{"id":2907,"date":"2020-07-18T05:46:10","date_gmt":"2020-07-18T08:46:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2907"},"modified":"2020-07-18T07:32:59","modified_gmt":"2020-07-18T10:32:59","slug":"obrigado-meu-irmao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/obrigado-meu-irmao\/","title":{"rendered":"Obrigado, meu irm\u00e3o"},"content":{"rendered":"\r\n<p>Tenho escrito obitu\u00e1rios demais.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ainda me lembro do dia em que nos conhecemos. Eu tinha sa\u00eddo de um col\u00e9gio experimental e ca\u00ed de paraquedas na pr\u00e9 alfabetiza\u00e7\u00e3o de uma escola protestante tradicional. No primeiro dia, voc\u00ea, acompanhado de uma ganguezinha, que nunca mais vi, me abordou:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Veio de saia, novato?<\/p>\r\n<p>&#8211; N\u00e3o. Isso se chama bermuda. Bermuda.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nos tornamos amigos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Compartilhamos as primeiras revistas em quadrinhos. Brigamos pois voc\u00ea preferia a Elektra e eu, a Sharon Carter.\u00a0 De Socos. Como as crian\u00e7as de seis anos que \u00e9ramos: pulando numa cama que quebrou. Quando o estrado ruiu, ca\u00edmos rolando de rir. Voc\u00ea tinha raz\u00e3o, Elektra era melhor.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Voc\u00ea me acompanhou no per\u00edodo em que minha m\u00e3e teve c\u00e2ncer de \u00fatero e eu, aos seis anos de idade, n\u00e3o sabia o que seria da minha vida. A menina mais bonita da escola, pela qual \u00e9ramos ambos apaixonados, foi visit\u00e1-la no hospital. Voc\u00ea disse:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Que sorte que sua m\u00e3e teve c\u00e2ncer.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O pior \u00e9 que eu entendi o que voc\u00ea queria dizer.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Concorremos para entrar no mesmo col\u00e9gio no ensino fundamental mas voc\u00ea bombou, pois, como de costume, levantou pra ver a minha prova. Quando entrei na nova escola, perdi o contato com todo mundo, menos com voc\u00ea. Continuamos amigos. \u00c9ramos filhos \u00fanicos, mesmo que seu pai tivesse dois filhos grandes do primeiro casamento, e nos consider\u00e1vamos irm\u00e3os. \u00c9ramos irm\u00e3os.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Passamos anivers\u00e1rios juntos. Anos novos juntos. Vimos o flamengo ser campe\u00e3o mundial juntos quando eu ainda torcia pra futebol. Dorm\u00edamos o tempo todo um na casa do outro, mas quando eu ia pra sua sempre acontecia uma trag\u00e9dia. Uma vez voc\u00ea rachou a cabe\u00e7a e precisou tomar pontos na madrugada, na outra engoliu, sabe-se l\u00e1 como, uma corrente.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Jogamos Atari, Alerta Vermelho, Scotland Yard, Marvel Super Heroes, Call of Cthulhu, quando desistiu do RPG porque morreu, enquanto o jogador que desmaiou de susto sobreviveu. Jogamos Escrete. \u00c9, voc\u00ea tinha aquele jogo rar\u00e3o criado pelo Chico Buarque. Mas s\u00f3 jog\u00e1vamos a parte de comprar e vender jogadores. O resto era chato.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quando chegamos \u00e0 adolesc\u00eancia n\u00e3o nos afastamos, pelo contr\u00e1rio, o cinema refor\u00e7ou nossos la\u00e7os. Voc\u00ea j\u00e1 dava sinais que seria o que se tornou: cr\u00edtico de cinema. Ou como a gente costumava te chamar: a cr\u00edtica especializada. Fizemos parte do Hollywood Connection, aquele clube de cinema bacana onde a gente curtia as cabines para a cr\u00edtica; pegamos o per\u00edodo do auge da Miramax e do Festival do Rio, onde emend\u00e1vamos 4 sess\u00f5es consecutivas de cinema. Voc\u00ea \u00e0s vezes ia at\u00e9 al\u00e9m e assistia a tudo sem pudor. Desde que fosse bom, afinal, como voc\u00ea n\u00e3o nos deixava esquecer:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Alta cultura \u00e9 alta cultura. O resto \u00e9 bonde do tigr\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma vez esbarrou comigo no Cervantes antes de uma dessas maratonas e comentou que a do dia era do Festival de Cinema Gay e L\u00e9sbico. Um popular te questionou se o filme que ia ver era gay ou l\u00e9sbico. Voc\u00ea respondeu envergonhado:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Gay.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Gra\u00e7as ao seu gosto refinado fomos obrigados a assistir a uma p\u00e1 de filmes com voc\u00ea. Uns \u00f3timos, outros,umas bombas, como um filme franc\u00eas longo, lento e chato chamado Contos Imorais. Quando reclamamos dele no chopp p\u00f3s cinema, voc\u00ea foi categ\u00f3rico:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o sabem o que \u00e9 erotismo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Todo mundo te conhecia no circuito de cinema alternativo do Rio. Na locadora do Esta\u00e7\u00e3o inclusive nos chamavam de G\u00eameos, M\u00f3rbida Semelhan\u00e7a. Uma vez fizeram uma mat\u00e9ria no jornal contigo por conta da mania de entrar, de gra\u00e7a, no cinema para ver os trailers. Na reportagem voc\u00ea revelou a sua outra mania chata pacas de ir pro cinema com a gente e sentar separado, declarando:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Com amigos ou namorada, s\u00f3 quando for assistir ao filme pela segunda vez.