{"id":3149,"date":"2020-11-20T07:25:10","date_gmt":"2020-11-20T10:25:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3149"},"modified":"2020-11-20T07:25:10","modified_gmt":"2020-11-20T10:25:10","slug":"o-artista-o-produtor-e-o-pirata-entram-num-bar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-artista-o-produtor-e-o-pirata-entram-num-bar\/","title":{"rendered":"O artista, o produtor e o pirata entram num bar"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7ou a rolar uma discuss\u00e3o sobre a quest\u00e3o da pirataria no Grupo do Bobagens Mais Imperd\u00edveis e me senti tentado a me pronunciar a respeito. Comecei a escrever uma mensagem, mas ela foi crescendo, crescendo, e virou esse post. Pe\u00e7o desculpas antecipadamente pelo meu desatino.<\/p>\n<p>Acho doido o povo discutir o modelo comercial da arte no s\u00e9culo XX como se ele tivesse nascido com o mundo. O processo de ter um gate keeper (editora, gravadora, produtora) que comercializa uma obra de arte f\u00edsica ou virtual (e suas reprodu\u00e7\u00f5es) n\u00e3o nasceu com a humanidade. O processo de financiar a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e o sustento dos artistas teve v\u00e1rios outros modelos. Durante muito tempo t\u00ednhamos o Mecenato; est\u00fadios de escultores; guildas; comunidades rurais de artistas; e, antes das editoras, as pr\u00f3prias livrarias eram publishing houses. Em suma, ser artista nunca foi profiss\u00e3o regulamentada mas parte fundamental do nosso ser.<\/p>\n<p>Quando a arte entrou no modelo industrial, artista, sim, virou profiss\u00e3o, quer dizer, emprego, e criou absurdos como Carla Perez ser tratada como artista, pois vende em atividade correlata a ind\u00fastria de entretenimento, e seu vizinho que escreveu dois livros de poemas fodas e declama belamente quando est\u00e1 b\u00eabado no botequim da esquina ser chamado de vagabundo.<\/p>\n<p>A arte virou uma exclusividade dos que geram dinheiro (para si e para os outros) com ela. Uma bruta besteira criada pela ind\u00fastria junto com o mito de que os artistas, como pa\u00edses a serem colonizados e brutalizados, precisavam ser descobertos. N\u00e3o precisam, pois todos somos artistas. Sobre o tema, sugiro a leitura de <a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/stewart-home\/manifestos-neoistas-greve-da-arte\/1317973628\">A Greve da Arte de Stewart Home<\/a>.<\/p>\n<p>Mas voltando \u00e0 vaca fria. A quest\u00e3o da pirataria n\u00e3o \u00e9 novidade e vem de m\u00e3os dadas com a quest\u00e3o de copyright desde ao s\u00e9culo XXVII, o <a href=\"https:\/\/www.google.com\/search?rlz=1CAPPDO_enBR874&amp;tbm=vid&amp;sxsrf=ALeKk01BeS-jZrkLgU8plXx5238euaQOCg:1605864694849&amp;q=piracy+cory+doctorow&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwj_gsaV6JDtAhVtILkGHWz-DQgQ8ccDKAR6BAgLEBI&amp;biw=1318&amp;bih=665\">Cory Doctorow tem excelentes observa\u00e7\u00f5es sobre isso<\/a>. Ent\u00e3o, ao inv\u00e9s de discutir se pirataria \u00e9 v\u00e1lido, bom, ruim ou uma forma de se posicionar contra grandes conglomerados capitalistas (uma racionaliza\u00e7\u00e3o exagerada cuja consequ\u00eancia pra mim \u00e9 a mesma de botar fogo na casa do torneiro mec\u00e2nico pois voc\u00ea \u00e9 contra a ind\u00fastria automobil\u00edstica), devemos nos questionar o que isso amea\u00e7a e qual seu prop\u00f3sito. Pois pirataria n\u00e3o \u00e9 fim em si mesmo, mas um sintoma.<\/p>\n<p>Um sintoma da falta de recursos para consumir a obra, do n\u00famero limitado de c\u00f3pias, da dificuldade de acesso, da falta de reposit\u00f3rios p\u00fablicos dessas reprodu\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 de uma sanha hiperconsumista. Afinal, pra que precisamos encher HDs com livros, filmes e s\u00e9ries que nunca iremos ler ou ver? Roubar pode ter v\u00e1rias justificativas, mas ainda \u00e9 roubar. Mesmo que os demais elos da cadeia roubem tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que a pirataria n\u00e3o \u00e9 um problema da arte, mas do com\u00e9rcio e da ind\u00fastria. E a \u201cind\u00fastria da arte\u201d, depois de tentar bloquear sem sucesso a dissemina\u00e7\u00e3o das obras, passou a responder a isso apostando na transforma\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios artistas em produtos, que vivem da cultura da celebridade, da venda de memorab\u00edlia, e n\u00e3o passam de garotos propaganda ou conte\u00fado filler entre comerciais na internet. S\u00e9rio. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na m\u00fasica. J\u00e1 viram esses canais de booktubers ou entrevistas com escritores hoje em dia? <a href=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-desencontro-com-o-escritor\/\">Os extintos suplementos liter\u00e1rios viraram apenas vers\u00f5es da Caras e do Shoptime para um p\u00fablico que se pretende intelectual pois compra livros<\/a>.<\/p>\n<p>Ah, mas e o artista? Como ele vai sobreviver? Bom, sobrevivendo. Tendo outros empregos, contando com o micro-mecenato, e recolhendo o que sobra da decrescente ind\u00fastria de reprodu\u00e7\u00f5es de obras de arte. Ou, como uma vez ouvi Luiz Ruffato dizer numa palestra, cobrando por tudo que faz. Sim, ou voc\u00ea acha que o mito do artista puro n\u00e3o foi criado pela pr\u00f3pria ind\u00fastria para acusar de vendido todos que desejam receber pelo valor que geraram?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pirataria, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o merece discuss\u00e3o. Se voc\u00ea faz, est\u00e1 errado. Pode justificar como quiser, mas est\u00e1 errado. Discutir modelos de sustento da atividade art\u00edstica e dos criadores, sim, \u00e9 um tema v\u00e1lido e espinhoso, sobre o qual eu n\u00e3o tenho nenhuma certeza e adoraria conversar. Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o a respeito?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7ou a rolar uma discuss\u00e3o sobre a quest\u00e3o da pirataria no Grupo do Bobagens Mais Imperd\u00edveis e me senti tentado a me pronunciar a respeito. Comecei a escrever uma mensagem, mas ela foi crescendo, crescendo, e virou esse post. Pe\u00e7o desculpas antecipadamente pelo meu desatino. 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