{"id":3874,"date":"2021-03-07T05:34:48","date_gmt":"2021-03-07T08:34:48","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=3874"},"modified":"2023-10-12T13:33:31","modified_gmt":"2023-10-12T16:33:31","slug":"a-ultima-pizza-carioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-ultima-pizza-carioca\/","title":{"rendered":"A \u00faltima pizza carioca"},"content":{"rendered":"<p>O que o paulista(no) n\u00e3o entende \u00e9 que a pizza carioca precisa ser ruim. E, por isso, ela \u00e9 boa.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, pizza carioca n\u00e3o \u00e9 a primeira op\u00e7\u00e3o da noite. Pelo menos n\u00e3o cronologicamente. N\u00e3o me lembro de ter come\u00e7ado uma noite por ela, mas n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o totalmente imposs\u00edvel. Por outro lado, era certo que, quando a noite terminasse, mal, como sempre, a gente fechava os trabalhos com ela.<\/p>\n<p>Pra com\u00ea-la tem v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es, mas um lugar ic\u00f4nico que deixa saudades \u00e9 o Cine \u00d3pera, um lugar daqueles que n\u00e3o se faz mais. Um misto de restaurante, p\u00e9 sujo e lanchonete que servia refei\u00e7\u00f5es um tanto quanto suspeitas em mesas na cal\u00e7ada ao mesmo tempo em que vendia salgados num balc\u00e3o. Ao contr\u00e1rio das lanchonetes, eles serviam chopp e, ao contr\u00e1rio dos restaurantes, vendiam coxinhas e joelhos. Um saco de gatos anacr\u00f4nico que, se ainda funcionasse, seria fechado pelos pseudo especialistas em marketing do SEBRAE.<\/p>\n<p>O engra\u00e7ado \u00e9 que vivia cheio e n\u00e3o tinha nada demais. A vista da praia de Botafogo era at\u00e9 legal, o chopp nem fedia, nem cheirava, e a pizza era aquela massaroca carioca de p\u00e3o macio e queijo mussarela com ketchup e calabresa. Mas a gente gostava, comia e pedia bis. E se a pizza estivesse dif\u00edcil de descer, o chopp auxiliava a deslizar o p\u00e3o pela goela.<\/p>\n<p>N\u00e3o era o lugar mais chique do mundo mas tinha l\u00e1 a sua m\u00edstica e ficava aberto at\u00e9 o sol nascer. O que a gente podia pedir mais?<\/p>\n<p>O Cine \u00d3pera, como a pizza carioca, surgia como um sinal de que era hora de encerrar a noite. Fim de madrugada, j\u00e1 t\u00ednhamos gasto quase tudo nas boates e bares de Ipanema e Leblon, ou jogado nossa dignidade fora nos inferninhos de Copacabana, e no \u00f4nibus da volta, derrotados, algu\u00e9m avistava o Cine \u00d3pera e convocava:<\/p>\n<p>&#8211; Saideira no \u00d3pera!<\/p>\n<p>Sem pestanejar, o bando descia na praia de Botafogo pra comer aquela fatia gordurosa e massarocuda de calabreza com o(s) \u00faltimo(s) chopp(s). E era al\u00ed, mascando e molhando a pizza com cerveja que a gente fazia o nosso debriefing: fal\u00e1vamos das tristezas da noite e da falta de sentido da exist\u00eancia; tent\u00e1vamos extrair alguma sabedoria dos nossos fracassos; e nos entorpec\u00edamos o suficiente para conseguir ir a p\u00e9 pra casa e dormir sem pensar na nossa falta de prop\u00f3sito. E para isso a pizza carioca era a companhia perfeita.<\/p>\n<p>O que o paulista(no) precisa entender \u00e9 que a pizza carioca n\u00e3o \u00e9 simplesmente comida. Ser massuda, sem gosto e necessitar de litros de ketchup \u00e9 uma forma divina de punir o carioca pelos fracassos que viveu na madrugada; \u00e9 o \u00e1pice de uma noite ruim. E, nisso, ela \u00e9 insuper\u00e1vel e perfeita.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o podemos esquecer, a pizza carioca pra ser realmente aproveitada requer contexto e setting. Pode ser comida, quer dizer, engolida de manh\u00e3, ap\u00f3s uma ressaca moral ou f\u00edsica; \u00e0 tarde, ap\u00f3s uma not\u00edcia ruim ou no processo de reconhecimento da sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia; ou mesmo no come\u00e7o de noite, em casa,\u00a0 em frente \u00e0 TV, enquanto os pratos sujos de duas semanas lhe lembram que voc\u00ea n\u00e3o sabe cuidar de si mesmo. A pizza carioca, repito, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3(?) comida, \u00e9 terapia.<\/p>\n<p>H\u00e1 boas pizzas no Rio? Sim, claro, e a elas chamamos de pizzas paulistas, pois a verdadeira pizza carioca n\u00e3o pode ser boa, j\u00e1 que a sua miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 gastron\u00f4mica e, sim, espiritual.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o vale ficar nessa compara\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que est\u00e3o em categorias diferentes. A pizza paulista satisfaz a mat\u00e9ria, enquanto a carioca conforta a alma. E saiba que eu estou pronto a defender essa ideia at\u00e9 a \u00faltima fatia de pizza com meu tubo de ketchup contra sua garrafa de azeite.<\/p>\n<p><em>En garde?<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que o paulista(no) n\u00e3o entende \u00e9 que a pizza carioca precisa ser ruim. E, por isso, ela \u00e9 boa. Em primeiro lugar, pizza carioca n\u00e3o \u00e9 a primeira op\u00e7\u00e3o da noite. Pelo menos n\u00e3o cronologicamente. N\u00e3o me lembro de ter come\u00e7ado uma noite por ela, mas n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o totalmente imposs\u00edvel. 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