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quando questionado sobre a tal namorada, gritou exasperado:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; \u00c9 uma namorada virtual! Virtual!<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Voc\u00ea inaugurou a era do amor l\u00edquido antes do Bauman.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No come\u00e7o dos anos 90 voc\u00ea fez parte da cria\u00e7\u00e3o do Boc\u00e3o do Oscar, evento que ainda nomeia o grupo de Whatsapp dos nossos amigos. Como voc\u00ea n\u00e3o comemorava anivers\u00e1rio, a entrega do Oscar era a nossa festa pra voc\u00ea. Era o dia em que a gente te curtia na plenitude. Voc\u00ea exacerbava as suas idiossincrasias sobre onde sentar, e tomava \u00f3dio de quem pegava o seu lugar; perdia a linha e pulava na piscina; ou, uma vez s\u00f3, exagerou na dose e acabou desmaiando da mistura de \u00e1lcool e rem\u00e9dio pra dormir.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nos tornamos jovens adultos e, al\u00e9m da festa do Oscar, a gente continuou acompanhando a vida um do outro. Voc\u00ea foi, \u00f3bvio, meu padrinho de casamento; quando abri o primeiro sebo, voc\u00ea estava l\u00e1 com um mural dedicado \u00e0 sua arte onde a gente colocava as suas cr\u00edticas hil\u00e1rias sobre a programa\u00e7\u00e3o da TV publicadas na finada Tribuna da Imprensa; quando resolvi abrir o segundo, voc\u00ea foi um dos s\u00f3cios. Numas f\u00e9rias minhas assumiu a loja e foi obrigado a lidar com um esc\u00e2ndalo de uma sub-celebridade, filmado pelo TV Fama, porque a gente tinha uma placa na vitrine proibindo a entrada de ex Big Brothers. Por isso te pe\u00e7o desculpas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>H\u00e1 alguns anos atr\u00e1s sua m\u00e3e morreu e esse foi um puta baque pra voc\u00ea. Lembro que foi como se tivesse ca\u00eddo de repente na idade adulta, coisa para a qual n\u00e3o estava preparado de verdade. Na sa\u00edda da crema\u00e7\u00e3o da sua m\u00e3e, eu peguei uma carona com uns amigos dela. No caminho eles me perguntaram:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Como o Jo\u00e3o vai se virar sozinho agora?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>N\u00e3o se virou, ecoando a sua proverbial resposta a nossa pergunta sobre o que faria quando sua m\u00e3e morresse:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Conto com voc\u00eas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Voc\u00ea contou, a gente esteve l\u00e1, mas depois de 10 anos de uma lenta e repentina queda, voc\u00ea morreu.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Eu tentei retomar o contato\u00a0 com voc\u00ea durante essa queda e tive o privil\u00e9gio de te ver mais umas vezes, mas n\u00e3o soube como te ajudar. Uma culpa que vou carregar pra sempre. Agora fica a saudade, a frustra\u00e7\u00e3o de, por conta do CoVid, n\u00e3o poder lhe prestar uma \u00faltima homenagem, e a lembran\u00e7a da \u00faltima mensagem que te mandei e n\u00e3o tive resposta:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cFala, amigo,<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quanto tempo. Posso fingir que \u00e9 normal, um desencontro aleat\u00f3rio do mundo, caminhos diferentes e afastados, por conta de compromissos e mudan\u00e7as de vida; em parte \u00e9, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Voc\u00ea meio que sumiu. Por conta pr\u00f3pria. E eu, mesmo sentindo a sua falta, fiz pouco esfor\u00e7o para te encontrar, talvez por medo de te incomodar, n\u00e3o entender o que voc\u00ea est\u00e1 passando ou simplesmente ter poucas ideias de como lhe ajudar. Uma parte medo, uma parte vergonha. Como quase tudo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Saiba que estou aguardando o seu retorno ao nosso meio. Um cara que sempre admirei e que foi, em boa parte, um interlocutor para as minhas doideiras mesmo quando n\u00e3o estava presente. Se puder, e quiser, d\u00ea um al\u00f4, marque um chopp, um almo\u00e7o, um telefonema. Quero saber como voc\u00ea est\u00e1 e como podemos retomar o nosso contato.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Esperando que voc\u00ea esteja bem, um abra\u00e7o do seu amigo de sempre,\u201d<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Esperando que voc\u00ea esteja bem. Onde estiver.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Esperando que voc\u00ea esteja melhor. Onde estiver.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Um abra\u00e7o do seu amigo de sempre.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Um abra\u00e7o do seu irm\u00e3o<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho escrito obitu\u00e1rios demais. Ainda me lembro do dia em que nos conhecemos. Eu tinha sa\u00eddo de um col\u00e9gio experimental e ca\u00ed de paraquedas na pr\u00e9 alfabetiza\u00e7\u00e3o de uma escola protestante tradicional. No primeiro dia, voc\u00ea, acompanhado de uma ganguezinha, que nunca mais vi, me abordou: &#8211; Veio de saia, novato? &#8211; N\u00e3o. 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