{"id":3003,"date":"2020-09-05T05:43:02","date_gmt":"2020-09-05T08:43:02","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3003"},"modified":"2020-09-05T05:43:02","modified_gmt":"2020-09-05T08:43:02","slug":"o-escritor-carioca-confinado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-escritor-carioca-confinado\/","title":{"rendered":"O escritor carioca confinado"},"content":{"rendered":"<p>Toda vez que compartilho algum texto meu com colegas que n\u00e3o moram no Rio, recebo sempre a mesma cr\u00edtica: &#8220;Pra que diabos voc\u00ea precisa ficar dando nome e endere\u00e7o de tudo?&#8221;.<\/p>\n<p>Entendo a cr\u00edtica, compreendo a irrita\u00e7\u00e3o, mas, sorry, n\u00e3o posso fazer nada.<\/p>\n<p>\u00c9 a sina do escritor carioca trampar de guia tur\u00edstico. Machado de Assis fez isso, Joaquim Manuel de Macedo fez isso, Jo\u00e3o do Rio inclusive, olha a bandeira, tem um livro chamado A Alma Encantadora das Ruas. Avan\u00e7ando pelo s\u00e9culo XX, Stanislaw Ponte Preta, e at\u00e9 os estrangeiros, como Nelson Rodrigues e os Rubens, Fonseca e Braga, se renderam a essa literatura de Guia Rex. O escritor carioca precisa mostrar de onde e a que veio. Afinal, pr\u00e9 pandemia, era um prazer flanar por essa cidade.<\/p>\n<p>Por isso escrevo que os personagens avan\u00e7aram a p\u00e9 pela Tonelero ao inv\u00e9s de pegar a Barata Ribeiro. Isso \u00e9 importante pra hist\u00f3ria e nos fala das escolhas que os personagens fazem e do que eles s\u00e3o feitos. Quem escolhe atravessar o T\u00fanel Velho a p\u00e9 pra chegar em Botafogo \u00e9 diferente, e muito, daquele que pega um t\u00e1xi e segue pela Lagoa subindo o corte do Cantagalo. O sujeito que chega no M\u00e9ier de lota\u00e7\u00e3o \u00e9 de outra esp\u00e9cie do que aquele que vai de trem e cruza a linha pra chegar do outro lado. <\/p>\n<p>O escritor e o personagem cariocas s\u00e3o feitos de escolhas de onde ir e como chegar. N\u00e3o tem grandiosidade, s\u00f3 pequenos dramas exagerados. Por isso a literatura do Rio \u00e9 feita de gente discretamente escandalosa e de esquinas e lugarezinhos. Por isso n\u00e3o h\u00e1 literatura na Barra da Tijuca, lugar que nem deveria fazer parte dessa terra. Por isso, a literatura carioca n\u00e3o foi feita s\u00f3 pra se ler, mas para se andar.<\/p>\n<p>Hoje, tentando terminar um conto que protelo desde meados de junho, esbarro num desses dramas. Os personagens deveriam ir pelo Jo\u00e1 ou pela Lagoa Barra? Como esse \u00e9 um ponto central na hist\u00f3ria, confesso, fico paralisado. Sem poder botar os dois caminhos \u00e0 prova, me pergunto o que ser\u00e1 da literatura carioca sem o fl\u00e2nerie. Mas lembro da elite ignara que enche as ruas do Leblon durante a pandemia e tenho certeza: gra\u00e7as a esses miser\u00e1veis, caminhar pelo Rio nunca mais ter\u00e1 gra\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda vez que compartilho algum texto meu com colegas que n\u00e3o moram no Rio, recebo sempre a mesma cr\u00edtica: &#8220;Pra que diabos voc\u00ea precisa ficar dando nome e endere\u00e7o de tudo?&#8221;. Entendo a cr\u00edtica, compreendo a irrita\u00e7\u00e3o, mas, sorry, n\u00e3o posso fazer nada. \u00c9 a sina do escritor carioca trampar de guia tur\u00edstico. Machado de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-3003","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3003","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3003"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3003\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3005,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3003\/revisions\/3005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}