{"id":3557,"date":"2021-01-19T07:19:41","date_gmt":"2021-01-19T10:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3557"},"modified":"2021-01-19T07:31:48","modified_gmt":"2021-01-19T10:31:48","slug":"o-fim-do-misterio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-fim-do-misterio\/","title":{"rendered":"O Fim do Mist\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p>Nunca soube jogar tarot direito. Eu entendia a hist\u00f3ria (presumida) do baralho, a origem dos s\u00edmbolos, o significado dos arcanos, a l\u00f3gica das suas rela\u00e7\u00f5es e frequentemente tinha poderosas intui\u00e7\u00f5es estimuladas pelas cartas e sua disposi\u00e7\u00e3o; mas me faltava um tro\u00e7o essencial: mise-en-sc\u00e8ne.<\/p>\n<p>Comecei a estudar Tarot depois que uma amiga da minha m\u00e3e tirou as cartas pra mim num domingo quente de ver\u00e3o. Sem muita cerim\u00f4nia, na mesa da nossa sala, acompanhada de um caderninho, daqueles de jogo do bicho, ela ia tirando cartas, fazendo coment\u00e1rios e anota\u00e7\u00f5es como quem tenta resolver um problema matem\u00e1tico. Isso fazia parte do seu mise-en-sc\u00e8ne. Ela era tar\u00f3loga, estudante de filosofia e f\u00edsica te\u00f3rica de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estimulado por aquela experi\u00eancia, comprei uma revista de Tarot na banca de jornal que vinha com um baralho destac\u00e1vel. Nada menos glamouroso ou m\u00edstico. A minha falta de jeito inclusive me fez danificar o fundo da carta do Eremita, o que estimulava algumas pessoas a evit\u00e1-la por temer, sem raz\u00e3o, seu significado.<\/p>\n<p>Com o que eu pescava de revistas, livros e treinava com aquele baralhinho do Tarot de Marselha de papel\u00e3o, eu ia tirando cartas pra mim e pra quem pedisse. Em cima de camas, em escrivaninhas, em bancos de pra\u00e7a, no curso de ingl\u00eas e at\u00e9 nas mesas do finado Mr. Pizza do Largo do Machado. Qualquer lugar era lugar, qualquer hora era hora. Pra mim n\u00e3o fazia diferen\u00e7a, mas eu sentia que as pessoas se incomodavam. Faltava pra elas uma esp\u00e9cie de teatro pra mostrar que havia um grande mist\u00e9rio no que eu fazia. Pra elas faltava o mise-en-sc\u00e8ne.<\/p>\n<p>Por conta do Tarot, conheci uma fam\u00edlia s\u00f3 de mulheres que tirava baralho cigano e comecei a estudar as cartas com elas. Na primeira vez que tiraram cartas pra mim a matriarca falou pra filha:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o esquece de cobrar dele.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o entendi. Costumava tirar tarot sem cobrar pra ningu\u00e9m e logo elas, aquelas mulheres que considerava minhas amigas, queriam cobrar de mim, como se fossem videntes trambiqueiras da rua do Catete? Questionei e a filha da matriarca explicou:<\/p>\n<p>&#8211; Calma. \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de energia e desprendimento. Quando passo a energia pra voc\u00ea atrav\u00e9s das cartas, essa energia tem que passar de volta pra mim, por exemplo, na forma de dinheiro. E se voc\u00ea me paga eu n\u00e3o sou mais s\u00f3 uma amiga torcendo pelo seu futuro. Eu estou livre para falar o que eu de fato vir nas cartas e o que voc\u00ea deve ouvir. Tipo uma psic\u00f3loga. Entendeu?<\/p>\n<p>Entendi. Fazia sentido de fato. Era parte do seu mise-en-sc\u00e8ne. Ela e os consulentes precisavam daquilo para estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o especial e criar uma sensa\u00e7\u00e3o diferente naquele momento m\u00e1gico. O mise-en-sc\u00e8ne era o custo da entrada num mundo al\u00e9m do real. Convencido pelos seus argumentos, paguei e ouvi ela prever o meu futuro.<\/p>\n<p>Hoje, d\u00e9cadas depois de entender essa realidade, vou ter uma consulta de tarot online via whatsapp, e senti falta do mise-en-sc\u00e8ne que nunca consegui fazer. Senti falta das salas escuras, das toalhas de mesa vermelhas, dos espelhos e velas, do cheiro de incenso e cigarro. Senti falta do mise-en-sc\u00e8ne das trambiqueiras do Catete que s\u00f3 de olhar pra gente sabiam que sofr\u00edamos de amor n\u00e3o correspondido e que se vangloriavam de prever que os novos moradores de uma cobertura teriam problemas de infiltra\u00e7\u00e3o. Senti falta do teatro. Senti falta de pagar o pre\u00e7o para entrar nesse outro mundo.<\/p>\n<p>O que me parece \u00e9 que, hoje, por conta do isolamento social, n\u00e3o tem mais mise-en-sc\u00e8ne. Em quase nada. Os processos psicoter\u00e1picos, que, at\u00e9 bem pouco tempo, seguiam protocolos pr\u00f3ximos aos de uma consulta de tarot, n\u00e3o tem mais setting e s\u00e3o realizados online. Os rituais corporativos passaram a ser realizados por pessoas mudas sem rostos em volta de telas projetando slides sem sentindo. E at\u00e9 os anivers\u00e1rios que, nas salas de videoconfer\u00eancia, tentam reproduzir as condi\u00e7\u00f5es presenciais de alegria e excita\u00e7\u00e3o falham miseravelmente com seus \u201cParab\u00e9ns para voc\u00ea\u201d dessincronizados.<\/p>\n<p>Quando falamos das quest\u00f5es m\u00edsticas \u00e9 pior. N\u00e3o subimos mais montanhas para falar com or\u00e1culos mascarados nem visitamos florestas escuras nas sextas \u00e0 noite para falar com bruxas debru\u00e7adas sobre seus caldeir\u00f5es. At\u00e9 para o que \u00e9 fora do real, vivemos uma cultura pragm\u00e1tica e sem mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Mas talvez eu esteja exagerando. Talvez ainda haja mise-en-sc\u00e8ne. S\u00f3 ainda n\u00e3o o entendemos, pois ele \u00e9 novo e est\u00e1 sendo constru\u00eddo em novos ambientes e em outros formatos. Por isso ainda n\u00e3o reconhecemos seus s\u00edmbolos. O mist\u00e9rio sempre existe. Talvez hoje seja apenas diferente. S\u00f3 nos basta acreditar.<\/p>\n<p>Vamos, ent\u00e3o, de cora\u00e7\u00e3o aberto, ver qual mist\u00e9rio essa consulta ao futuro via whastapp, que encontrei no Instagram e foi paga via pix, ir\u00e1 me esclarecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca soube jogar tarot direito. Eu entendia a hist\u00f3ria (presumida) do baralho, a origem dos s\u00edmbolos, o significado dos arcanos, a l\u00f3gica das suas rela\u00e7\u00f5es e frequentemente tinha poderosas intui\u00e7\u00f5es estimuladas pelas cartas e sua disposi\u00e7\u00e3o; mas me faltava um tro\u00e7o essencial: mise-en-sc\u00e8ne. Comecei a estudar Tarot depois que uma amiga da minha m\u00e3e tirou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-3557","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3557"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3561,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557\/revisions\/3561"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}