{"id":3783,"date":"2021-02-23T06:02:03","date_gmt":"2021-02-23T09:02:03","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3783"},"modified":"2021-02-23T06:36:13","modified_gmt":"2021-02-23T09:36:13","slug":"o-crepusculo-dos-deuses-auto-ironicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-crepusculo-dos-deuses-auto-ironicos\/","title":{"rendered":"O crep\u00fasculo dos deuses auto ir\u00f4nicos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com dez anos de atraso, comecei a ler a &#8220;nova&#8221; s\u00e9rie de quadrinhos do Gavi\u00e3o Arqueiro. Confesso, mais pela arte do David Aja do que por qualquer outra coisa. N\u00e3o me arrependi. Pela arte, pelo ritmo e pela diagrama\u00e7\u00e3o. Pela hist\u00f3ria\u2026 a\u00ed j\u00e1 \u00e9, bem, outra hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde o final dos anos 90, ap\u00f3s o massacre cognitivo, est\u00e9tico e moral da Image, come\u00e7ou um movimento brabo dos quadrinhos mainstream se tornarem autorreferenciais. Se os her\u00f3is tinham se tornado pastiches de si mesmos, como ciborgues cromados bidimensionais de seis bra\u00e7os e armas para cada um dos dedos, que sentido fazia ser um cara que botava collant para sair \u00e0s ruas e lutar contra o crime por conta de algum trauma de inf\u00e2ncia?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os her\u00f3is precisavam, sim, de terapia, mas os autores resolveram transform\u00e1-los em sujeitos fracassados e amargos que recorriam ao sarcasmo para sobreviver. E foi interessante. Por um tempo. Lembro de ter acompanhado com bastante aten\u00e7\u00e3o o primeiro ano de Alias, com a Jessica Jones, mas depois comecei a ficar cansado. \u201cQue diabo, ser\u00e1 que ela n\u00e3o consegue mudar nem um pouquinho?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o, n\u00e3o conseguia. Ao tentar subverter o estilo narrativo tradicional, esse movimento meio hipster de her\u00f3is auto ir\u00f4nicos repetia os pr\u00f3prios erros do g\u00eanero que tentava criticar. E, como os her\u00f3is dos anos 50, presos em ciclos grandiosos onde as maiores mudan\u00e7as eram resolvidas com \u201ctudo n\u00e3o passou de um sonho\u201d, esses novos ou renovados her\u00f3is do s\u00e9culo XXI continuavam paralisados pelos seus problemas, mas dessa vez justificavam tudo com um simples \u201cputz, reca\u00ed\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sei que nos anos 80 foram feitas experi\u00eancias bem interessantes e bem sucedidas de subverter o g\u00eanero. Zenith e Homem Animal do Morrison, as historinhas de super her\u00f3is dentro de Locas do Jaime Hernandez, The Jam, Concreto, As Tartarugas Ninjas e at\u00e9 a Orqu\u00eddea Negra do Gaiman conseguiram botar um pouco de auto an\u00e1lise na figura do super her\u00f3i. Por\u00e9m, essas experi\u00eancias tinham duas caracter\u00edsticas que faltam a esses quadrinhos atuais: tinham in\u00edcio, meio e fim; e humor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os her\u00f3is sarc\u00e1sticos de hoje, que lamentam suas vidas, suas escolhas, e vivem questionando a raz\u00e3o de \u201cbotarem collant para sair \u00e0s ruas e lutar contra o crime por conta de algum trauma de inf\u00e2ncia\u201d tentam apenas ser engra\u00e7ados, sem a satisfa\u00e7\u00e3o da auto-an\u00e1lise, enquanto continuam v\u00edtimas de um mercado que demanda a eterna continuidade dos seus t\u00edtulos. Um bando de s\u00edsifos tristes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim, como personagens de um sitcom ruim, mas que cita fil\u00f3sofos e m\u00fasicas pop, eles tentam questionar o que s\u00e3o ao mesmo tempo que prometem que nunca ir\u00e3o mudar. Por isso, por mais linda que seja a arte do David Aja, acabei abandonando a s\u00e9rie. De coisas que n\u00e3o mudam e das quais a gente ri pra n\u00e3o chorar j\u00e1 me basta o notici\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com dez anos de atraso, comecei a ler a &#8220;nova&#8221; s\u00e9rie de quadrinhos do Gavi\u00e3o Arqueiro. Confesso, mais pela arte do David Aja do que por qualquer outra coisa. N\u00e3o me arrependi. Pela arte, pelo ritmo e pela diagrama\u00e7\u00e3o. Pela hist\u00f3ria\u2026 a\u00ed j\u00e1 \u00e9, bem, outra hist\u00f3ria. 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