{"id":3502,"date":"2021-01-11T11:38:08","date_gmt":"2021-01-11T14:38:08","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3502"},"modified":"2021-01-11T15:51:00","modified_gmt":"2021-01-11T18:51:00","slug":"eu-e-fran-lebowitz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/eu-e-fran-lebowitz\/","title":{"rendered":"Eu e Fran Lebowitz"},"content":{"rendered":"<p>Sou de outra \u00e9poca. De uma \u00e9poca em que n\u00e3o esper\u00e1vamos que as coisas fossem perfeitas; de uma \u00e9poca quando ainda existia o acaso. Sou de uma \u00e9poca onde ser improdutivo \u00e9 o que fazia a vida melhor. Sim, n\u00e3o havia coaches, TED Talks e autoajuda era o tipo de livro que s\u00f3 os desesperados liam. Sou n\u00e3o s\u00f3 de outra \u00e9poca; sou de uma \u00e9poca, perdoem o pleonasmo, diametralmente oposta \u00e0 atual. Sim, sou de uma \u00e9poca onde ped\u00edamos desculpas por usar figuras de linguagem.<\/p>\n<p>Na minha \u00e9poca n\u00e3o tinha Tinder. As pessoas precisavam sair \u00e0s ruas e prestar aten\u00e7\u00e3o para conhecer seus interesses rom\u00e2nticos. A gente batia papo com desconhecidos e queria saber das suas vidas. A gente conhecia gente estranha e se apaixonava em \u00f4nibus, boates e lanchonetes. E mesmo que n\u00e3o desse &#8220;match&#8221;, a gente tentava. Afinal todo mundo era meio que igualmente ruim e ter relacionamentos sempre era dificultoso. Se tudo ia bem demais, com certeza tinha um problema. Ent\u00e3o era melhor que n\u00e3o fosse muito bom. Onde j\u00e1 se viu buscar felicidade no amor?<\/p>\n<p>Na minha \u00e9poca temb\u00e9m n\u00e3o tinha Goodreads. A gente n\u00e3o buscava livros que fossem se encaixar em nossos gostos e nos agradar. Os livros nos encontravam e dominavam perversamente as nossas vidas. Ler era como estabelecer relacionamentos. Era cheio de amor e emo\u00e7\u00e3o, mas sempre tinha um por\u00e9m e sempre era um risco. Por outro lado, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m nos vigiando para dizer se pod\u00edamos ou dev\u00edamos ler isso ou aquilo. Eu podia ler e gostar das mais variadas coisas sem precisar contar pra ningu\u00e9m nem parecer esquizofr\u00eanico. Nossa identidade n\u00e3o era baseada em nossas predile\u00e7\u00f5es ou h\u00e1bitos de consumo. Ter autores preferidos era algo mais pr\u00f3ximo de manter um relacionamento rom\u00e2ntico do que ser acionista de uma empresa.<\/p>\n<p>Minha hist\u00f3ria com Fran Lebowitz, uma das minhas paix\u00f5es liter\u00e1rias, n\u00e3o veio do Tinder nem do Goodreads, come\u00e7ou por acaso. Num sebo esquisito, nos fundos de uma galeria de Ipanema. L\u00e1 estava ela numa pilha de livros num ch\u00e3o; num pocket com uma capa feia e sem vida. Na contrapa, uma foto dela em frente a palavra &#8220;Author&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3503\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/download-3.jpeg\" alt=\"\" width=\"292\" height=\"173\" \/><\/p>\n<p>Abri o livro, intrigado; li umas duas ou tr\u00eas hist\u00f3rias do Metropolitan Life sentado no ch\u00e3o do sebo; ri alto, sozinho; me identifiquei com seu mau humor e inadequa\u00e7\u00e3o; e me apaixonei. Comprei o livro, fui pra casa correndo, o li todo no mesmo dia, mas n\u00e3o consegui coloc\u00e1-lo na minha estante. Precisava carregar ela comigo.<\/p>\n<p>Fran virou uma esp\u00e9cie de companheira de viagem. Eu, mesmo a tendo lido diversas vezes, a carregava para cima e para baixo para escapar quando as pessoas fossem chatas, o que acontecia muito, ou para cit\u00e1-la quando encontrasse algu\u00e9m que merecesse conhec\u00ea-la.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o obsessiva durou meses at\u00e9 que senti falta de ler algo novo dela. Foi s\u00f3 a\u00ed que descobri que, al\u00e9m do Metropolitan Life, ela s\u00f3 tinha escrito um outro livro, o Social Studies, t\u00e3o curto quanto o primeiro. Pra piorar, ela sofria de um bloqueio de escritor terr\u00edvel e n\u00e3o lan\u00e7ava nada novo h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>Me senti tra\u00eddo pela sua recusa em escrever, mas me mantive fiel. Se n\u00e3o podia ter nada de novo, a relia religiosamente e tinha o costume de cit\u00e1-la mesmo quando n\u00e3o era apropriado. Muitos anos e releituras se passaram, quando Scorcese em 2010 fez um document\u00e1rio sobre ela e, agora, onze anos depois, ele acabou de lan\u00e7ar Pretend It&#8217;s a City, uma miniss\u00e9rie extraindo ainda mais das