{"id":2914,"date":"2020-07-20T08:38:20","date_gmt":"2020-07-20T11:38:20","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2914"},"modified":"2020-07-20T08:38:20","modified_gmt":"2020-07-20T11:38:20","slug":"como-lidar-com-os-adeptos-da-carteirada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/como-lidar-com-os-adeptos-da-carteirada\/","title":{"rendered":"Como lidar com os adeptos da carteirada"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu era pequeno, todo mundo se referia ao meu pai como Coronel. S\u00f3 fui saber que ele n\u00e3o era mesmo do ex\u00e9rcito aos 10 anos. Um choque. Afinal ele tinha lutado na Segunda Guerra, estudou no Col\u00e9gio Militar e todo ano recebia uma romaria de gente pedindo para tirar os filhos do servi\u00e7o militar. N\u00e3o era coronel, mas se fazia como tal, mesmo sem dizer.<\/p>\n<p>Lembro, inclusive, que insistiu comigo pra fazer uma tal carteirinha de filho de ex-combatente que, na sua fantasia, me daria acesso gratuito ao Maracan\u00e3, o que nunca me interessou, e me livraria de problemas n\u00e3o especificados, algo no que nunca me meti e, assim, para os quais nunca testei a solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, como uma boa parcela da popula\u00e7\u00e3o, ele se achava no direito de ter mais direitos que o restante da popula\u00e7\u00e3o. Era, sim, um adepto da famosa carteirada. Como n\u00e3o tinha um cargo ou amigos poderosos que o bancassem, ele o fazia atrav\u00e9s da malandragem e do soft power. Nunca dizia &#8220;voc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando&#8221;, mas era extremamente\u00a0 h\u00e1bil na arte de &#8220;name dropping&#8221; e adorava contar hist\u00f3rias, na maioria, falsas, sobre conhecidos em altos cargos. Assim nunca o vi pagar cinema, \u00f4nibus ou metr\u00f4, vivia ganhando coisas de gra\u00e7a e alguns, que realmente acreditavam nos poderes que n\u00e3o tinha, lhe usavam como mentor para assuntos que iam desde candidatura pol\u00edtica at\u00e9 cria\u00e7\u00e3o dos filhos; o que s\u00f3 aumentava o seu poder de influ\u00eancia. Era um abuso.<\/p>\n<p>Agora, toda semana vemos um caso de gente tentando fazer o mesmo, sem gra\u00e7a ou finesse. A minha pergunta \u00e9: o que fazer?<\/p>\n<p>O linchamento p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 boa op\u00e7\u00e3o pois, como visto no caso do Engenheiro Civil melhor que voc\u00ea e do Desembargador abusivo, eles n\u00e3o sentem culpa. Pra piorar, isso s\u00f3 os aproxima dos setores mais radicais da carteirada e podem torn\u00e1-los, escreve a\u00ed, futuros candidatos a cargos legislativos onde ter\u00e3o mais oportunidades, mas n\u00e3o o direito, de fazer isso.<\/p>\n<p>A reeduca\u00e7\u00e3o desses sujeitos \u00e9 uma impossibilidade. Ningu\u00e9m quer aprender a ter menos poder. E, outra, ao sair de um treinamento ou mesmo lavagem cerebral, voltariam para uma sociedade onde tudo o que lhes foi ensinado como ruim continua a ser ostensivamente usado e funciona para seus nefastos fins eg\u00f3icos.<\/p>\n<p>Logo, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 mexer no sistema, na cultura, e fazer com que esse expediente n\u00e3o funcione mais e seja uma vergonha tentar utiliz\u00e1-lo. Quanto mais esse poder inexistente for confrontado e se tornar in\u00fatil, menos eles se sentir\u00e3o compelidos a us\u00e1-lo. Coisa dif\u00edcil e demorada, eu sei, mas \u00e9 a \u00fanica maneira. Se o sistema, que foi criado para favorecer a carteirada, n\u00e3o mudar,\u00a0 n\u00e3o d\u00e1 pra esperar que ele rode altruisticamente gra\u00e7as \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 cidadania que a popula\u00e7\u00e3o, veja s\u00f3 as praias lotadas, n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>Foi mais ou menos assim que o meu pai parou de se meter com a hist\u00f3ria de tirar os filhos dos outros do servi\u00e7o militar.<\/p>\n<p>Como disse, quase como um Don Corleone, todo ano, meu pai recebia a popula\u00e7\u00e3o do Flamengo com pedidos para tirar seus filhos do servi\u00e7o militar. Ele refor\u00e7ava como era dif\u00edcil e prometia fazer o poss\u00edvel. Todos sa\u00edam muito agradecidos e ficavam ainda mais agradecidos quando os filhos n\u00e3o serviam. Na verdade n\u00e3o era dif\u00edcil: tinha excesso de gente querendo servir e se voc\u00ea se alistasse no ex\u00e9rcito, pertinho do fim do prazo, e disesse que n\u00e3o queria servir seria liberado. At\u00e9 o dia que deu chab\u00fa.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da Nova Rep\u00fablica, um cara que estudava no meu col\u00e9gio, umas duas s\u00e9ries pra frente, cabeludo, meio hippongo, boa pra\u00e7a, estava pra se alistar e a m\u00e3e preocupada foi procurar o meu pai. Ele fez todo o teatro, recebeu os agradecimentos da m\u00e3e e se esqueceu da hist\u00f3ria. N\u00e3o sei o que rolou, se com o fim do governo militar menos gente quis se alistar, mas o menino serviu. E como estava entrando na faculdade ainda botaram ele no CPOR.<\/p>\n<p>Vez ou outra eu o encontrava na rua, cabelo recado, de uniforme, e recebia os olhares de \u00f3dio que eram pro meu pai. Uma vez comentei com meu pai sobre o garoto e isso o chocou. A boa provid\u00eancia, pronunciou, o tinha abandonado nesse aspecto. Na sua cabe\u00e7a, n\u00e3o tinha culpa por nunca fazer nada, era s\u00f3 uma quest\u00e3o de sorte ou azar.<\/p>\n<p>Assim, ao inv\u00e9s de assumir seu erro, toda vez que ainda vinham lhe pedir o milagre que n\u00e3o fazia, ele passou a recusar a miss\u00e3o, falando que seus amigos tinham sido reformados, o sistema pol\u00edtico era outro e sua influ\u00eancia tinha diminu\u00eddo. O povo sa\u00eda triste, mas ele ainda prometia fazer algo, mas sem garantir resultados, perseverando sua apar\u00eancia de poder.<\/p>\n<p>Enfim, o problema da carteirada n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de quem d\u00e1 mas de quem a recebe e de quem se beneficia dela indiretamente. Se mesmo sem garantias reais do poder alheio, continuamos acatando ou a pedindo precisamos questionar por que somos t\u00e3o servis, ou, pior, como desejamos promover essa cultura com a esperan\u00e7a de sermos n\u00f3s futuramente aqueles na posi\u00e7\u00e3o de dar a carteirada.<\/p>\n<p>Quando penso nessas coisas, me d\u00e1 um frio na espinha e s\u00f3 melhoro quando come\u00e7o a cantarolar La Marseillaise. Funciona. S\u00e9rio. Tudo o que precisamos \u00e9 cantar mais alto e por mais tempo que os tiranos.<\/p>\n<p><iframe title=\"Casablanca La Marseillaise\" width=\"625\" height=\"469\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HM-E2H1ChJM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era pequeno, todo mundo se referia ao meu pai como Coronel. 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