{"id":3641,"date":"2021-01-30T07:30:25","date_gmt":"2021-01-30T10:30:25","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3641"},"modified":"2021-01-30T07:38:37","modified_gmt":"2021-01-30T10:38:37","slug":"em-defesa-de-o-hobbit","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/em-defesa-de-o-hobbit\/","title":{"rendered":"Em defesa de O Hobbit"},"content":{"rendered":"<p>Cometi o maior pecado que um jogador de RPG podia cometer nos anos 90: eu n\u00e3o gostava de Senhor dos An\u00e9is. E olha que eu tentei.<\/p>\n<p>A primeira vez que arrisquei ler foi uma edi\u00e7\u00e3o da Artenova em 6 volumes que tinha na biblioteca Machado de Assis em Botafogo. Quando chegou na morte do Boromir, eu me indignava: &#8220;Que diabos! Esse homem t\u00e1 todo flechado e continua falando por p\u00e1ginas e p\u00e1ginas?&#8221;. Desisti. Na segunda tentativa peguei a edi\u00e7\u00e3o da Europa Am\u00e9rica, aquela de capa preta chique, na biblioteca do col\u00e9gio e avancei at\u00e9 ao &#8220;congresso&#8221; do Ents. A cada par\u00e1grafo eu balan\u00e7ava a cabe\u00e7a e pensava: &#8220;Cacete, como essas \u00e1rvores falam&#8221;. Desisti novamente.\u00a0 Pra n\u00e3o sair muito feio dessa hist\u00f3ria, li o Hobbit. Achei legal mas bem desconexo, como as hist\u00f3rias que \u00e0s vezes invento pra botar a minha filha pra dormir, mas foi s\u00f3 isso. Gra\u00e7as a Deus, o mundo do RPG mudou, Vampire chegou e os rpgistas migraram pra Anne Rice e A Entrevista com o Vampiro, que, confesso, s\u00f3 li at\u00e9 a morte da Cl\u00e1udia por revolta, porque o Louis \u00e9 chato demais.<\/p>\n<p>Por isso, quando o Peter Jackson come\u00e7ou a lan\u00e7ar os filmes de Senhor dos An\u00e9is, eu n\u00e3o tinha muitas expectativas. N\u00e3o era um fanzoca, mas confiava que ia ser bom. Acho Almas G\u00eameas uma obra prima e Esp\u00edritos \u00e9 um filme sui generis mesmo que comercial. Tamb\u00e9m o que esperar de um cara que come\u00e7ou fazendo filmes trash gore de prop\u00f3sito? Tudo que ele criava, mesmo que fosse ruim, tinha que ser proposital e impressionante.<\/p>\n<p>Imagino como ele ralou pra fazer os filme da trilogia. C\u00e1 entre n\u00f3s, em quase mil p\u00e1ginas s\u00f3 tem um fiapo de plot,\u00a0 v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o totalmente sem nexo e a \u00fanica forma de se criar algum tipo de empatia com os personagens unidimensionais \u00e9 imaginar jogando eles num RPG. OK, a hist\u00f3ria de fundo e o mundo s\u00e3o imaginativos pacas, mas cad\u00ea o drama? Muitas vezes eu me perguntava se Sauron e Saruman n\u00e3o estavam fazendo o certo acabando com aquele povo chato e pern\u00f3stico de Rohan e Gondor. Assim, fui pros filmes sem o menor temor. E amei.<\/p>\n<p>Peter Jackson tomou, \u00f3bvio, enormes liberdades com a obra. Limou coisas queridas dos nerds, e.g. Tom Bombadil, e conseguiu inexplicavelmente criar drama e conflito onde n\u00e3o havia. Deu uma hist\u00f3ria de verdade a uma narrativa fraca passada num cen\u00e1rio riqu\u00edssimo e elaborado. Uma conquista inquestion\u00e1vel, na minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo mundo curtiu tamb\u00e9m, ele ganhou Oscar e tudo, mas Nerd \u00e9 Nerd, e, com o passar do tempo, o pessoal come\u00e7ou a se prender a detalhes pra falar mal do filme. Como n\u00e3o era um f\u00e3 dos livros, passei ao largo dessa discuss\u00e3o. Por\u00e9m, quando Peter Jackson disse que ia produzir o Hobbit com o Guillermo del Toro dirigindo, o debate se tornou inescap\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tinha os que adoravam a ideia, tinha os que odiavam. Eu, confesso, gosto do Hobbit. \u00c9 um conto de fadas bem legal. \u00c9 quase como um amigo de RPG das antigas descrevia as suas aventuras: uma enorme quantidade de encontros complicados em sequ\u00eancia que d\u00e3o a impress\u00e3o de ser uma narrativa coesa e ser\u00e3o resolvidos num Deus Ex Machina fora da vista dos personagens. Pessoalmente tinha d\u00favidas se era adapt\u00e1vel e se o estilo dark do Del Toro ia casar bem com o material j\u00e1 consolidado pela trilogia de filmes anterior.