss\u00e3o, interfere enormemente na condu\u00e7\u00e3o de nossas intera\u00e7\u00f5es. Podemos falar do mesmo assunto no botequim, na universidade, dentro do ambiente corporativo, com nossas fam\u00edlias, e as condu\u00e7\u00f5es dos di\u00e1logos e, \u00e1s vezes, suas conclus\u00f5es ser\u00e3o diferentes. Sinto como se estivesse me repetindo, quando sa\u00ed do Facebook e abandonei alguns grupos de WhatsApp, e me mostrando como uma pessoa bem antissocial. Mas estranhamente sinto exatamente o contr\u00e1rio. Sinto que a minha vontade de sair de ambientes t\u00f3xicos \u00e9 justamente para preservar as minhas rela\u00e7\u00f5es sociais que, acredito, devem ser governadas pela intera\u00e7\u00e3o entre os meus desejos e do outro. E, com certeza, n\u00e3o faz parte do meu desejo participar como v\u00edtima ou algoz de rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e \u00f3dio. Por isso, o link para esse artigo vai ser meu \u00faltimo tweet.<\/p>\n<p>Se no caso do Facebook, minha sa\u00edda foi motivada<a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-rede-antissocial\/\"> pela falta de prop\u00f3sito ou qualidade nas intera\u00e7\u00f5es<\/a>, e dos grupos de WhatsApp pelos <a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/whats-app-de-posicao-whats-app-de-interesse\/\">mon\u00f3logos coletivos<\/a>, estou saindo do Twitter por n\u00e3o querer participar de uma ferramenta cujo prop\u00f3sito se tornou distribuir afirma\u00e7\u00f5es narc\u00edsicas descabidas e gerar intera\u00e7\u00f5es abusivas.<\/p>\n<p>Como Thoreau, estou me isolando no meu Walden digital. Pode ser que volte, mas, como aconteceu com o Facebook, tenho quase certeza que esse \u00e9 um adeus definitivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o acho que todas as ferramentas de m\u00eddia social s\u00e3o ruins. Tenho visto experi\u00eancias e novidades bem interessantes, mas aquelas nas quais as pessoas que conhe\u00e7o se encontram n\u00e3o promovem redes de relacionamento mas a afirma\u00e7\u00e3o vazia das caracter\u00edsticas mais vis de nossas personalidades. Nessa horas \u00e9 que sinto uma bruta saudade do Google Reader, falecido h\u00e1 5 anos.<\/p>\n<p>J\u00e1 avisei ao pessoal da minha sa\u00edda, pedi links de blogs e e-mails, refiz feeds no Old Reader, assinei newsletters e j\u00e1 comecei a interagir diretamente por e-mail com diversos amigos distantes. Usando a Internet como se fosse 1997. Um raro prazer.<\/p>\n<p>Mas essa sa\u00edda n\u00e3o significa um corte. Vamos manter contato. <a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/contato\/\">Os meus est\u00e3o aqui<\/a>. Mande uma mensagem, deixe um coment\u00e1rio, vamos construir rela\u00e7\u00f5es mais positivas. Teremos mais tempo pra pensar sobre o mundo, trocar nossas observa\u00e7\u00f5es e, quem sabe, at\u00e9 <a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/voce-vai-receber-uma-carta\/\">mandar cartas uns para os outros<\/a>. Vamos alimentar nossas mentes e nossos cora\u00e7\u00f5es para nos tornarmos pessoas melhores e n\u00e3o simplesmente lacradores orientados por algoritmos skinnerianos.<\/p>\n<p>E assim esse p\u00e1ssaro se despede, deixando no ar um \u00faltimo piado.<\/p>\n<p>tweet<br \/>\ntweet<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confesso que estou surpreso. Depois que sa\u00ed do Facebook em 2012, sempre considerei o twitter um recanto de paz. Poucas pessoas; papos construtivos e bem humorados;, refer\u00eancias interessantes; um lugar onde se estar. 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