{"id":335,"date":"2011-02-18T10:28:48","date_gmt":"2011-02-18T12:28:48","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/?p=335"},"modified":"2023-06-10T08:25:10","modified_gmt":"2023-06-10T11:25:10","slug":"volta-as-aulas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/volta-as-aulas\/","title":{"rendered":"Volta \u00e0s aulas"},"content":{"rendered":"<p>Deve fazer uns 10 anos (ou mais) que n\u00e3o sento em uma sala de aula como aluno. N\u00e3o, minto. Nos \u00faltimos 10 anos entrei e sa\u00ed de salas de aula com displic\u00eancia, come\u00e7ando a estudar  pra, ap\u00f3s devorar as bibliografias recomendadas, fugir como um ladr\u00e3o no meio da noite. Coisa aparentemente sem explica\u00e7\u00e3o, mas justificada pelo asco que sinto pelo ensino tradicional. Adoro aprender, odeio que me ensinem algo num ambiente hierarquizado onde todos s\u00e3o considerados ignorantes.<!--more--><\/p>\n<p>Apesar disso, essa semana, dando mais um murro em ponta de faca, fui a uma universidade participar de um processo seletivo prum curso. Dessa vez uma p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o. Dessa vez um curso do qual n\u00e3o posso sair. A empresa vai pag\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Cheguei adiantado (pra variar) e dei um tempo admirando a estrutura do modernoso pr\u00e9dio. Muitos espa\u00e7os in\u00fateis e vazios. Um belo exemplo da arquitetura brasileira p\u00f3s Niemeyer. Uma bela met\u00e1fora do nosso meio universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na larga entrada principal se lia o nome da institui\u00e7\u00e3o: Centro de Ci\u00eancias da Informa\u00e7\u00e3o. Um nome chique pra biblioteconomia. Subi por umas rampas vazias que pareciam desenhadas pelo Escher e me encaminhei \u00e0 sala marcada para a minha reuni\u00e3o. Duas funcion\u00e1rias sentadas em frente aos seus computadores matavam o tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia. Vim pra uma entrevista de um curso&#8230;<br \/>\n&#8211; Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica da Informa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>(Outro nome imponente)<\/p>\n<p>&#8211; Isso.<br \/>\n&#8211; Sala 216. A professora fulana t\u00e1 atendendo os candidatos.<\/p>\n<p>Atravessei o corredor at\u00e9 a sala e olhei pela janelinha da porta. Um rapaz, bem mais novo que eu, era entrevistado por uma senhora de uns 50 anos. Os dois com ares despojados. Tranquilos. Dentro da minha surrada fantasia de trabalho &#8211; cal\u00e7a e sapato social, e camisa de bot\u00e3o &#8211; nem arrumado, nem cool, j\u00e1 velho pra come\u00e7ar minha primeira p\u00f3s, me senti como um estranho no ninho.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o me era estranha. Quando entrei na faculdade, hoje percebo, at\u00e9 fazia for\u00e7a pra n\u00e3o me encaixar. S\u00f3 usava o mesmo figurino &#8211; tinha 10 camisas brancas e 3 cal\u00e7as jeans iguais; ao inv\u00e9s dos imponentes fich\u00e1rios das caprichosas meninas da psicologia, usava um caderno de anota\u00e7\u00f5es feito pra apontar jogo do bicho que cabia no meu bolso de tr\u00e1s; e, pra piorar, desde o primeiro semestre, tinha a estranha mania de afrontar os professores e fugir da sala de aula assim que o sinal batia. \u00c9 claro que o tempo deu cabo disso, mas, pra quem leva 10 anos pra se formar, o tempo tudo cura. Arrumei a minha turma- depois de mudar de faculdade, fique bem claro- mas assim que eles se formaram, perdemos contato. Nunca fiz muita parte. De nada.<\/p>\n<p>Sentei num banco improvisado perto da sala e tirei um livro pra matar o tempo. Uma colet\u00e2nea de artigos de Richard Feynman. Seria um livro certo para aquele ambiente? Subitamente me imaginei sendo expulso do departamento:<\/p>\n<p>&#8211; Onde j\u00e1 se viu?! Um bacharel em psicologia que l\u00ea textos de f\u00edsica quer se tornar especialista em GEST\u00c3O ESTRAT\u00c9GICA DA INFORMA\u00c7\u00c3O! Fora daqui! E s\u00f3 volte depois de ter lido toda a obra do Chomsky!