<\/p>\n<p>O tempo passou, a produ\u00e7\u00e3o dos filmes virou uma novela; Del Toro saiu do projeto, Peter Jackson assumiu; os dois filmes viraram tr\u00eas; e, pimba, quando menos esper\u00e1vamos tava nos cinemas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma obra prima, e nem chega perto dos divertidos filmes da trilogia anterior, mas, na boa, o desafio era muito pior. Um livro curto, sem estrutura, cheio de umas can\u00e7\u00f5es e poemas doidos. N\u00e3o dava pra tornar numa narrativa cinematogr\u00e1fica com qualidade sem tomar muitas liberdades. E foi isso o que Peter Jackson fez: tomou muitas liberdades. Dessa vez incluindo coisas que n\u00e3o estavam no livro.<\/p>\n<p>A\u00ed o povo se empombou. Pior que limar Tom Bombadil era: dar uma hist\u00f3ria e um arco dram\u00e1tico pro Bard, que s\u00f3 aparece no livro pra dar aquela flechada; incutir alguma motiva\u00e7\u00e3o nobre naqueles an\u00f5es mercen\u00e1rios; estabelecer algum tipo de personalidade pro Bilbo; tornar Azog, quase uma nota de rodap\u00e9 no texto, num vil\u00e3o razo\u00e1vel; e dar um tema pra hist\u00f3ria. Sim, ele conseguiu at\u00e9 dar um tema pro Hobbit: a gan\u00e2ncia versus o senso de comunidade. Mas na cabe\u00e7a dos nerds da internet, ele estava dessacralizando o livro da sua inf\u00e2ncia, que uns 80% dos que reclamavam n\u00e3o leram.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, numa hist\u00f3ria que parecia quase uma confus\u00e3o t\u00edpica de Sess\u00e3o da Tarde, Peter Jackson conseguiu introduzir um tema que costurou toda a narrativa. Os an\u00f5es partem em sua aventura para recuperar a sua terra natal e sua comunidade, mas acabam, pelo menos seu l\u00edder, consumidos pela gan\u00e2ncia; Smaug, sentado naquele enorme tesouro, nos lembra do que move os seres humanos e como a cobi\u00e7a nos torna solit\u00e1rios; a Cidade do Lago vivia controlada por homens gananciosos contra os quais Bard se colocava pelo bem comum; Legolas e Tauriel, que n\u00e3o estavam na hist\u00f3ria original, tentam criar algum tipo de harmonia entre os povos enquanto os velhos l\u00edderes s\u00e3o guiados por antigas rusgas por despeito e desejo de poder; e o Gollum&#8230; preciso falar dele? Acho que n\u00e3o. Seja como for o Hobbit enfim tinha um tema.<\/p>\n<p>T\u00e1, concordo, n\u00e3o foi bem desenvolvido. O quase romance de Tauriel e Kili ficou quase c\u00f4mico; Bilbo, que de arrombador deveria passar a conciliador, \u00e9 quase um espectador passivo do drama; e a introdu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do conselho pra dar liga com a trilogia do Senhor dos An\u00e9is foi ao mesmo tempo demais e de menos. Enfim, os filmes tiveram v\u00e1rios problemas, mas nenhum deles tira o m\u00e9rito de se conseguir dar uma estrutura onde n\u00e3o havia quase nada.<\/p>\n<p>Por isso, quando vejo a galera malhando O Hobbit, sempre o defendo. N\u00e3o \u00e9 um grande filme, mas admiro muito o trabalho criativo e conceitual que foi feito nele. Quem nunca sentou pra escrever e vive reclamando que o Batman do filme tal n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro, pois nunca ouviu falar de Bat-Mite, nem de Ace, o Bat-c\u00e3o, tem todo o direito de achar o filme ruim, mas n\u00e3o pode desmerecer as conquistas narrativas realizadas em cima de um material dif\u00edcil e, pior, popular. Escrever e criar n\u00e3o requerem somente desejo de agradar os outros e de sucesso financeiro, envolvem na verdade muito trabalho, an\u00e1lise e coragem. E nesses quesitos O Hobbit, com todas as suas falhas, \u00e9 uma grande conquista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cometi o maior pecado que um jogador de RPG podia cometer nos anos 90: eu n\u00e3o gostava de Senhor dos An\u00e9is. E olha que eu tentei. A primeira vez que arrisquei ler foi uma edi\u00e7\u00e3o da Artenova em 6 volumes que tinha na biblioteca Machado de Assis em Botafogo. 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