{"id":3134,"date":"2020-11-14T05:56:25","date_gmt":"2020-11-14T08:56:25","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3134"},"modified":"2020-11-14T05:56:25","modified_gmt":"2020-11-14T08:56:25","slug":"emily-in-the-city","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/emily-in-the-city\/","title":{"rendered":"Emily in the City"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 umas semanas, vi algumas pessoas comparando no twitter Sex and the City e Emily in Paris. Segundo um artigo na folha que o pessoal compartilhou ambas as s\u00e9ries seriam obras machistas, ou pelo menos n\u00e3o feministas, por terem um foco muito grande no relacionamento amorosos de suas protagonistas, e, portanto, as millenials mereceriam uma representante melhor. Fiquei intrigado com essa an\u00e1lise, assisti a s\u00e9rie de uma vez s\u00f3 e tenho alguns questionamentos quanto a essas declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 sobre a compara\u00e7\u00e3o com Sexy and the City. Quando fala da s\u00e9rie, o pessoal foca muito no draminha e no romance Carrie e Big que s\u00f3 come\u00e7ou a se tornar algo de fato a partir da 3a. temporada e esquece das duas primeiras temporadas que eram beeem diferentes. O conceito inicial se aproximava muito mais de um mockument\u00e1rio antropol\u00f3gico sobre o dating game em Manhattan, no que se presumia na \u00e9poca ser um per\u00edodo p\u00f3s feminista, que hoje n\u00e3o faz o menor sentido. Emily in Paris n\u00e3o pode entrar nessa compara\u00e7\u00e3o pois seu contexto hist\u00f3rico \u00e9 bem diferente daquele do final dos anos 90 e o formato da s\u00e9rie, bem mais tradicional, n\u00e3o se pretende a esse tipo de discuss\u00e3o, apesar de levantar muito en passant algumas quest\u00f5es identit\u00e1rias.<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 sobre a necessidade de toda obra de arte ter um papel de representa\u00e7\u00e3o de um grupo. \u00c9 fato que toda obra ficcional requer que haja algum n\u00edvel de empatia com os seus protagonistas para que nos importemos com o seu destino e isso gere a tens\u00e3o necess\u00e1ria para mobilizar a nossa emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando falamos de representa\u00e7\u00e3o, o esfor\u00e7o de identifica\u00e7\u00e3o com as protagonistas \u00e9 um trabalho muito maior da parte do espectador do que quando os autores buscam criar personagens nos quais o p\u00fablico consiga se enxergar ou se projetar. O sucesso da gera\u00e7\u00e3o dessa empatia depende de habilidade e equil\u00edbrio na escrita, o que, infelizmente, Emily n\u00e3o tem. A personagem, como as demais da s\u00e9rie, \u00e9 bem bidimensional, seus conflito seguem um padr\u00e3o corporativo procedural, e inclusive me questiono se seus conflitos principais s\u00e3o amorosos ou de trabalho. Os epis\u00f3dios apresentam pequenos toques de romance, mas a quest\u00e3o sentimental n\u00e3o \u00e9 o que mais angustia Emily e sim perder o emprego ou performar mal.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que Emily n\u00e3o est\u00e1 de fato representando as Millenials que precisam aprender a se libertar do jugo corporativo e do trabalho com prop\u00f3sito, seguindo dicas de europeus estereotipados? Ser\u00e1 que o sucesso da s\u00e9rie n\u00e3o est\u00e1 calcado em boa parte com a identifica\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com esse conflito laboral?<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que obra alguma deva ter fun\u00e7\u00e3o. Arte \u00e9 do dom\u00ednio do n\u00e3o utilit\u00e1rio. Emily em Paris \u00e9 uma s\u00e9rie simpl\u00f3ria, mas bem divertida que te permite vivenciar conflitos corporativos c\u00f4micos e de baixo impacto num belo cen\u00e1rio com toques de hist\u00f3ria de amor. Abusa dos clich\u00eas, \u00e9 repetitivo, mas como novela funciona. Pedir algo al\u00e9m dessa s\u00e9rie ou de qualquer outra \u00e9 absurdo.<\/p>\n<p>Assim como Carrie Bradshaw n\u00e3o deveria ser encarada como modelo de comportamento, Emily n\u00e3o deveria arcar com esse fardo. A ansiedade por encontrar ideais vem n\u00e3o dos criadores mas do p\u00fablico. Ao inv\u00e9s de demandarmos isso da fic\u00e7\u00e3o, dever\u00edamos nos perguntar qual o nosso problema para sentir tanto essa falta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 umas semanas, vi algumas pessoas comparando no twitter Sex and the City e Emily in Paris. 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