<\/p>\n<p>Escondi o livro justamente na hora em que o rapaz sa\u00eda da sala. Por sorte ele n\u00e3o o viu. A porta da sala ficou entreaberta e, tentando terminar logo com aquilo tudo, forcei a minha entrada.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia. Eu sei que estou adiantado, mas&#8230;<br \/>\n&#8211; Qual o seu nome?<br \/>\n&#8211; Lisandro.<br \/>\n&#8211; Lisandro, Lisandro. Aqui. T\u00e1 marcado pra daqui a 20 minutos.<br \/>\n&#8211; Eu sei, mas&#8230;<br \/>\n&#8211; Olha, se a pessoa marcada agora n\u00e3o aparecer em 5 minutos, te chamo. T\u00e1 bom?<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>Voltei pro meu lugar e esperei, sem ler nada, a minha vez. O pr\u00e9dio estava t\u00e3o vazio que s\u00f3 conseguia imaginar a pessoa marcada antes de mim aparecendo se fosse no meio de uma nuvem de fuma\u00e7a ninja. N\u00e3o rolou.<\/p>\n<p>&#8211; Lisandro, n\u00e9? Pode entrar.<\/p>\n<p>Sentei numa cadeira de universit\u00e1rio dos anos 70, com aquela prancheta embutida do lado direito, e coloquei a minha mochila no ch\u00e3o. Em sil\u00eancio esperei algum comando.<\/p>\n<p>&#8211; Bom, eu s\u00f3 recebi os relat\u00f3rios do pessoal da inscri\u00e7\u00e3o hoje e n\u00e3o consegui ler nada. Provavelmente vou te perguntar algumas coisas que j\u00e1 est\u00e3o aqui, ent\u00e3o, n\u00e3o fique chateado. Podemos come\u00e7ar?<br \/>\n&#8211; Podemos.<\/p>\n<p>Ela perguntou e eu respondi. Falei da minha forma\u00e7\u00e3o, do meu trabalho, do que esperava do curso, de tudo e mais um pouco. Se ela tivesse me perguntado algo realmente pessoal, \u00e9 prov\u00e1vel que eu tivesse respondido tamb\u00e9m. N\u00e3o me sentia entrevistado, me sentia interrogado.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, acho que \u00e9 isso. E voc\u00ea? Tem alguma pergunta sobre o curso?<br \/>\n&#8211; Eu?<br \/>\n&#8211; \u00c9. N\u00e3o tem nada que voc\u00ea queira saber sobre o curso?<\/p>\n<p>Eu tinha. Muitas coisas. Vou sobreviver ao curso? Voc\u00eas tem algum professor maligno que queira me torturar? Se eu surtar no meio do curso, o que acontecer\u00e1? Se eu descobrir no meio do caminho que n\u00e3o tem nada pra aprender aqui, voc\u00eas me d\u00e3o o diploma e me deixam ir embora? Eu tinha milh\u00f5es de quest\u00f5es, mas s\u00f3 me limitei a uma.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 o grupo?<br \/>\n&#8211; Grupo? Como assim?<br \/>\n&#8211; Os outros alunos? Como eles s\u00e3o? O que eles querem?<\/p>\n<p>A professora fulana co\u00e7ou a cabe\u00e7a sem entender a pergunta mas se esfor\u00e7ando para formular uma resposta.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, varia. Tem anos que tem muita gente de computa\u00e7\u00e3o. Em outros tem gente de hist\u00f3ria, administra\u00e7\u00e3o e tal. N\u00e3o sei como posso te responder. Bom, \u00e9 assim, todo o tipo de gente. Sabe? Gente.<\/p>\n<p>Me despedi e sa\u00ed da entrevista desanimado. Gente. Gente n\u00e3o \u00e9 bem a minha gente. Mais uma vez estava me colocando na desconfort\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencer a algo. Desci as rampas devagar e deixei a faculdade sem olhar pra tr\u00e1s. Me aceitassem ou n\u00e3o, n\u00e3o me importava. N\u00e3o ser aceito ou ser aceito s\u00f3 refor\u00e7ariam a minha inadequa\u00e7\u00e3o. Eu sei que j\u00e1 deveria estar acostumado a n\u00e3o me encaixar, mas, infelizmente, tamb\u00e9m n\u00e3o me encaixo no papel de rebelde solit\u00e1rio&#8230; uma pena, imagino que o clubinho deles deve ser muito legal.<\/p>\n<p><strong>Em Tempo<\/strong><\/p>\n<p>Acabei de saber: fui aceito. Seja o que Deus quiser<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deve fazer uns 10 anos (ou mais) que n\u00e3o sento em uma sala de aula como aluno. N\u00e3o, minto. Nos \u00faltimos 10 anos entrei e sa\u00ed de salas de aula com displic\u00eancia, come\u00e7ando a estudar pra, ap\u00f3s devorar as bibliografias recomendadas, fugir como um ladr\u00e3o no meio da noite. 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