opini\u00f5es de Fran. Assisti aos primeiros cap\u00edtulos hoje e quase senti o que experienciei no nosso primeiro encontro. N\u00e3o \u00e9 o mesmo que l\u00ea-la, mas \u00e9 algo. Algo a que temos direito nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p>Entendo que seja mais f\u00e1cil falar do que escrever quando seus crit\u00e9rios de qualidades s\u00e3o t\u00e3o altos como os de Fran, e \u00e9 um al\u00edvio saber que algu\u00e9m t\u00e3o interessante e raivosa ainda est\u00e1 por a\u00ed colocando suas opini\u00f5es pra gente pensar. Mesmo que n\u00e3o consiga mais botar essas palavras no papel. Como ela fazia na sua \u00e9poca, que ainda \u00e9 anterior \u00e0 minha.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3504\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-484-Netflix-www.netflix.com_.png\" alt=\"\" width=\"1318\" height=\"665\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-484-Netflix-www.netflix.com_.png 1318w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-484-Netflix-www.netflix.com_-300x151.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-484-Netflix-www.netflix.com_-1024x517.png 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-484-Netflix-www.netflix.com_-768x387.png 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-484-Netflix-www.netflix.com_-769x388.png 769w\" sizes=\"(max-width: 1318px) 100vw, 1318px\" \/><\/p>\n<p>Mas, olhando pra minha c\u00f3pia de Metropolitan Life, sim, a do nosso primeiro encontro em Ipanema h\u00e1 quase 30 anos, hoje sem capa e sem contra capa, por mais que eu adore v\u00ea-la e ouv\u00ed-la, confesso que sinto falta de l\u00ea-la. Como sinto falta de ler diversos autores que, pelas mais variadas raz\u00f5es, se tornaram mais figuras midi\u00e1ticas do que escritores. Mas as coisas n\u00e3o s\u00e3o mais como eram, sabe?, como eram na minha \u00e9poca.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3505\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/376de453-75c8-4978-a2c6-2cf7feceb4e8.jpeg\" alt=\"\" width=\"780\" height=\"1040\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/376de453-75c8-4978-a2c6-2cf7feceb4e8.jpeg 780w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/376de453-75c8-4978-a2c6-2cf7feceb4e8-225x300.jpeg 225w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/376de453-75c8-4978-a2c6-2cf7feceb4e8-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/376de453-75c8-4978-a2c6-2cf7feceb4e8-769x1025.jpeg 769w\" sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><\/p>\n<p>Sei que hoje tudo mudou. Os escritores viraram os produtos e a internet facilitou o nosso acesso aos autores, o que gera, muitas vezes,\u00a0 uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de proximidade. Mesmo sabendo disso, confesso: sinto falta de l\u00ea-los. Ouv\u00ed-los falar pode ser um b\u00f4nus, mas n\u00e3o \u00e9 uma necessidade, nem substitui o cada vez mais raro encontro com o texto.<\/p>\n<p>Hoje, ouvindo Fran reclamar do presente, da tecnologia, das pessoas, dos avi\u00f5es, \u00f4nibus, celulares e jornais, relembrei o nosso encontro e reafirmei a nossa identifica\u00e7\u00e3o, mesmo que, ironicamente, ela esteja se tornando algo t\u00e3o caracter\u00edstico da \u00e9poca que critica. Um destino do qual todos seremos v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Por isso, vi Pretend Its a City, com um gosto acridoce na boca, como num nost\u00e1lgico reencontro rom\u00e2ntico onde sabemos que mudamos e n\u00e3o nos merecemos mais. Mas isso \u00e9 um problema meu. Como Fran Lebowitz, sou de uma outra \u00e9poca. Eu j\u00e1 lhes disse isso?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3513\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-487-Netflix-www.netflix.com_.png\" alt=\"\" width=\"1318\" height=\"665\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-487-Netflix-www.netflix.com_.png 1318w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-487-Netflix-www.netflix.com_-300x151.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-487-Netflix-www.netflix.com_-1024x517.png 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-487-Netflix-www.netflix.com_-768x387.png 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/FireShot-Capture-487-Netflix-www.netflix.com_-769x388.png 769w\" sizes=\"(max-width: 1318px) 100vw, 1318px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou de outra \u00e9poca. 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