{"id":3078,"date":"2020-10-06T07:37:34","date_gmt":"2020-10-06T10:37:34","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3078"},"modified":"2020-10-06T07:37:34","modified_gmt":"2020-10-06T10:37:34","slug":"que-sono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/que-sono\/","title":{"rendered":"Que sono?"},"content":{"rendered":"<p>Um amigo dizia que a maturidade chega quando voc\u00ea descobre que dormir n\u00e3o \u00e9 puni\u00e7\u00e3o, mas um privil\u00e9gio. Nunca entendi isso.<\/p>\n<p>Desde pequeno minha rela\u00e7\u00e3o com o sono \u00e9 complicada. N\u00e3o curto dormir. Nunca curti. At\u00e9 os seis anos tinha pesadelos com uma figura inspirada no Juarez Machado, aquele artista pl\u00e1stico e m\u00edmico que se apresentava no Fant\u00e1stico. Lembra? Provavelmente n\u00e3o, mas eu lembro. Talvez s\u00f3 por conta dos pesadelos.<\/p>\n<p>Normalmente era uma persegui\u00e7\u00e3o, onde ele queria me levar embora para um mundo paralelo acess\u00edvel por paredes secretas no meu apartamento. Antes do sonho concluir, eu sempre acordava no meio da noite em p\u00e2nico, mas n\u00e3o conseguia pedir ajuda aos meus pais pois no meio do caminho tinha um quadro da Mona Lisa que, posso jurar, me seguia com os olhos. Com medo da minha cama e sem poder atravessar o corredor, eu ia pra sala e adormecia no sof\u00e1. <\/p>\n<p>Algum tempo depois esse terror infantil se resolveu num sonho do qual me lembro at\u00e9 hoje; na mesma \u00e9poca meus pais se livraram da Mona Lisa; e eu, tirando os intermedi\u00e1rios do meu processo de sono, passei a dormir direto no sof\u00e1. Quando o meu peso ainda permitia, minha m\u00e3e, antes de dormir, me transferia para a cama. Isso em pouco tempo ficou imposs\u00edvel e, sem ter o que fazer, todos simplesmente aceitaram que eu ia dormir direto no sof\u00e1. Dormir? Melhor seria dizer: viver no sof\u00e1. <\/p>\n<p>Eu chegava do col\u00e9gio e me esparramava no sof\u00e1 pra ler e ver TV. Ao meu lado, pilhas de quadrinhos, livros, brinquedos, cadernos, l\u00e1pis e canetas. Eu tinha, sim, um quarto, mas, como podem perceber, vivia mesmo no sof\u00e1.<\/p>\n<p>Preocupados com isso, meus pais me levavam de tempos em tempos para escolher camas que pudessem me levar de volta ao quarto. Beliches, camas com escrivaninhas, com prateleiras, com at\u00e9, pasmem, aqu\u00e1rios. Dessas, tive todas. Mas elas acabavam se tornando apenas os seus ap\u00eandices. Eram playgrounds, dep\u00f3sitos de livros, espa\u00e7os de trabalho, simula\u00e7\u00f5es do mundo marinho; tudo menos camas. Dormir sempre ficava pro sof\u00e1.<\/p>\n<p>Quando fiz 15 anos, eles j\u00e1 tinham desistido. Na \u00e9poca, eu at\u00e9 tinha uma cama no quarto, que me foi doada por algu\u00e9m, mas nunca foi usada. Era velha, pesada e estranha. Um objeto fazia mais sentido no cen\u00e1rio de um quarto de vi\u00fava do que no quarto de um adolescente.  <\/p>\n<p>Nunca dormi nela, mas era um lugar pra deitar acordado, ouvir m\u00fasicas, escrever poesia, assistir a videoclipes na TV e a filmes em VHS nas madrugadas. N\u00e3o para dormir. Dormir eu reservava para o sof\u00e1, e para uma cadeira de praia que tamb\u00e9m me foi doada por algu\u00e9m. Pra mim, dormir nunca foi planejado. Era uma esp\u00e9cie de ataque de exaust\u00e3o que me acometia entre um dia e outro. N\u00e3o era uma necessidade, mas uma fraqueza.<\/p>\n<p>Um dia, sem aviso, essa cama quebrou e n\u00e3o me lembro de sequer termos cogitado consert\u00e1-la. Ficou assim at\u00e9 que fui morar sozinho e, no ch\u00e3o da sala, joguei um colch\u00e3o que me servia de futon, sala de estar e espa\u00e7o para desmaiar. <\/p>\n<p>Assim permaneci at\u00e9 os meus 25 anos. Sem camas. No m\u00e1ximo tive estrados no ch\u00e3o que suportavam um colch\u00e3o. Eram espa\u00e7os para assistir TV, ler, dar festas(!!!) e desmaiar de exaust\u00e3o. Camas, e o sono, eram conceitos estranhos para mim. <\/p>\n<p>Quando conheci minha mulher e comecei a trabalhar fui obrigado a encarar o sono de maneira diferente. Eu n\u00e3o dormia mais sozinho e meu tempo n\u00e3o era mais s\u00f3 meu, Precisei me alinhar aos h\u00e1bitos dela e aos hor\u00e1rios da f\u00e1brica. 8 horas de trabalho, 8 horas de divers\u00e3o, 8 horas de sono. Sono? Quero dizer, 8 horas de cama.