{"id":2732,"date":"2020-05-06T04:57:55","date_gmt":"2020-05-06T07:57:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2732"},"modified":"2020-05-06T04:57:55","modified_gmt":"2020-05-06T07:57:55","slug":"bye-bye-brazil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/bye-bye-brazil\/","title":{"rendered":"Bye, Bye, Brazil"},"content":{"rendered":"<p>Tive duas oportunidades, meio sem querer, de conhecer boa parte do Brasil.<\/p>\n<p>A primeira foi por ingenuidade.<\/p>\n<p>Eu tinha 20 anos, relia compulsivamente On The Road desde os 17, e, espremido entre a adolesc\u00eancia e a fase adulta, e paralisado pela falta de perspectiva que os anos 90 e a minha faculdade eternamente em greve me geravam, eu s\u00f3 queria ir embora. Pra onde? N\u00e3o sei. Eu n\u00e3o tinha um plano. Podia ser pros anos 40\/50, pra rota 66, pra qualquer lugar. Como eu disse, foi in-ge-nu-i-da-de.<\/p>\n<p>Guardei durante um semestre 800 reais e combinei com uma colega de faculdade que em janeiro de 1996 ir\u00edamos rumar para a Rodovi\u00e1ria Novo Rio e pular no primeiro \u00f4nibus que estivesse pra sair. Far\u00edamos o mesmo nos demais destinos at\u00e9 o dinheiro acabar. Um sonho. Ela consentiu, eu acreditei, e na hora H, ou quase, ela pulou fora. Como disse, in-ge-nu-i-da-de.<\/p>\n<p>Frustrado, comentei com uns amigos dos planos furados e um deles, que tinha carro e carteira de motorista, mesmo que vencida, se prontificou a participar da aventura. Outros dois que tamb\u00e9m nada tinham a fazer naquele ver\u00e3o se apresentaram e completaram a tripula\u00e7\u00e3o. E l\u00e1 fomos n\u00f3s quatro, num Uno, sem uma carteira de motorista v\u00e1lida, do Rio ao Piau\u00ed e de volta em um m\u00eas e um dia. O motorista se tornou nosso desafeto, um dos tripulantes ficou no Piau\u00ed, e o outro se tornou padrinho da minha filha.<\/p>\n<p>Sem precisar entrar em detalhes, foi uma viagem que mudou a minha exist\u00eancia. Mas bastou. Me tornei uma nova pessoa, terminei a faculdade, comecei a trabalhar, abri 3 empresas, e me tornei, aos trancos e barrancos, adulto. Era hora de ficar em casa, no Rio, de onde n\u00e3o sa\u00ed, pelos pr\u00f3ximos 10 anos.<\/p>\n<p>A\u00ed veio a segunda oportunidade. Saindo de uma fal\u00eancia humilhante e complicada, fui obrigado aos meus trinta e poucos anos a trabalhar pela primeira vez de carteira assinada. Parecia um garoto velho obrigado a colocar cal\u00e7as curtas e voltar pra escola. Mas n\u00e3o foi ruim.<\/p>\n<p>Uma das minhas primeiras tarefas foi dividir um roteiro de treinamento pelo Brasil com um colega. Ele dividiu a miss\u00e3o irm\u00e3mente:<\/p>\n<p>&#8211; Pra ningu\u00e9m ficar sobrecarregado, vamos pegar cada um o mesmo n\u00famero de cidades. Aqui, \u00f3, eu vou pra Salvador, voc\u00ea vai pra A\u00e7u. Eu vou pra Recife, voc\u00ea pra Coari. Eu pego as cidades na linha verde do Nordeste e voc\u00ea faz o ABCD paulista. Combinado?<\/p>\n<p>&#8211; Combinado.<\/p>\n<p>Era um sujeito generoso. Mesmo que n\u00e3o intencionalmente.