{"id":2931,"date":"2020-07-30T09:26:17","date_gmt":"2020-07-30T12:26:17","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2931"},"modified":"2023-10-12T13:58:37","modified_gmt":"2023-10-12T16:58:37","slug":"e-a-vovozinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/e-a-vovozinha\/","title":{"rendered":"\u00c9 a vovozinha"},"content":{"rendered":"<p>No bar do Beto Palavr\u00e3o rolava de tudo. Da missa de 7o. dia do Frei Eduardo, o padre mais velho, mulherengo e cachaceiro de Nova Rol\u00e2ndia, at\u00e9 o nascimento de netinho, filho de Junior, e bisneto da fundadora da cidade Dona Rol\u00e2ndia. O bar do Beto Palavr\u00e3o era o \u00fanico e \u00faltimo espa\u00e7o democr\u00e1tico de uma cidade controlada por coron\u00e9is, majores e capit\u00e3es. Um risca faca onde bandidos, pol\u00edcia nem mil\u00edcia ousavam entrar. Um templo maior que qualquer Igreja Matriz de novela de Dias Gomes.<\/p>\n<p>Mas pra n\u00e3o desfazer a m\u00edstica, um espa\u00e7o t\u00e3o livre tinha regras. Quer dizer, uma regra. Uma regra inusitada que contradizia o nome e o prop\u00f3sito do pr\u00f3prio bar. Uma regra que juram ter sido estipulada pela pr\u00f3pria dona Rol\u00e2ndia quando ela apartou a primeira briga do risca faca na sua noite de lan\u00e7amento 7 dias ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o da cidade. Essa regra, que quase ningu\u00e9m proferia nem entendia o porqu\u00ea mas todos guardavam no cora\u00e7\u00e3o, ficava estampada num pequeno quadro ao lado da caixa registradora logo em cima do livro do fiado. E dizia: \u201c Aqui pode tudo. S\u00f3 n\u00e3o pode xingar a av\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>Assim, quando os \u00e2nimos se exaltavam e faltavam maneiras de insultar os outros, seja por chifre, pol\u00edtica, sinuca ou novela das 9, o povo se calava pois ningu\u00e9m podia recorrer ao famoso expediente \u201c\u00c9 a vovozinha\u201d. E as brigas que pareciam inevit\u00e1veis se encerravam como que por m\u00e1gica.<\/p>\n<p>Mas pra n\u00e3o desfazer a m\u00edstica, a regra foi quebrada. Uma vez que eu me lembre. E foi justamente com Netinho, o bisneto de dona Rol\u00e2ndia, a mulher que criou o mandamento. Logo depois da morte de dona Rol\u00e2ndia aos 116 anos, ap\u00f3s uma briga com o pr\u00f3prio bisneto, Netinho entrou numa fase de dar gosto a psicanalista endividado. Ele foi enganado nos neg\u00f3cios e perdeu sua heran\u00e7a pro coronel Passarinho; a sua vaca premiada virou churrasco na m\u00e3o do capit\u00e3o Ten\u00f3rio; e a sua noiva, a virginal e bela Rosalva, quem diria?, fugiu num jipe com um cabo e um soldado na v\u00e9spera do casamento. Era demais prum homem s\u00f3.<\/p>\n<p>Netinho, que era n\u00e3o dessas coisas, come\u00e7ou a beber. De quando o sol raiava at\u00e9 quando a madrugada pedia pra dormir. Como n\u00e3o era acostumado como o Frei Eduardo, vez ou outra ele perdia a linha e vinha pro Beto Palavr\u00e3o puxar briga. O povo sabia o que ele estava passando e aguentava o que podia. Mas chegava uma hora em que o sangue esquentava e os improp\u00e9rios come\u00e7avam a voar de um lado pro outro at\u00e9 que Netinho encurralava seus interlocutores de uma forma que eles n\u00e3o pudessem dizer mais nada pois s\u00f3 restava o famoso \u201c\u00e9 a vovozinha\u201d, e ele sa\u00eda do bar feliz. Feliz de ter ganho alguma coisa em sua vida desgra\u00e7ada. Pra espezinhar ainda falava:<\/p>\n<p>&#8211; Em briga de moral aqui n\u00e3o tem pra mim.