{"id":3105,"date":"2020-11-07T07:41:03","date_gmt":"2020-11-07T10:41:03","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3105"},"modified":"2020-11-07T07:41:44","modified_gmt":"2020-11-07T10:41:44","slug":"nao-da-ideia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/nao-da-ideia\/","title":{"rendered":"N\u00e3o d\u00e1 ideia"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o lembro da primeira ideia que tive, mas minha m\u00e3e ainda tem o registro da minha primeira execu\u00e7\u00e3o de uma ideia. Numa fita cassete cheia de chiados d\u00e1 pra me ouvir cantar aos 3 anos de idade:<\/p>\n<blockquote><p>A bandeira do Brasil era boa<br \/>\nUm dia ela rasgou<br \/>\nDepois quebrou o pau<br \/>\nDepois n\u00e3o tinha nem mais pau<\/p><\/blockquote>\n<p>Num pseudo ritmo e sem rimas, eu tentava contar as desventuras da bandeira do Forte do Leme que eu conseguia ver pela janela do meu quarto. Segundo minha m\u00e3e, fiquei angustiado por semanas quando, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de ventanias, a bandeira rasgou e aos poucos foi se desgastando at\u00e9 ser substitu\u00edda. Minha m\u00e3e achava que era uma manifesta\u00e7\u00e3o da musicalidade que ela sempre desejou que eu tivesse mas nunca tive; meu pai j\u00e1 achava que era uma cr\u00edtica precoce ao regime militar que entrava no per\u00edodo da anistia. N\u00e3o era nem uma coisa, nem outra. Era uma ideia. Como tantas que tive e tenho. Como as tantas que at\u00e9 hoje me perseguem.<\/p>\n<p>Ideias que me fizeram desenhar por 2 anos uma tira di\u00e1ria chamada ABOBRIM sobre animais transmorfos que comentavam a pol\u00edtica do governo Sarney. Ideias que me fizeram criar (e n\u00e3o lan\u00e7ar) d\u00fazias de fanzines na adolesc\u00eancia. Ideias que eu escrevia em caderninhos at\u00e9 se tornarem algo, como poemas sobre freiras que chupavam dedos ou soldados numa guerra do Vietnam psicod\u00e9lica. Ideias. De todos os tipos, formas e tamanhos.<\/p>\n<div id=\"attachment_3113\" style=\"width: 780px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3113\" class=\"wp-image-3113 size-large\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-07-at-07.31.55-1024x542.jpeg\" alt=\"\" width=\"770\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-07-at-07.31.55-1024x542.jpeg 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-07-at-07.31.55-300x159.jpeg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-07-at-07.31.55-768x407.jpeg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-07-at-07.31.55-980x519.jpeg 980w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-07-at-07.31.55.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><p id=\"caption-attachment-3113\" class=\"wp-caption-text\">Saudades de desenhar o ABOBRIM<\/p><\/div>\n<p>Pode parecer que esse excesso de ideias me tornaria produtivo, mas n\u00e3o. As ideias, pelo menos pra mim, precisam de um longo e angustiante per\u00edodo de fermenta\u00e7\u00e3o que, olhando de longe, ou\u00a0 de perto, parece no melhor dos casos \u00f3cio criativo e, no pior, pura pregui\u00e7a.<\/p>\n<p>Desde que elas surgem, numa imagem, som ou associa\u00e7\u00e3o cognitiva pouco usual, at\u00e9 cumprirem seu destino, leva tempo. Tenho ideias dos meus 10 anos de idade que ainda est\u00e3o tomando forma e que retornam, dia sim, dia n\u00e3o, me perguntando: \u201cE a\u00ed? J\u00e1 est\u00e1 na hora?\u201d. E eu respondo: \u201cAinda n\u00e3o. Ainda n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 demorado. O <a href=\"https:\/\/youtu.be\/xCwH8UNc3xk?list=PLC1xxptPs9OcvN2zqA4gtT30pgxfc3ekZ\">meu primeiro curta<\/a>, que filmei aos 33 anos, surgiu como uma ideia para uma hist\u00f3ria em quadrinhos, aos meus 18 anos, na fila do banheiro da Academia da Cacha\u00e7a do Leblon. Virou cr\u00f4nica, roteiro de quadrinhos, e depois <a href=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/roteiro-terminavel-e-interminavel\/\">7 vers\u00f5es de roteiro cinematogr\u00e1fico<\/a>, at\u00e9 ser filmado 15 anos depois. O pior \u00e9 que n\u00e3o fiquei completamente satisfeito com o resultado final e vez ou outra penso em como retom\u00e1-lo. Fazer o que?<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o me angustio mais. Quer dizer, tanto assim. Minhas ideias precisam de tempo para maturarem adequadamente e nunca est\u00e3o completas. S\u00e3o pequenas obsess\u00f5es de longo prazo que culminam em surtos compulsivos, como aquele que tive no fim de semana em que escrevi 60 p\u00e1ginas da <a href=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/VdP_Biblia.pdf\">B\u00edblia<\/a> e do <a href=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/VdP_4th_draft.pdf\">Piloto<\/a> da minha Sitcom baseada na minha experi\u00eancia como livreiro, 18 anos depois de t\u00ea-la imaginado pela primeira vez.<\/p>\n<p>Ou seja, se quiserem me diagnosticar, podem dizer que sou um obsessivo em tempo integral e um compulsivo bissexto. E est\u00e1 bom pra mim. Posso sofrer, um pouco, mas quem disse que quero ser curado?<\/p>\n<p>Se for pensar bem, a culpa pelas ideias n\u00e3o \u00e9 minha. Eu nunca tive ideias, elas \u00e9 que me tiveram, me t\u00eam e, se deus quiser, ainda me ter\u00e3o por muito tempo. Tudo que preciso \u00e9 saber conviver com elas, dar espa\u00e7o e tempo para elas maturarem, e, quando conclu\u00eddas, delas, nada esperar. Afinal, n\u00e3o criamos ideias, ou filhas, pelas recompensas que nos trar\u00e3o. As criamos pro mundo e torcemos que elas, de alguma forma, o tornem melhor. Ou pelo menos mais interessante.<\/p>\n<p>Por isso quando me perguntam pra que eu escrevo, desenho, crio, eu digo: \u201cN\u00e3o sei\u201d. Mas se me perguntarem o porqu\u00ea, eu posso responder: \u201cAs malditas ideias n\u00e3o me deixam em paz\u201d. E eu adoro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3114 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-02-at-14.09.17.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-02-at-14.09.17.jpeg 600w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-02-at-14.09.17-300x100.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p><em>Este texto faz parte da blogagem coletiva Esta\u00e7\u00e3o Blogagem, com o tema Tar\u00f4: cada semana de novembro ser\u00e1 regido por um naipe que vai inspirar a produ\u00e7\u00e3o dos textos. Para saber a programa\u00e7\u00e3o e participar, leia esse <a href=\"https:\/\/www.alinevalek.com.br\/blog\/2020\/11\/saudade-de-blogar-ne-minha-filha\/\">texto aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o lembro da primeira ideia que tive, mas minha m\u00e3e ainda tem o registro da minha primeira execu\u00e7\u00e3o de uma ideia. 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