{"id":3055,"date":"2020-09-30T08:02:27","date_gmt":"2020-09-30T11:02:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3055"},"modified":"2020-09-30T08:03:13","modified_gmt":"2020-09-30T11:03:13","slug":"muito-prazer-autosabotador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/muito-prazer-autosabotador\/","title":{"rendered":"Muito prazer, autossabotador"},"content":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7a com a inveja e um pouco de ci\u00fame. A primeira vez que senti isso foi num concurso de escrita na primeira s\u00e9rie. O meu col\u00e9gio todo ano organizava uma colet\u00e2nea de textos dos alunos da primeira a quarta s\u00e9ries, uma hist\u00f3ria era escolhida em cada turma e pra cada hist\u00f3ria t\u00ednhamos 3 ou 4 ilustra\u00e7\u00f5es. Na primeira vez que participei, tinha certeza que minha hist\u00f3ria ia ganhar. N\u00e3o ganhou.<\/p>\n<p>Fui rapidamente da sensa\u00e7\u00e3o de ci\u00fame, perder o que achava que era meu, \u00e0 inveja, o desejo de ter o que \u00e9 o do outro. Foi horr\u00edvel. O que me confortou foi que ainda tinha chance de participar com a ilustra\u00e7\u00e3o. Me esmerei, mas tamb\u00e9m n\u00e3o rolou. A sensa\u00e7\u00e3o se repetiu e a frustra\u00e7\u00e3o foi duplicada. Foi assim que, para proteger o meu ego, inconscientemente, entrei num processo compulsivo de planejar e antecipar a minha queda.<\/p>\n<p>Mas o h\u00e1bito n\u00e3o se firmou de imediato. Eu continuei tentando, ou quase. Me inscrevia, participava das coisas, me entregava, e sofria quando n\u00e3o recebia os louros que achava serem meus. Pra me proteger, minha solu\u00e7\u00e3o foi fingir pouco caso. Vivia na nega\u00e7\u00e3o da raposa das \u201cuvas est\u00e3o verdes\u201d. Eventualmente, era recompensado e ganhava. Inclusive no concurso que desencadeou o processo, l\u00e1 pela 3a. s\u00e9rie, uma das minhas ilustra\u00e7\u00f5es foi escolhida. Mas n\u00e3o pude curtir. Infelizmente, para manter a pose quando perdesse da pr\u00f3xima vez, o que eu &#8220;sabia&#8221; que aconteceria, precisava desmerecer o que eu atingi. Os pr\u00eamios eram bestas e os concursos pouco desafiadores, eu mentia pra mim e para os outros. Qualquer um podia ganhar. Qualquer um. At\u00e9 eu. Um outro qualquer.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o entre a tentativa de evitar a frustra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me expondo, e a nega\u00e7\u00e3o do reconhecimento que eventualmente recebia, comecei a ter uma postura perversa com a arte. Amando em segredo o que fazia, sangrando para produzir, sofrendo quando n\u00e3o era reconhecido, desprezando quando o era, mas fingindo pra todo mundo que n\u00e3o era nada demais. E assim todas as minhas conquistas foram maculadas por esse ar blas\u00e9 que eu precisava manter. Todas.<\/p>\n<p>Aos onze anos, o meu personagem foi o escolhido para estrelar os desenhos animados que finalizaram o curso de Cartum da Calouste Gulbenkian, mas eu n\u00e3o fui ao lan\u00e7amento pois estava \u201ccansado do col\u00e9gio\u201d. Mais de dez anos depois reencontrei meu professor, o mestre Lapi, e ele, que ainda lembrava de mim, me colocou como assistente de produ\u00e7\u00e3o num document\u00e1rio sobre o Pinel. Foi um trabalho incr\u00edvel mas, sei l\u00e1 por que, pedi para ser retirado dos cr\u00e9ditos.<\/p>\n<p>Na adolesc\u00eancia, \u00f3bvio, me encontrei nos fanzines. Produzia sozinho e fazia tiragens rid\u00edculas para n\u00e3o ser encontrado. As poucas pessoas que liam curtiam e queriam participar. Era a minha deixa para criar problemas com todo mundo e sair &#8220;por cima&#8221; por n\u00e3o ter comprometido a minha &#8220;integridade art\u00edstica&#8221;. Uma vez tive a aud\u00e1cia de mandar um fanzine para avalia\u00e7\u00e3o do MAU, o fanzine da revista Animal, e recebi v\u00e1rios elogios, mas como havia pedido, eles n\u00e3o divulgaram meu endere\u00e7o para contato. Como um bandido na lista dos 10 mais, queria ser reconhecido, mas n\u00e3o encontrado.