<\/p>\n<p>Calhou que a Sudene foi fazer uma obra na regi\u00e3o, daquelas pra acabar com a seca que nunca saiam do papel e s\u00f3 enchiam a carteira dos pol\u00edticos, e o engenheiro Ricardo, vindo do sul, come\u00e7ou a viver em nova Rol\u00e2ndia e a frequentar o Beto Palavr\u00e3o. Era um sujeito manso, mas macho, que tinha bom cora\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o conhecia a regra de dona Rol\u00e2ndia. Um dia Netinho chegou no bar com sangue no olho e escolheu o engenheiro Ricardo como seu alvo.<\/p>\n<p>A turma do deixa disso pediu calma, e o engenheiro segurou o quanto pode, mas quando Netinho falou mal do seu time do cora\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o fugiu da briga. Come\u00e7ou a xinga\u00e7\u00e3o e Netinho, pela primeira vez, sentiu que ia perder. Engenheiro Ricardo, al\u00e9m dos palavr\u00f5es comuns, trazia uns que s\u00f3 se falam abaixo da Bahia e a situa\u00e7\u00e3o complicou. Mas Netinho, que n\u00e3o era bobo nem nada, conseguiu dar a voltaa por cima\u00a0 e encurralou o sulista que, desconhecendo o mandamento do bar, como \u00faltimo recurso disparou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a vovozinha!<\/p>\n<p>Os clientes de Beto Palavr\u00e3o se calaram e esperaram Netinho partir pras vias de fato, mas ele n\u00e3o fez nada disso. Ele sorriu, se aproximou de Engenheiro Ricardo, o abra\u00e7ou e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado. Muito obrigado.<\/p>\n<p>Nem engenheiro Ricardo e nem ningu\u00e9m entendeu nada. Em choque viram Netinho partir assobiando em dire\u00e7\u00e3o ao Cabar\u00e9 da J\u00f4 Outdoor do outro lado da ponte do Rio Seco. Curiosos, o seguiram.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a curta caminhada, na barulhenta casa de toler\u00e2ncia e iluminado por aquela luz vermelha e irritante, os clientes de Beto Palavr\u00e3o viram Netinho ajoelhado em frente a uma senhora que fumava de piteira, tomando um conhaque barato, vestida de corpete e meia arrast\u00e3o. Uma senhora gorda, velha como tempo, e que, n\u00e3o podia ser, mas era; era a cara da dona Rol\u00e2ndia. Mas n\u00e3o era s\u00f3 a cara; era dona Rol\u00e2ndia, invocada dos infernos pela ofensa \u00e0 sua honra. Netinho, aliviado e aos prantos, dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Saudades, vov\u00f3. Me perdoa, por favor. Me perdoa.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 perdoado, meu netinho. T\u00e1 perdoado- a velha Rol\u00e2ndia respondeu, o abra\u00e7ou e desapareceu num bafo de fumo.<\/p>\n<p>O povo saiu do cabar\u00e9 e nunca mais ningu\u00e9m tocou no assunto. O fato \u00e9 que a vida de Netinho deu uma reviravolta depois daquilo. Com a ajuda do Engenheiro Ricardo, ele descobriu diamantes nas terras que lhe sobraram; coronel Passarinho e capit\u00e3o Ten\u00f3rio foram mortos na enchente causada pela explos\u00e3o da barragem da Sudene; e Netinho acabou constituindo fam\u00edlia com Ver\u00f4nica P\u00e1 de Cal, a desguarnecida filha do coveiro, que, quem diria?, era secretamente muito bonita. Tiveram apenas uma filha a quem deram o nome de Rol\u00e2ndia bisneta. Em merecida homenagem.<\/p>\n<p>Com o dinheiro que ganhou Netinho comprou um outdoor eterno pra colocar na frente da cidade e anunciar o caminho do cabar\u00e9 onde fez as pazes com o passado. Em letras mi\u00fadas, no canto direito, logo acima do neon dourado, se lia:<\/p>\n<p>\u201c Bem vindo a nova Rol\u00e2ndia, aqui pode tudo. S\u00f3 n\u00e3o pode xingar a av\u00f3. Seja bem vindo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No bar do Beto Palavr\u00e3o rolava de tudo. 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