<\/p>\n<p>Nunca cumpri essas 8 horas. Se deitava cedo e conseguia dormir, acordava na madrugada sem saber o que fazer. Sem pesadelos, mas numa esp\u00e9cie de p\u00e2nico indescrit\u00edvel. Um medo do amanh\u00e3, um medo de ainda ser ontem. Se n\u00e3o conseguia dormir, contava as horas como port\u00f5es, com a certeza que a \u00fanica cura para a ins\u00f4nia, a \u00fanica coisa que iria me trazer o sono pelo qual ansiava e temia era a luz do sol.<\/p>\n<p>Abandonei a p\u00f3s adolesc\u00eancia e o cansa\u00e7o gerado por 25 anos de noites mal dormidas cobrou o seu pre\u00e7o \u00e0 vista. Sem cr\u00e9dito tento pagar em presta\u00e7\u00f5es. Assim, nos \u00faltimos 20 anos resolvi encarar o problema do sono mais seriamente. Fiz terapias, exames, comprei rel\u00f3gios inteligentes e baixei aplicativos que monitoram a minha vida. Sempre tentando encontrar uma maneira de dormir melhor. <\/p>\n<p>O problema \u00e9 que eu n\u00e3o sei o que \u00e9 dormir melhor, nem acredito nisso. Se eu pudesse n\u00e3o dormir, confesso, eu n\u00e3o dormiria. Temos tanto a ler, a escrever, a assistir, a desenhar, a ouvir, a conversar e a sonhar acordados, que o sono, como na inf\u00e2ncia, ainda me parece uma fraqueza. Mesmo com o sono curto, eu sonho muito, e tudo que n\u00e3o seja parte dessa psicodelia org\u00e2nica, me parece pura perda de tempo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o sou mais t\u00e3o jovem e o corpo pede o descanso. Come\u00e7o o dia cedo e, quando bate a noite, j\u00e1 estou cansado. Resisto e me arrasto por per\u00edodos de baixa de energia e blackout total, tentando encontrar algum m\u00e9todo alternativo para realmente descansar. Por\u00e9m,  como a menina da m\u00fasica da Marisa Monte que toma hipofagin mas sonha em comer bolo de chocolate em todas as refei\u00e7\u00f5es, eu ainda sonho em n\u00e3o ter sono.<\/p>\n<p>Hoje eu tento manter uma rotina. D\u00e1 dez horas eu deito. Na maioria das vezes durmo r\u00e1pido. Me condicionei. Tem m\u00fasicas, filmes e sons que me colocam no estado de relaxamento que me permite atravessar a noite. Mas essa noite sempre acaba antes do sol nascer e desperto antes da hora do mundo acordar. Durante muito tempo lutei contra isso, me desesperei e sofri. Hoje, ao inv\u00e9s de lutar, tento usar melhor esse tempo com o que me faz feliz, por exemplo, escrevendo sobre o sono. Continuo cansado, mas tenho um sorriso relaxado no rosto. N\u00e3o dormi, mas sonhei, mesmo que acordado.<\/p>\n<p>Um amigo dizia que a maturidade chega quando voc\u00ea descobre que dormir n\u00e3o \u00e9 puni\u00e7\u00e3o, mas um privil\u00e9gio. Quando lembro disso, me pergunto se realmente cresci. Pois crescer n\u00e3o \u00e9 se adequar ao tempo alheio, mas respeitar o seu pr\u00f3prio tempo e saber que de um dia pro outro mudamos, morremos e renascemos para uma realidade que n\u00e3o \u00e9 a mesma de ontem. Dormir \u00e9 abra\u00e7ar sem medo essa transforma\u00e7\u00e3o. Dormir \u00e9 n\u00e3o ter medo que o Juarez Machado vai te levar pro mundo paralelo das paredes e nunca mais voltar. Dormir \u00e9 ter confian\u00e7a que o passado ficou para tr\u00e1s e que o futuro vai te receber de bra\u00e7os abertos. Dormir \u00e9 se libertar da culpa e da ansiedade. Se viver \u00e9 estar no momento, dormir \u00e9 se permitir n\u00e3o estar aqui ou, melhor, estar nesse lugar nenhum, o u-topos. A Utopia.<\/p>\n<p>Nessa busca, deu 10 horas, me deito, fecho os olhos, respiro fundo e me deixo ser jogado em dire\u00e7\u00e3o ao futuro nessa viagem psicod\u00e9lica. O que me esperar\u00e1?<\/p>\n<p>Bons sonhos. Durmam bem. Espero v\u00ea-los do outro lado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amigo dizia que a maturidade chega quando voc\u00ea descobre que dormir n\u00e3o \u00e9 puni\u00e7\u00e3o, mas um privil\u00e9gio. Nunca entendi isso. Desde pequeno minha rela\u00e7\u00e3o com o sono \u00e9 complicada. N\u00e3o curto dormir. Nunca curti. At\u00e9 os seis anos tinha pesadelos com uma figura inspirada no Juarez Machado, aquele artista pl\u00e1stico e m\u00edmico que se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3078","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3078","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3078"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3078\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3081,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3078\/revisions\/3081"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3078"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3078"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3078"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}