{"id":3481,"date":"2021-01-08T09:09:57","date_gmt":"2021-01-08T12:09:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3481"},"modified":"2021-01-08T09:09:57","modified_gmt":"2021-01-08T12:09:57","slug":"redescobrindo-a-federacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/redescobrindo-a-federacao\/","title":{"rendered":"Redescobrindo a Federa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>*Cont\u00e9m Spoilers*<\/p>\n<p>Discovery terminou a sua 3a. temporada e agora percebi o que estava me incomodando: finalmente ela entrou no esquema das demais s\u00e9ries de Star Trek.<\/p>\n<p>Tem determinados padr\u00f5es aos quais a gente se acostuma e nem sente. O de Star Trek est\u00e1 ligado a presen\u00e7a da Federa\u00e7\u00e3o. Aquela enorme organiza\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e racional que define o modus operandi dos nossos her\u00f3is e tamb\u00e9m direciona boa parte dos plots, definindo as miss\u00f5es que eles precisam cumprir.<\/p>\n<p>Em Discovery, e em Picard, eles tentaram tornar a Federa\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o uma inimiga dos her\u00f3is, pelo menos uma pedra no sapato. \u00c9 o esp\u00edrito do tempo. Dos fascistas mais extremistas aos moderados mais relaxados, a confian\u00e7a de todos nas nossas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas est\u00e1 abalada. E, \u00f3bvio, isso reflete nas nossas fic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Picard saiu para investigar a pr\u00f3pria federa\u00e7\u00e3o e faz\u00ea-la encarar o seu passado por esconder embaixo do tapete alian\u00e7as esp\u00farias e problemas que n\u00e3o conseguia resolver. E, em Discovery, demos um passeio temporal partindo de um per\u00edodo anterior \u00e0 s\u00e9rie cl\u00e1ssica at\u00e9 900 anos no futuro para estar a todo momento questionando as diretrizes, a atua\u00e7\u00e3o e a compet\u00eancia da Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Discovery esse conflito se concentra na personagem de Michael Burnham. Ela, como Kirk, \u00e9 uma rebelde, mas ao contr\u00e1rio do que acontecia com o Jim, ningu\u00e9m passou a m\u00e3o na sua cabe\u00e7a. Ela j\u00e1 come\u00e7a a s\u00e9rie descumprindo ordens, sendo presa e tentando resolver tudo sozinha pois, fruto de uma trag\u00e9dia e criada por uma fam\u00edlia r\u00edgida e fria, n\u00e3o consegue confiar em quase nada e em quase ningu\u00e9m. Assim como a gente que \u00e9 obrigado a morar no Brasil.<\/p>\n<p>Em Discovery, o ponto central \u00e9 que a premissa da infalibilidade da Federa\u00e7\u00e3o estava sendo subvertida. Na primeira e na segunda temporadas, a Federa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era ouvida e suas solu\u00e7\u00f5es eram em geral idiotas. Cabia aos rebeldes da Discovery resolver, a muito custo, seus pr\u00f3prios problemas considerando como lidar com\u00a0 Imp\u00e9rios Racistas de outras dimens\u00f5es ou Intelig\u00eancias Artificiais de futuros distantes, respeitando dentro de certos limites, seus espa\u00e7os. Parecia que a diversidade que havia dentro das naves da frota estelar estava sendo levada pra fora pela primeira vez.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, agora, na terceira temporada, presos num futuro onde a Federa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais hegem\u00f4nica, eles precisaram ser mais realistas que o rei e professar boa parte das regras com as quais n\u00e3o concordavam. Nesse novo ambiente, em especial no epis\u00f3dio da Terra, eles mostraram a face mais cretina da Federa\u00e7\u00e3o: o colonialismo paternalista. Pode perceber. A Federa\u00e7\u00e3o, em si, raramente tem problemas, e, como um Estados Unidos da Guerra Fria, ela sempre se mete nos problemas alheios, aparentemente sem interesses pr\u00f3prios, para aplicar sua imensa racionalidade e intelig\u00eancia para resolv\u00ea-los.<\/p>\n<p>Em Star Trek sempre foi assim. Lembro especialmente de um pocket da Nova Gera\u00e7\u00e3o onde por p\u00e1ginas e p\u00e1ginas um planeta estava prestes a entrar num conflito sem volta e\u00a0 foi s\u00f3 o Picard, que estava impedido de aparecer, falar meia d\u00fazia de palavras que tudo foi resolvido magicamente. A premissa b\u00e1sica que move essas hist\u00f3rias \u00e9 a mesma do colonialismo: meu papel \u00e9 salvar os outros, e lucrar com isso, pois todos s\u00e3o imbecis e n\u00e3o sabem resolver seus pr\u00f3prios problemas.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira, Discovery at\u00e9 a sua terceira temporada foi uma hist\u00f3ria de Recusa da Aventura. Michael \u00e9, desde a morte da Georgiou da &#8220;nossa&#8221; dimens\u00e3o, claramente a mais apta a comandar a Discovery, mas ela n\u00e3o aceita essa resposabilidade. Toda trabalhada na psican\u00e1lise, nos seus conflitos familiares e na sua percep\u00e7\u00e3o basicamente correta das fraquezas da Federa\u00e7\u00e3o, ela prefere &#8220;ajudar&#8221; ao inv\u00e9s de liderar. Surpreendentemente(?), muitas vezes essa &#8220;ajuda&#8221; coloca a nave em perigo para que Michael, depois de salv\u00e1-la mais uma vez, receba o carinho que Sarek n\u00e3o soube lhe dar.<\/p>\n<p>No fim da terceira temporada, tudo mudou. Agora, depois que salvou toda a Federa\u00e7\u00e3o, e recebeu carta branca pra ser como \u00e9, ela &#8220;se rendeu&#8221; a responsabilidade que deixou na m\u00e3o de tanta gente inepta e se tornou a capit\u00e3 da Discovery. E, como boa crian\u00e7a mimada que sempre foi, ir\u00e1 estender os dom\u00ednios da sua vontade por onde seu motor de esporos permitir.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea achava a Federa\u00e7\u00e3o colonialista e paternalista, imagina s\u00f3 como Michael vai agir depois que sentiu legitimada para assumir o poder. Deus tenha miseric\u00f3rdia do s\u00e9culo XXXII.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Cont\u00e9m Spoilers* Discovery terminou a sua 3a. temporada e agora percebi o que estava me incomodando: finalmente ela entrou no esquema das demais s\u00e9ries de Star Trek. Tem determinados padr\u00f5es aos quais a gente se acostuma e nem sente. O de Star Trek est\u00e1 ligado a presen\u00e7a da Federa\u00e7\u00e3o. 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