{"id":2536,"date":"2019-11-14T07:03:17","date_gmt":"2019-11-14T09:03:17","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2536"},"modified":"2019-11-14T07:03:22","modified_gmt":"2019-11-14T09:03:22","slug":"a-invasao-dos-criticos-amadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-invasao-dos-criticos-amadores\/","title":{"rendered":"A invas\u00e3o dos cr\u00edticos amadores"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje em dia, para evitar qualquer papo pol\u00edtico, a \u00fanica op\u00e7\u00e3o que resta em conversas com pessoas com as quais temos pouca intimidade \u00e9 falar de filmes e s\u00e9ries. Mesmo assim, n\u00e3o conseguimos escapar do conflito gerado por posi\u00e7\u00f5es engessadas e estanques. Sim, \u00e9 triste, mas n\u00e3o podemos nos esconder dessa realidade. Na pol\u00edtica e no entretenimento: somos f\u00e3s de polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto alguns tentam falar da qualidade ou da sua aprecia\u00e7\u00e3o pessoal dos filmes, outros insistem em evocar a fidedignidade, seja a conceitos, personagens, obras em que foram baseadas, estruturas narrativas e\/ou est\u00e9ticas. Enfim, Fidedignidade. Assunto complexo. Quero dizer, vai ser fidedigno a que? <\/p>\n\n\n\n<p>Se pegar os personagens de filmes de super her\u00f3i, j\u00e1 d\u00e1 pra ver como o pessoal complica essa quest\u00e3o. Batman, por exemplo, do trabalho inicial do Bob Kane, que dizem n\u00e3o foi t\u00e3o original assim; passando pela fase do Bat-Mite, algu\u00e9m lembra dele?, dos anos 60; e avan\u00e7ando por Neil Adams, Frank Miller e as abomina\u00e7\u00f5es dos anos 90 provocadas pelo inexplic\u00e1vel sucesso da Image, voc\u00ea tem uma tonelada de refer\u00eancias para se basear. E olha que nem mencionei a fase do Grant Morrison. Ops, tarde demais\u2026 <\/p>\n\n\n\n<p>Se nem hist\u00f3rias em quadrinhos conseguem manter essa tal fidedignidade a supostos conceitos originais dos personagens, por que cobramos perfei\u00e7\u00e3o de qualquer outra obra de arte? Acho que isso tem um pouco a ver com uma virada de chave que rolou em diversas rela\u00e7\u00f5es humanas e institucionais causada pelo mito de &#8220;O Cliente tem sempre raz\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Antigamente, a gente, pelo limite de op\u00e7\u00f5es, era obrigado a consumir o que estava dispon\u00edvel ou despender energia f\u00edsica e libidinal para conseguir o que buscava. Afinal, ler um livro espec\u00edfico, ver um filme mais dif\u00edcil de encontrar, ou ter que acompanhar um programa na TV s\u00edncrona requeriam planejamento e, algumas vezes, esfor\u00e7o. <\/p>\n\n\n\n<p>Lembro de ter rotina r\u00edgida e objetiva de visita a sebos de discos e livros;  frequentar cinemas escondidos na Tijuca para assistir a filmes dos anos 30 e 40; e ser s\u00f3cio de mais de 50 locadoras de v\u00eddeo, do Leblon ao centro da cidade, muitas por conta de um s\u00f3 filme. Tanto investimento me fazia aproveitar melhor todas as experi\u00eancias, de forma existencial e menos cr\u00edtica. A busca n\u00e3o era pelo melhor, mas pelo mais interessante. E se n\u00e3o fosse interessante, a gente dava um jeito de fazer ficar interessante.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o nos tornava complacentes com a baixa qualidade do entretenimento mas razoavelmente tolerantes e envolvidos. Era como se fosse nossa responsabilidade NOS divertirmos. A pergunta era: o que pod\u00edamos tirar de melhor das experi\u00eancias que vivenci\u00e1vamos?