{"id":3142,"date":"2020-11-17T08:09:28","date_gmt":"2020-11-17T11:09:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3142"},"modified":"2020-11-17T08:09:28","modified_gmt":"2020-11-17T11:09:28","slug":"uorque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/uorque\/","title":{"rendered":"U\u00f4rque"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu nasci, meu pai j\u00e1 estava aposentado, e, na inf\u00e2ncia, minha m\u00e3e tinha tantos empregos que\u00a0 eu nunca consegui entender o trabalho de uma maneira normal. Nenhum dos dois sa\u00eda de casa depois do caf\u00e9 dizendo vou trabalhar e voltava no fim do dia para jantar. Era totalmente diferente do que eu via nas novelas ou nas casas dos amigos. Com eles era como se o trabalho fosse ao mesmo tempo tudo e nada em suas vidas.<\/p>\n<p>Meu pai me buscava no col\u00e9gio, fazia a ronda numa empresa na qual era s\u00f3cio, ia a escrit\u00f3rios de imobili\u00e1rias entregar pap\u00e9is e recolher dinheiro, e me confidenciava:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui t\u00e1 todo mundo enrolando. Vamos tomar um sorvete.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e me levava pra passear num determinado lugar e quando eu menos esperava estava sentado no fundo de uma sala onde ela dava aula para um grupo de pessoas que eu nunca tinha visto.<\/p>\n<p>&#8211; Vai anotando os pontos que as pessoas mais perguntam- ela me pedia.<\/p>\n<p>Espremido entre essas duas \u00e9ticas do trabalho bizarras, \u00f3bvio que me tornei um jovem adulto com problemas. Trabalhava em excesso por nada, brigava com chefes em prol de clientes, e, quando comecei a ter as minhas empresas, organizava reuni\u00f5es com os funcion\u00e1rios para levantar maneiras de pag\u00e1-los mais. Talvez por isso eu nunca entendi uma linha escrita na revista Voc\u00ea S.A. Para mim trabalho n\u00e3o era o caminho para status e fortuna, mas a \u00fanica maneira de estabelecer rela\u00e7\u00f5es e justificar minha exist\u00eancia no mundo.<\/p>\n<p>Depois de anos sofrendo nessas rela\u00e7\u00f5es comerciais e profissionais dram\u00e1ticas que eram mais emocionais do que pr\u00e1ticas, um dia, na an\u00e1lise, o meu psicanalista acertou na mosca:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o consegue parar de trabalhar.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade. N\u00e3o consigo. Nunca consegui.<\/p>\n<p>Todas as minhas rela\u00e7\u00f5es, inclusive as pessoais, tem um qu\u00ea de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o. Conhe\u00e7o uma pessoa, me torno sua amiga, e, pimba!, temos um projeto juntas. Seja uma banca para vender revistas usadas, como fazia na inf\u00e2ncia; um fanzine ou associa\u00e7\u00e3o de RPG, na minha adolesc\u00eancia; ou uma das in\u00fameras empresas que tive ou das quais participei na minha vida. Se voc\u00ea me conhece pessoalmente, me diz a verdade, n\u00e3o lhe d\u00e1 a impress\u00e3o \u00e0s vezes que estou prestando uma consultoria?<\/p>\n<p>Eu sei, \u00e9 chato pacas. Voc\u00ea vem falar de um problema qualquer e eu j\u00e1 penso em como podemos transformar isso em algo: um podcast, um livro, um projeto, um evento. Parece at\u00e9 que estou ligado no 220, mas n\u00e3o estou. Eu simplesmente n\u00e3o consigo parar de trabalhar. Talvez da\u00ed venha a minha mania insuport\u00e1vel de dar palpite em tudo. Mesmo quando as pessoas s\u00f3 querem anu\u00eancia, eu sempre tenho uma sugest\u00e3o a fazer. Eu tento me controlar, mas, desculpem, \u00e9 mais forte do que eu.