{"id":2990,"date":"2020-08-28T07:35:43","date_gmt":"2020-08-28T10:35:43","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=2990"},"modified":"2023-10-12T13:35:42","modified_gmt":"2023-10-12T16:35:42","slug":"extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/extincao\/","title":{"rendered":"Extin\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Naquele \u00faltimo domingo todo mundo acordou cedo. Era um dia frio, frio mesmo, no mundo todo. E n\u00e3o choveu. Em lugar algum. Do mundo inteiro.<\/p>\n<p>As pessoas, ap\u00f3s acordarem, olharam pelas suas janelas e n\u00e3o se entristeceram com o c\u00e9u cinza chumbo que circundava a Terra. Apenas sorriram e resolveram fazer as coisas que mais gostavam. Algumas foram trabalhar, mesmo sem precisar; outras visitaram parentes ou amigos; e muitas, mas muitas mesmo, foram pros parques e orlas passear e estar com pessoas que n\u00e3o conheciam.<\/p>\n<p>E todos ficaram calados. Os trabalhadores se concentraram nas suas tarefas; os que visitaram outros apenas os abra\u00e7aram cheios de amor; e os que sa\u00edram \u00e0s ruas simplesmente sorriam uns para os outros. E todos, mas todos mesmo, vez ou outra paravam o que estavam fazendo para olhar o c\u00e9u. Aquele c\u00e9u cinza chumbo. E sorriam, sentindo que o c\u00e9u, como uma camada de prote\u00e7\u00e3o contra algo muito ruim, os defenderia o m\u00e1ximo poss\u00edvel contra qualquer mal.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou a anoitecer, as pessoas deixaram o trabalho, as fam\u00edlias, os amigos, os parques e as orlas com uma sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido, e se despediram umas das outras com acenos de cabe\u00e7a discretos e sinceros. A hora, todos sabiam, tinha chegado.<\/p>\n<p>Naquele \u00faltimo domingo, todo mundo foi dormir cedo. Tomaram banhos quentes e longos, botaram pijamas confort\u00e1veis e se esconderam do frio sob pilhas de cobertores aconchegantes. Quando todos, mas todos mesmo, j\u00e1 estavam sonhando, o c\u00e9u cinza chumbo tamb\u00e9m resolveu partir e deu lugar a um incr\u00edvel azul que ningu\u00e9m p\u00f4de ver. Aos poucos, tudo, como o c\u00e9u, tamb\u00e9m come\u00e7ou a ficar azul. As ruas, as florestas, as f\u00e1bricas, as m\u00e1quinas, os pr\u00e9dios, as casas, as pessoas. E esse azul, aos poucos, grau a grau, abaixou a temperatura com muita gentileza e cuidado at\u00e9 que todos, mesmo embaixo de seus grossos cobertores, estivessem congelados e preservados para as futuras gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o viriam.<\/p>\n<p>E, assim, o dia e o mundo acabou.<\/p>\n<p>Dezenas, centenas, milhares de anos passaram e todas as constru\u00e7\u00f5es humanas ru\u00edram. Nada que evidenciasse a nossa presen\u00e7a sobrou. Como uma piscadela do universo, sumimos no tempo.<\/p>\n<p>Mas foi bom, bom mesmo, pois naquele \u00faltimo domingo tudo foi perfeito. Em 30 mil anos de consci\u00eancia, naquele \u00faltimo momento, por pelo menos um dia, soubemos viver.<\/p>\n<p>A humanidade, como um sonho de uma noite de ver\u00e3o cheio de som e f\u00faria, veio e foi sem alarde, retornando a ser o p\u00f3 de estrelas que nunca deixou de ser. Sem orgulho ou vergonha simplesmente fomos, simplesmente nos fomos. E nada ficou, pois nada fica. A n\u00e3o ser os c\u00e9us azul e cinza chumbo que com carinho nos colocaram pra dormir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquele \u00faltimo domingo todo mundo acordou cedo. Era um dia frio, frio mesmo, no mundo todo. E n\u00e3o choveu. Em lugar algum. Do mundo inteiro. As pessoas, ap\u00f3s acordarem, olharam pelas suas janelas e n\u00e3o se entristeceram com o c\u00e9u cinza chumbo que circundava a Terra. 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