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a essa divis\u00e3o, conheci o sert\u00e3o, os pampas, as cidades industriais paulistas, andei de canoa pelo rio Amazonas, visitei as cidades petrol\u00edferas do litoral do sudeste, os estaleiros do sul do pa\u00eds, e as minas de Minas e os portos no norte. Fiz amigos, conheci novas realidades e, com orgulho, fiz a minha parte pra melhorar um pouco o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Durante 8 anos, nessa e numa outra empresa, fazia trajetos loucos e conduzia treinamentos e reuni\u00f5es de troca de conhecimento nos mais distantes rinc\u00f5es do Brasil. Enquanto uns iam pra Vienna, apresentar trabalhos acad\u00eamicos baseados nos meus esfor\u00e7os, eu n\u00e3o me incomodava de trabalhar durante feriados em Ouril\u00e2ndia. Sou um sujeito humilde, mas um pouquinho ressentido. Deu pra notar?<\/p>\n<p>Depois dessa loucura, mais uma vez cresci e aquietei. Virei os 40, tivemos a nossa filha e voltamos pro lugar de onde viemos.<\/p>\n<p>Agora, olhando o futuro atrav\u00e9s da nesga de c\u00e9u que a janela da casa que o meu pai me deixou permite, n\u00e3o vejo horizontes para esse pa\u00eds que eu desbravei.<\/p>\n<p>Nunca fui f\u00e3 da bandeira ou da camisa de futebol, mas hoje tenho nojo do significado que os grupos fascistas lhe impuseram. Nunca acreditei em pol\u00edticos profissionais, nem em partidos, afinal pol\u00edtica se faz na mesa de bar, mas toda vez que vejo men\u00e7\u00e3o ao nome Brasil ou algu\u00e9m cantarolando o hino d\u00e1 vontade sair do recinto.<\/p>\n<p>A apropria\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica desta terra, que nunca teve a ambi\u00e7\u00e3o de fazer sentido ou ter um prop\u00f3sito, a tornou in\u00f3spita. O Brasil era, foi, pra mim, um lugar de descoberta, de alegria, de crescimento, de emo\u00e7\u00e3o, de maturidade, de trabalho, de surpresa e de introspec\u00e7\u00e3o. Agora, esse pa\u00eds, do qual pessoas cheias de \u00f3dio falam nas ruas e na TV, se tornou o pretexto para a opress\u00e3o e para o genoc\u00eddio de quem o tornava melhor justamente por n\u00e3o fazer nada por ele. No melhor estilo tao\u00edsta, o caminho dessa terra era muito melhor quando n\u00e3o havia destino. A sua melhor miss\u00e3o era simplesmente (n\u00e3o) ser.<\/p>\n<p>Agora que Aldir Blanc morreu, imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar que o \u201cBrazil n\u00e3o conhece o Brasil\u201d. Nem eu, que andei pacas por ele, o conhe\u00e7o. Quem dir\u00e1 esses sujeitos gananciosos e mal intencionados buzinando pelo direito de passar o fim de semana em Miami \u00e0s custas do trabalho e das vidas alheias, dentro de caminhonetes importadas balan\u00e7ando bandeiras verde amarelas made in China?<\/p>\n<p>E, assim, em respeito a mem\u00f3ria desse Brasil que definha, eu penso que essa ideia insistentemente nascedoura de Brazil deveria morrer tamb\u00e9m. Vamos rachar a terra, separar tudo isso, antes que as lembran\u00e7as dela se tornem amargas e fatais demais.<\/p>\n<p>Vamos viver em nossos condados, e lembrar, sem saudades de quando essa terra era uma s\u00f3, e sem alimentar as falsas esperan\u00e7as de um rei Artur que venha reuni-la mais uma vez.<\/p>\n<p>Vamos, ap\u00f3s o isolamento social, voltar aos botequins e discutir uma ideia de pa\u00eds, ou melhor, de pa\u00edses sem messianismos ou destinos manifestos. A ideia de um conjunto de terras diversas e amigas, uma na\u00e7\u00e3o nem melhor, nem pior, mas, como o Salgueiro, apenas diferente. Sob v\u00e1rios deuses e acima de ningu\u00e9m. Assim, como o Brasil j\u00e1 foi e n\u00e3o \u00e9 mais.<\/p>\n<p>Bye, bye, Brasil. A \u00faltima ficha caiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tive duas oportunidades, meio sem querer, de conhecer boa parte do Brasil. A primeira foi por ingenuidade. 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