<\/p>\n<p>Cresci e continuei com o mesmo comportamento. Fiz corpo mole e n\u00e3o fiz a prova pra faculdade de cinema. Fiquei na psicologia pois achei que me frustraria menos. Na mesma \u00e9poca, escrevi uma cr\u00edtica de cinema pro JB, e tinha um livro de poesias pronto que submeti \u00e0 editora 7 letras. Eles queriam editar desde que eu pagasse uma parte da tiragem, mas eu me convenci que era golpe e nem respondi. Hoje n\u00e3o tenho nem uma c\u00f3pia desse livro.<\/p>\n<p>Continuei escrevendo, participando de concursos e tentando me editar. Sempre com um p\u00e9 atr\u00e1s e sem acreditar nas benesses que me eram oferecidas. Ia pra saraus de poesia, declamava com desd\u00e9m e menosprezava os que me elogiavam. Cheguei ao ponto de jogar fora uma caixa com mais de mil poemas e umas tr\u00eas d\u00fazias de contos ap\u00f3s uma briga com uma namorada. Quando lembrava dessa autosabotagem, tentava me justificar com a hist\u00f3ria da vez que o Hemingway perdeu toda a sua produ\u00e7\u00e3o na sua bagagem; o que n\u00e3o tem nada a ver, afinal ele n\u00e3o jogou fora o que produziu em quase 10 anos por puro medo.<\/p>\n<p>Na transi\u00e7\u00e3o pro digital o comportamento continuou. Comecei a publicar meus textos num blog e em seis meses estava no Blogs of Note. Fechei o blog, sob a alega\u00e7\u00e3o que n\u00e3o merecia ter mais do que sete leitores,\u00a0 e o reabri em outro lugar. Participei de alguns projetos liter\u00e1rios e sites mas nunca mantinha um compromisso maior do que 6 meses. Quando as coisas come\u00e7avam a engregar, muitas vezes sem explica\u00e7\u00e3o, eu sumia.<\/p>\n<p>Assim fui me escondendo e me escondendo cada vez mais, sempre me comprometendo pela metade com o que eu dizia desejar e negando o que a vida \u00e0s vezes tentava me entregar.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, ainda reajo assim,mas estou em recupera\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m me elogia, imediatamente tento entender quais s\u00e3o os seus motivos escusos para isso. \u201c\u00d3bvio que n\u00e3o \u00e9 sincero\u201d. N\u00e3o quero encarar a queda novamente. Uma queda que, sinceramente, nunca sofri, mas que transformei num trauma pois a minha hist\u00f3ria, escrita aos 6 anos, sobre uma invas\u00e3o dos povos perdidos de Atl\u00e2ntida repelida por um grupo de jovens num cruzeiro perdeu para a hist\u00f3ria de uma minhoca que fazia os buracos em queijos su\u00ed\u00e7os num concurso liter\u00e1rio de col\u00e9gio. Hoje sei que a hist\u00f3ria da minhoca realmente era melhor e que n\u00e3o devia me martirizar tanto assim, mas a cabe\u00e7a n\u00e3o manda no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse processo de recupera\u00e7\u00e3o, procurei amigos e conhecidos que pareciam bem resolvidos com essa quest\u00e3o e todos me confidenciaram que, em maior ou menor grau, vivem com a mesma ang\u00fastia. \u00c9 bom n\u00e3o estar sozinho. Sim, gostaria de me jogar sem medo de rejei\u00e7\u00e3o e poder aproveitar as coisas boas que a vida vier a me oferecer, mas para isso preciso aprender a ter compaix\u00e3o comigo mesmo e entender que a fraqueza n\u00e3o \u00e9 precisar combater mas, sim, fugir da luta.<\/p>\n<p>O pulo do gato talvez seja agradecer mais, olhar os obst\u00e1culos como fins em si mesmo, e ter a certeza que a hist\u00f3ria n\u00e3o termina mesmo quando acaba. Sim, estou melhor mas n\u00e3o cheguei no ideal. Ningu\u00e9m chega. Mas continuamos na luta. Obrigado por me ler e fazer parte desse processo.<\/p>\n<p>#happythankyoumoreplease<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7a com a inveja e um pouco de ci\u00fame. A primeira vez que senti isso foi num concurso de escrita na primeira s\u00e9rie. 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