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a quantidade de conte\u00fado dispon\u00edvel come\u00e7ou a aumentar e o n\u00edvel de esfor\u00e7o para encontrar o que quer\u00edamos diminuiu, a preocupa\u00e7\u00e3o e o trabalho passou a ser de curadoria. Atualmente, investimos nosso tempo e dinheiro em buscar as experi\u00eancias que consideramos melhores, a.k.a. mais adequadas aos nossos gostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa loucura de encontrar o entretenimento certo para o momento certo, viramos escravos de listas de 10 mais, 10 menos e 10 mais ou menos. \u00c9 o inferno particular do protagonista de Alta Fidelidade. S\u00f3 nos justificamos como seres humanos se provarmos que temos n\u00e3o s\u00f3 bom gosto mas um gosto melhor do que o dos outros. Enfim, tudo tem que ser perfeito, pois, afinal de contas, n\u00f3s merecemos. Certo?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, o \u00f4nus da divers\u00e3o passou do espectador para o produtor. N\u00e3o somos mais capazes de apreciar todas as experi\u00eancias e dar-lhes significado pessoal. \u00c9 como se houvesse uma tentativa de mostrar uma verdade oculta em tudo e que \u00e9 nossa fun\u00e7\u00e3o avaliar se ela foi bem sucedida ou n\u00e3o. Pra isso o produto deve estar completo, posicionamento pol\u00edtico, comercial, religioso, espiritual, est\u00e9tico e o escambau, para ser convenientemente consumido. Afinal, n\u00e3o sou eu que estou pagando? Ent\u00e3o, divirta-me! Preciso lembrar? O cliente tem sempre raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro lado da moeda \u00e9 que isso gera uma ansiedade brutal que te impele a acompanhar o processo de desenvolvimento  das obras desde a cria\u00e7\u00e3o para se assegurar que no fim ter\u00e1 a experi\u00eancia perfeita e orgi\u00e1stica que esperava. Buscamos uma originalidade imposs\u00edvel de se atingir; respeito e homenagem a obras que tem tantas interpreta\u00e7\u00f5es quanto leitores ou espectadores; ousadia e inova\u00e7\u00e3o em equil\u00edbrio com o cumprimento estrito das regras do McKee, Monomito, da estrutura de 3 atos e afins. Ficamos chatos pacas. At\u00e9 nas coisas mais insignificantes. E conversamos sobre isso quando queremos escapar de falar de pol\u00edtica?<\/p>\n\n\n\n<p>Me questiono se as futuras gera\u00e7\u00f5es perder\u00e3o a capacidade de experienciar a suspens\u00e3o de descren\u00e7a e a substituir\u00e3o pela cr\u00edtica imediata e lacradora tornando a obra apenas um pretexto para mostrar sua superioridade intelectual sobre o outro. Talvez a \u00fanica maneira de evitar esse terr\u00edvel futuro seja consumir menos, se importar menos com o que est\u00e1 em voga e buscar os seus interesses mais primais. Um belo exerc\u00edcio de humildade. Quase ut\u00f3pico. Melhor ficar vasculhando o Netflix por aquele filme perfeito que mostrar\u00e1 ao mundo como voc\u00ea \u00e9 mais\u2026 mais\u2026 voc\u00ea sabe. N\u00e3o sabe?<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, como continua imposs\u00edvel falar de pol\u00edtica, n\u00e3o vamos contradizer os cr\u00edticos amadores de plant\u00e3o. Vamos apenas fingir que ouvimos os conhecidos enquanto esperamos sair a pr\u00f3xima alcatra no churrasco.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ah, voc\u00ea gosta do Tobey Maguire como Peter Parker mas prefere o Tom Holland como Homem Aranha? T\u00e1, t\u00e1. E acha que nos filmes da Marvel o Aranha \u00e9 coadjuvante, enquanto nos da Sony ele era o protagonista? Sei. Sei. Eu? O que eu acho? Sei l\u00e1. Acredita que eu nunca pensei a respeito?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, sabe?, exatamente como fazemos quando falam de pol\u00edtica com a gente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje em dia, para evitar qualquer papo pol\u00edtico, a \u00fanica op\u00e7\u00e3o que resta em conversas com pessoas com as quais temos pouca intimidade \u00e9 falar de filmes e s\u00e9ries. Mesmo assim, n\u00e3o conseguimos escapar do conflito gerado por posi\u00e7\u00f5es engessadas e estanques. Sim, \u00e9 triste, mas n\u00e3o podemos nos esconder dessa realidade. 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