{"id":2844,"date":"2020-06-27T13:53:15","date_gmt":"2020-06-27T16:53:15","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2844"},"modified":"2020-06-27T13:53:15","modified_gmt":"2020-06-27T16:53:15","slug":"avohai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/avohai\/","title":{"rendered":"Av\u00f4hai"},"content":{"rendered":"<p>Minha filha acorda na madrugada com as perip\u00e9cias dos gatos. Na sua ansiedade de isolamento, acha que \u00e9 algu\u00e9m mexendo na porta da casa. At\u00e9 \u00e9, mas s\u00e3o os gatos, e na porta do banheiro. Tento colocar ela pra dormir, mas ela se nega. Sem sono, explica.<\/p>\n<p>&#8211; E se eu te contar uma hist\u00f3ria?<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom, mas tem que ser uma hist\u00f3ria do vov\u00f4.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria do av\u00f4. Um av\u00f4 que morreu 12 anos antes de ela nascer. Um av\u00f4 que ela s\u00f3 conheceu por peda\u00e7os de hist\u00f3rias e meia d\u00fazia de fotos que viu na casa da av\u00f3.<\/p>\n<p>Eu tento pescar, na enorme quantidade de suas hist\u00f3rias imorais e impublic\u00e1veis, alguma que seja adequada para crian\u00e7as. O melhor que consigo \u00e9 falar sobre os seus campeonatos de arroto, de quando nos envolvia em trotes fingindo ser um programa de perguntas e respostas da r\u00e1dio, ou de quando abra\u00e7ava pessoas que n\u00e3o conhecia na rua.<\/p>\n<p>Ela ri. Mesmo public\u00e1veis, suas hist\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o nada morais e muito menos adequadas para crian\u00e7as. Imagino que pudesse mentir e contar hist\u00f3rias que nunca aconteceram, como tantas que ele me contou jurando ser verdade, mas tenho quase certeza que ela, t\u00e3o ligada ao av\u00f4 perdido, me pegaria no ato. A impress\u00e3o \u00e9 que ela o conhece melhor do que eu. O que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>No meio do relato sobre uma vez que ele fez um senhor ir buscar um pr\u00eamio inexistente numa r\u00e1dio inventada, percebo que ela dormiu. Eu a cubro e tento dormir, lembrando das hist\u00f3rias do meu pai. S\u00e3o tantas que elas pulam sobre cercas como ovelhas impulsionadas por jatos. Resultado? Ins\u00f4nia. As hist\u00f3rias s\u00e3o boas. Tanto que toda vez que algu\u00e9m ouve uma delas, sempre me diz a mesma coisa:<\/p>\n<p>-Voc\u00ea tinha que escrever sobre o seu pai.<\/p>\n<p>Um amigo pra me motivar, inclusive me fez ler o Quase Mem\u00f3ria do Cony, com o qual eu tinha o maior preconceito, mas do qual gostei muito. Mesmo tendo considerado um super livro, ao final s\u00f3 conseguia pensar: as hist\u00f3rias do meu pai s\u00e3o melhores. Metido, eu sei.<\/p>\n<p>Confesso que j\u00e1 escrevi algumas de suas hist\u00f3rias em cr\u00f4nicas separadas e tentei criar uma estrutura pra juntar tudo num romance. Mas a minha impress\u00e3o \u00e9 que, quando coloca-las definitivamente no papel, perderei algo. \u00c9 besteira, mas \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de luto maior do que a que senti quando ele partiu fisicamente. \u00c9 como se, depois disso, eu fosse proibido de comentar sobre ele, pois, afinal de contas, j\u00e1 est\u00e1 tudo escrito.<\/p>\n<p>Eu sei que \u00e9 besteira e preciso cumprir essa miss\u00e3o, para que pelo menos a minha filha conhe\u00e7a as hist\u00f3rias do av\u00f4 que nunca encontrou mas com o qual parece ter uma afinidade quase espiritual. E, um dia, quando tiver seus filhos, ela possa contar as hist\u00f3rias do bisav\u00f4 para acalent\u00e1-los e ativar a rebeldia galhofeira que corre em nosso sangue, gra\u00e7as ao seu velho, invis\u00edvel e indivis\u00edvel Av\u00f4hai.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha filha acorda na madrugada com as perip\u00e9cias dos gatos. 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