<\/p>\n<p>O tal psicanalista, que verbalizou o que eu nunca consegui, disse, na \u00e9poca, que o problema vinha de duas mensagens contradit\u00f3rias que meu inconsciente reinterpretou. Meu pai dizia: n\u00e3o trabalha. Minha m\u00e3e dizia: n\u00e3o \u00e9 trabalho. Mas o inconsciente, cheio de vontades, n\u00e3o entende \u201cn\u00e3o\u201d. Assim, interpretei na minha vida: \u201ctrabalha, \u00e9 trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Pra piorar, trabalho, pra mim, nunca teve a ver com dinheiro. Acho que se fosse milion\u00e1rio minha vida ia ser igual a que eu tenho hoje, pois continuaria fazendo a grande maioria das coisas que fa\u00e7o sem precisar me preocupar com dinheiro, um outro assunto problem\u00e1tico que n\u00e3o d\u00e1 pra tratar aqui.<\/p>\n<p>Durante muito tempo isso me angustiou, mas a idade vai te permitindo perceber que tem algumas coisas que n\u00e3o v\u00e3o mudar em voc\u00ea, como aquela unha encravada cr\u00f4nica ou a mania de beber leite da caixinha. Ent\u00e3o a gente precisa aprender a conviver com isso pois a op\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre pior.<\/p>\n<p>Pra mim, por exemplo, n\u00e3o trabalhar \u00e9 n\u00e3o estabelecer rela\u00e7\u00f5es, \u00e9 estar isolado do mundo, deprimido, sem fun\u00e7\u00e3o ou raz\u00e3o de viver. Por isso eu trabalho. O dinheiro, \u00e0s vezes, \u00e9 uma apreciada e necess\u00e1ria consequ\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o de tudo. A coisa mais importante \u00e9, como dizia Andy Warhol, o u\u00f4rque.<\/p>\n<p><iframe title=\"Lou Reed &amp; John Cale - Work (Official Music Video)\" width=\"625\" height=\"352\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bdl5fJ-c_lA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Por isso, vou continuar a dar palpite na vida alheia, a montar planos de marketing, a revisar livros, a criar jogos,\u00a0 a fazer listas de leitura, a montar sites, grupos de estudo e tudo mais que me fa\u00e7a me sentir \u00fatil. Tudo mais que concretize a minha experi\u00eancia na Terra e me lembre que estive aqui para servir voc\u00ea. Mesmo que seja acordar \u00e0s cinco da manh\u00e3 para escrever um post num blog que ningu\u00e9m l\u00ea.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3145 size-large\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/89230913-f8ca-4d78-bab1-0d3257941dda-1015x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"770\" height=\"777\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/89230913-f8ca-4d78-bab1-0d3257941dda-1015x1024.jpeg 1015w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/89230913-f8ca-4d78-bab1-0d3257941dda-297x300.jpeg 297w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/89230913-f8ca-4d78-bab1-0d3257941dda-150x150.jpeg 150w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/89230913-f8ca-4d78-bab1-0d3257941dda-768x775.jpeg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/89230913-f8ca-4d78-bab1-0d3257941dda-980x989.jpeg 980w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/89230913-f8ca-4d78-bab1-0d3257941dda.jpeg 1074w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><\/p>\n<p><em>Este texto faz parte da blogagem coletiva Esta\u00e7\u00e3o Blogagem, com o tema Tar\u00f4: cada semana de novembro ser\u00e1 regido por um naipe que vai inspirar a produ\u00e7\u00e3o dos textos. Para saber a programa\u00e7\u00e3o e participar, leia esse <a href=\"https:\/\/www.alinevalek.com.br\/blog\/2020\/11\/saudade-de-blogar-ne-minha-filha\/\">texto aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu nasci, meu pai j\u00e1 estava aposentado, e, na inf\u00e2ncia, minha m\u00e3e tinha tantos empregos que\u00a0 eu nunca consegui entender o trabalho de uma maneira normal. Nenhum dos dois sa\u00eda de casa depois do caf\u00e9 dizendo vou trabalhar e voltava no fim do dia para jantar. 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