{"id":2923,"date":"2020-07-26T09:43:00","date_gmt":"2020-07-26T12:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2923"},"modified":"2023-10-12T13:59:05","modified_gmt":"2023-10-12T16:59:05","slug":"para-ver-a-peppa-pig","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/para-ver-a-peppa-pig\/","title":{"rendered":"Para ver a Peppa Pig"},"content":{"rendered":"<p>Durante a pandemia, aqueles que t\u00eam filhos pequenos foram obrigados a receber uma dose maior do que a usual de programas infantis. Al\u00e9m do que rola no Gloob, Discovery Kids, Disney Channel e afins, as crian\u00e7as, numa resposta usual de defesa ps\u00edquica ao isolamento social, precisaram recorrer a desenhos e programas que refor\u00e7assem momentos antigos da sua inf\u00e2ncia. Por conta disso, muitos pais que acreditavam nunca mais ter que ver certas produ\u00e7\u00f5es acabaram num revival de fases anteriores do desenvolvimento infantil. Aqui em casa foi com Peppa Pig.<\/p>\n<p>Peppa, um desenho que minha filha, poucos meses antes da pandemia, dizia ser \u201cpra beb\u00ea\u201d, voltou ao ar com for\u00e7a total na nossa casa. Questionada por que estava assistindo algo \u201cpra beb\u00ea\u201d, ela foi categ\u00f3rica: \u201cSaudades de quando eu era crian\u00e7a\u201d. Saudades de quando eu era crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Dessa vez, ao inv\u00e9s de fazer ouvidos de mercador, resolvi prestar aten\u00e7\u00e3o e, confesso, me surpreendi. Aos moldes do famoso livro Para Ler o Pato Donald, onde Ariel Dorfman e Armand Mattelart desvelam a ideologia imperialista americana por tr\u00e1s das obras da Disney, descobri em Peppa Pig um enorme mundo de an\u00e1lise social.<\/p>\n<p>Peppa vive num mundo de animais antropomorfizados, ou melhor, de mam\u00edferos antropomorfizados. R\u00e9pteis, peixes e aves n\u00e3o t\u00eam caracter\u00edsticas humanas. Dentre esses animais existem diferen\u00e7as claras socialmente de acordo com as suas regi\u00f5es de origem. Os mam\u00edferos de origem europeia representam a classe m\u00e9dia incompetente inglesa que se beneficia de uma estrutura burocr\u00e1tica e ineficiente para sobreviver e cujos av\u00f4s e av\u00f3s vivem de fantasias militaristas do passado. Os animais vindos da \u00c1frica trabalham com artesanato, com o tratamento de animais ou no mundo do entretenimento. Os animais asi\u00e1ticos t\u00eam empregos especializados na \u00e1rea m\u00e9dica e de tecnologia ou cuidam dos servi\u00e7os p\u00fablicos, como seguran\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso h\u00e1 uma cr\u00edtica velada aos irlandeses, representados pela fam\u00edlia coelho que tem a maior quantidade de filhos e cuja m\u00e3e sempre aparece mudando de emprego.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa vis\u00e3o extremamente estereotipada dos imigrantes na Inglaterra, o que de certa forma mostra os aspectos inconscientes que estimularam o Brexit, temos uma divis\u00e3o que supera as quest\u00f5es sociais. Em Peppa existem apenas dois personagens humanos: Papai Noel e a Rainha, representando o capital e a nobreza. Essa divis\u00e3o exp\u00f5e um outro fosso de iniquidade intranspon\u00edvel para os animais: o de esp\u00e9cie. Por mais que os porcos, como em A Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos, tenham aprendido a andar em duas patas, eles nunca ser\u00e3o t\u00e3o poderosos como os humanos. Afinal sua origem biol\u00f3gica, animais (4 patas) bons, mas humanos (2 patas) melhor, continuar\u00e1 a assombr\u00e1-los.<\/p>\n<p>E a\u00ed se encontra na minha opini\u00e3o o ponto central da discuss\u00e3o socio-pol\u00edtica de Peppa Pig.<\/p>\n<p>Como um herdeiro de Bola de Neve e Napole\u00e3o, o primeiro come\u00e7ou a Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos, e o segundo se tornou um tirano se aliando aos humanos, Papai Pig \u00e9 a cria de um modelo opressivo que foi normalizado. Os animais vivem suas vidas alienados, preocupados com o senhor Batata e outros legumes que ao mesmo tempo que representam suas maiores celebridades tamb\u00e9m s\u00e3o o seu alimento. N\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a, como no nosso mundo, entre a obesidade biol\u00f3gica ou o excesso de consumo de informa\u00e7\u00f5es in\u00fateis. Todas s\u00e3o estimuladas por uma sociedade que nunca fica saciada e precisa consumir sem parar.<\/p>\n<p>Nesse estupor de consumo, o Papai Pig, sempre apresentado como obeso, incompetente e fraco, \u00e9 um sujeito emasculado, amea\u00e7ado por animais migrantes com maior expertise ou for\u00e7a de trabalho que ele. Um supremacista branco com nostalgia dos tempos onde s\u00f3 a origem j\u00e1 era suficiente para justificar o seu poder sobre os outros. Assim, atr\u00e1s dos sorrisos for\u00e7ados e vexat\u00f3rios de Papai Pig, h\u00e1 um enorme potencial fascista que s\u00f3 precisa de uma pequena fagulha para se manifestar.<\/p>\n<p>O universo de Peppa Pig \u00e9 um retrato do nosso passado recente: um mundo aparentemente em paz, vindo de revolu\u00e7\u00f5es esquecidas, onde a semente totalitarista est\u00e1 brotando escondida numa classe m\u00e9dia incompetente e reacion\u00e1ria. Se em Para ler o Pato Donald aprendemos como o imperialismo americano tenta oprimir e subjugar as demais culturas, considerando-as primitivas, e as corrompendo pelo interesse financeiro, em Peppa Pig vemos um momento p\u00f3s imperialista onde se vive uma nostalgia da opress\u00e3o. Ser\u00e1 que Papai Pig, como Boris Johnson, Trump, Bolsonaro, e seu av\u00f4 Napole\u00e3o, ir\u00e1 instituir uma nova ditadura com o pretexto de manter a lei e a ordem? S\u00f3 o tempo dir\u00e1. E a resposta n\u00e3o estar\u00e1 em Peppa Pig, mas, sim, nos nossos telejornais.<\/p>\n<p>Talvez seja melhor a gente trocar logo de canal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a pandemia, aqueles que t\u00eam filhos pequenos foram obrigados a receber uma dose maior do que a usual de programas infantis. 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