{"id":3373,"date":"2020-12-29T06:50:38","date_gmt":"2020-12-29T09:50:38","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3373"},"modified":"2020-12-29T07:04:07","modified_gmt":"2020-12-29T10:04:07","slug":"narracoes-interminaveis-da-sua-vida-interior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/narracoes-interminaveis-da-sua-vida-interior\/","title":{"rendered":"Narra\u00e7\u00f5es intermin\u00e1veis da sua vida interior"},"content":{"rendered":"<p>Ainda tenho guardados os cadernos e di\u00e1rios da minha adolesc\u00eancia que provam que eu tinha uma vida interior. Converso com amigos da \u00e9poca sobre os acontecimentos que vivemos e est\u00e3o registrados neles, e, do seu lado, n\u00e3o h\u00e1 lembran\u00e7as:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio que isso aconteceu?- eles me perguntam<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio. Ser\u00edssimo- respondo com uma ponta de d\u00favida.<\/p>\n<p>Releio as hist\u00f3rias e passagens e me pergunto: se ningu\u00e9m al\u00e9m de mim lembra, eu realmente vivi aquilo tudo? O drama, a cor, o amor? N\u00e3o posso simplesmente ter uma mem\u00f3ria melhor que a dos outros. Ou posso?<\/p>\n<p>Compartilhei essa minha preocupa\u00e7\u00e3o e um amigo me trouxe uma explica\u00e7\u00e3o: nem todo mundo narra a sua vida internamente. Segundo <a href=\"https:\/\/www.distractify.com\/p\/internal-narrators-inside-head\">um artigo<\/a> que ele compartilhou, narrar a sua vida continuamente \u00e9 mais uma exce\u00e7\u00e3o do que a norma, e ainda me confidenciou:<\/p>\n<p>-Eu mesmo n\u00e3o narro a minha vida.<\/p>\n<p>Fiquei t\u00e3o assustado que fui estudar o assunto mais a fundo e <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/future\/article\/20190819-what-your-inner-voice-says-about-you\">descobri<\/a> que 3 entre 4 pessoas n\u00e3o estabelecem esses constantes di\u00e1logos internos. Que muitas ficam dias ou semanas sem ouvir a pr\u00f3pria voz em suas mentes. Imagine s\u00f3: tocar a vida sem ter aquela companhia constante na sua cabe\u00e7a transformando tudo em uma hist\u00f3ria. Ser\u00e1 uma ben\u00e7\u00e3o ou uma maldi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho ideia, pois desde que me dou por gente, eu n\u00e3o consigo parar de narrar. Minhas ang\u00fastias, minhas esperan\u00e7as, meus medos, meus desejos, desde a minha mais tenra inf\u00e2ncia, sempre foram parte de hist\u00f3rias. Quando aos 12 anos desenvolvi uma paixonite por Cindy Lauper, lidava com isso burilando uma hist\u00f3ria sobre uma s\u00f3sia sua de 17 anos que morava em um pr\u00e9dio abandonado e me tirava de casa de forma dram\u00e1tica, mas eventualmente era mal sucedida. Quando vivenciei o c\u00e2ncer da minha m\u00e3e, mesmo com 6 anos, juntei os peda\u00e7os de lembran\u00e7as da \u00e9poca e criei uma hist\u00f3ria de come\u00e7o, meio e fim. Iniciava numa pedreira onde ela foi consultar uma vidente que a condenou a morte; pulava pros longos dias que vivi circulando no quarto e no refeit\u00f3rio do hospital; tinha um momento de al\u00edvio c\u00f4mico sobre a inabilidade do meu pai de cuidar de mim, que fez o teto da cozinha ficar cheio de milk shake de amendocrem por dias; e encerrava com a volta da minha m\u00e3e pra casa quando lhe presenteei com pantufas vermelhas compradas na Amor Perfeito do Rio Sul.<\/p>\n<p>As mem\u00f3rias, ou as hist\u00f3rias, s\u00e3o t\u00e3o vividas na minha mente que me pergunto se realmente aconteceram dessa forma ou se apenas lembro das hist\u00f3rias que contei pra mim mesmo. Narrar a minha vida \u00e9 um suporte para a minha mem\u00f3ria ou um perigoso caminho pra mitomania que acometia meu pai?<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho respostas, mas nos \u00faltimos tempos, nesse per\u00edodo de isolamento, me espanto o quanto, quando confrontado por alguns assuntos, consigo tirar da manga textos onde relato momentos da minha vida relacionados ao tema.<\/p>\n<p>Isso parece t\u00e3o incomum aos outros que inclusive ou\u00e7o os seguintes coment\u00e1rios:<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3374 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FireShot-Capture-465-WhatsApp-web.whatsapp.com_.png\" alt=\"\" width=\"432\" height=\"25\" \/><\/p>\n<p>E me pergunto, temeroso, se isso n\u00e3o \u00e9, ao inv\u00e9s de uma qualidade, algum sinal de anormalidade.<\/p>\n<p>Certo ou errado, \u00e9 assim que eu sou: eu narro a minha vida. O que aconteceu, e o que n\u00e3o aconteceu; o que eu quero, e o que eu n\u00e3o quero, que aconte\u00e7a. Viver sem a minha voz na minha cabe\u00e7a \u00e9 t\u00e3o fora da realidade para mim que nem consigo conceber quem tenha momentos, ou mesmo dias, sem ouvir a sua pr\u00f3pria voz.<\/p>\n<p>Isso me lembra um conto que escrevi na adolesc\u00eancia sobre um jovem que misticamente conseguia contar hist\u00f3rias que realizavam os desejos das pessoas, mas ele mesmo, inundado por anseios e narrativas alheias, n\u00e3o conseguia descobrir o que queria. Assim, entre se apropriar do desejo alheio esteticamente e viver dentro de um deslumbrante vazio emocional, ele levava uma exist\u00eancia angustiante por\u00e9m bela e \u00fatil. Era assim que eu vivia? \u00c9 assim que eu vivo?<\/p>\n<p>\u00c9 uma pena que n\u00e3o tenha uma c\u00f3pia dessa hist\u00f3ria, mas pelo menos eu me lembro dela e posso narr\u00e1-la para mim mesmo quando eu quiser. A pergunta \u00e9: isso \u00e9 bom ou ruim? N\u00e3o sei, mas \u00e9 o que \u00e9. E isso j\u00e1 basta. N\u00e3o? O que voc\u00ea me diz, voz interior? Vamos conversar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda tenho guardados os cadernos e di\u00e1rios da minha adolesc\u00eancia que provam que eu tinha uma vida interior. Converso com amigos da \u00e9poca sobre os acontecimentos que vivemos e est\u00e3o registrados neles, e, do seu lado, n\u00e3o h\u00e1 lembran\u00e7as: &#8211; S\u00e9rio que isso aconteceu?- eles me perguntam &#8211; S\u00e9rio. 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