{"id":3430,"date":"2021-01-01T11:09:23","date_gmt":"2021-01-01T14:09:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3430"},"modified":"2021-01-01T11:09:23","modified_gmt":"2021-01-01T14:09:23","slug":"o-reveillon-que-nao-houve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-reveillon-que-nao-houve\/","title":{"rendered":"O Reveillon que (n\u00e3o) houve"},"content":{"rendered":"<p>Ontem foi estranho, mas muito bom. Acostumado, mas resistente, \u00e0s infind\u00e1veis comemora\u00e7\u00f5es de anos novos passados, comemorar esse reveillon em casa, s\u00f3 com a minha mulher e minha filha, foi um alento. J\u00e1 t\u00ednhamos feito isso uma vez de 2013 pra 14 em BH, mas a menina ainda estava na barriga, e no ano passado viramos o ano s\u00f3 n\u00f3s tr\u00eas mas em S\u00e3o Paulo. Essa foi a primeira em casa com ela do lado de fora.<\/p>\n<p>Confesso que esse foi um dos poucos pontos positivos da pandemia. Como n\u00e3o pod\u00edamos aglomerar, n\u00e3o precisei me arrumar, n\u00e3o tive que me preocupar com a log\u00edstica da ida, com estrat\u00e9gias de volta, onde dormir caso tudo desse errado, que cerveja levar, nem como impedir que outros as tomassem; voc\u00eas sabem, o de sempre. Mas ontem n\u00e3o teve o de sempre. \u00c9ramos s\u00f3 n\u00f3s com uma ceia pequena mas bem gostosa, uma quantidade suficiente de cerveja boa, e o direito de fazer o que quis\u00e9ssemos.<\/p>\n<p>E foi a\u00ed a porca torceu o rabo. Como se perguntava o famoso filos\u00f3fo Alexandre Pires: o que \u00edamos fazer com essa tal liberdade?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia, mas j\u00e1 estava me sentindo livre o suficiente para considerar que podia cochilar at\u00e9 \u00e0s 23:30 e pedir pra ser acordado para &#8220;ver&#8221; a virada. Minha mulher e minha filha, por outro lado, estavam meio ind\u00f3ceis. Tenho certeza que festeiras e rueiras como elas s\u00e3o, estava sendo bem dif\u00edcil para elas.<\/p>\n<p>Para compensar o isolamento, resolveram transformar a casa numa festa. Decoraram tudo com estrelas, luzes, guirlandas e umas bolas que insistiam em n\u00e3o ficar penduradas onde deviam. Montaram tamb\u00e9m colaborativamente uma playlist improvisada no Youtube onde o Rock BR dos anos 80 competia com o KPop atual num conflito moderado por uma estranha combina\u00e7\u00e3o de New Wave\/Punk G\u00f3tico e Funk Carioca.<\/p>\n<p>No in\u00edcio at\u00e9 que funcionou, mas um determinado momento algu\u00e9m perguntou que horas eram e ca\u00edmos na real que ainda ter\u00edamos muito tempo pra matar at\u00e9 a virada. O fato \u00e9 que o Reveillon sem aglomera\u00e7\u00e3o, sem pessoas chatas e sem as complica\u00e7\u00f5es que o Reveillon normalmente tem \u00e9 uma festa onde n\u00e3o h\u00e1 muito a se fazer.<\/p>\n<p>Eu e minha filha resolvemos descer pra portaria do pr\u00e9dio e ver como estava a movimenta\u00e7\u00e3o na pra\u00e7a S\u00e3o Salvador, onde desconfi\u00e1vamos haveria uma festa ilegal. N\u00e3o havia. Uns 10 gatos pingados e 3 ambulantes tentavam criar um clima de anima\u00e7\u00e3o, mas falharam. Voltamos para casa e continuamos a colocar m\u00fasica alternadamente transformando a playlist, que pouco sentido fazia, numa eclet\u00edssima trilha sonora de novela dos anos 90. Comemos um pouco, ligamos para pessoas, conversamos sobre o que se passou em 2020 e o que esperamos fazer em 2021, mas o tempo n\u00e3o passava. A\u00ed a sabedoria infantil da minha filha sugeriu:<\/p>\n<p>&#8211; Posso botar o pijama meia hora antes do ano novo?<\/p>\n<p>N\u00e3o vimos por que negar. Assim, simplesmente aceitamos que esse Reveillon era s\u00f3 um exerc\u00edcio de esperar o tempo regulamentar at\u00e9 o ano virar. \u00d3bvio que deu at\u00e9 uma certa excita\u00e7\u00e3o nos dois minutos finais de 2020, mas o grito de um cara num megafone mandando a besta fera que foi eleita presidente indo tomar na parte da anatomia de onde saem seus &#8220;pensamentos&#8221; e coment\u00e1rios nos lembrou que muitos dos problemas de 2020 ainda v\u00e3o ser herdados por 2021.<\/p>\n<p>2021 chegou, nos abra\u00e7amos, beijamos e desejamos o melhor uns para os outros. Da mesma forma que fazemos todos os dias, mas um pouco mais alcoolizados e melhor vestidos. Nessa hora me lembrei de <a href=\"https:\/\/outline.com\/Wn2nbv\">um artigo mezzo s\u00e9rio mezzo piada<\/a> que rolou na New Yorker esse m\u00eas sugerindo o cancelamento eterno do Reveillon. E comecei a lhe dar uma certa raz\u00e3o.<\/p>\n<p>A virada do ano se tornou um evento m\u00edstico\/motivacional obrigat\u00f3rio que demanda muito mais exacerba\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is sociais do que emo\u00e7\u00e3o verdadeira. V\u00ea s\u00f3: abra\u00e7os exagerados em gente que voc\u00ea muitas vezes s\u00f3 v\u00ea no reveillon; desejos de sucesso, sa\u00fade e prosperidade padr\u00e3o para todo mundo, desde os desafetos secretos at\u00e9 os afetos declarados; uma sensa\u00e7\u00e3o brutal de urg\u00eancia artificial por conta de uma data que, no frigir dos ovos, \u00e9 s\u00f3 <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Circumcision_of_Jesus#:~:text=The%20circumcision%20of%20Jesus%20is,birth%20(traditionally%20January%201).\">a v\u00e9spera da circunsi\u00e7\u00e3o de cristo<\/a>; enfim, n\u00e3o h\u00e1 muito o que se comemorar. Mas at\u00e9 a\u00ed, nenhuma festa tem justificativa pra acontecer.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo que o h\u00e1bito continue, afinal festejar \u00e9 preciso, talvez a press\u00e3o por comemorar o reveillon mere\u00e7a ter um al\u00edvio. N\u00e3o comemorar o Reveillon deveria ser uma op\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel, ao inv\u00e9s de uma surpresa taxada com um estigma social exagerado. Vamos ver se em 2021, espero eu, j\u00e1 vacinados, poderemos fazer, sem medo de julgamento social, a escolha de ficar apenas com os nossos mais pr\u00f3ximos sem fazer nada, como fomos, no meu caso, agradavelmente obrigados nesse Reveillon. Eu n\u00e3o me incomodaria. E voc\u00ea?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem foi estranho, mas muito bom. Acostumado, mas resistente, \u00e0s infind\u00e1veis comemora\u00e7\u00f5es de anos novos passados, comemorar esse reveillon em casa, s\u00f3 com a minha mulher e minha filha, foi um alento. 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