{"id":4512,"date":"2021-06-04T07:22:08","date_gmt":"2021-06-04T10:22:08","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=4512"},"modified":"2021-06-04T07:22:08","modified_gmt":"2021-06-04T10:22:08","slug":"raiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/raiva\/","title":{"rendered":"Raiva"},"content":{"rendered":"<p>Durante um per\u00edodo de 2010, eu viajei pelo interior do pa\u00eds visitando diversas obras e plantas industriais para entender quais eram a cultura e o processo de aprendizagem da empresa onde trabalhava. A equipe era pequena. Al\u00e9m de mim, tinha um coitado que cuidava do curso dos \u201cl\u00edderes\u201d; o gerente, que vivia em p\u00e2nico de ser demitido; e um espertalh\u00e3o, que usava o dinheiro da empresa para fazer contatos nos exterior e empurrar a sua carreira acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Enquanto eu estava amassando barro nas obras, o gerente e o espertalh\u00e3o contrataram uma consultoria car\u00edssima dos Estados Unidos para fazer o plano de a\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. Sempre fui contra. Se eu fui contratado para um trabalho, minha miss\u00e3o era cumprir, e n\u00e3o terceirizar, a minha responsabilidade. Mas eu n\u00e3o era o gerente, ent\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Calhou que o \u00faltimo dia da consultoria bateu com uma sexta-feira, quando voltei ao escrit\u00f3rio de uma dessas in\u00fameras viagens, e me chamaram para a reuni\u00e3o de fechamento. Reuni\u00e3o em ingl\u00eas, numa sala com acolchoamento at\u00e9 nas paredes, num hotel chique, com coffee break e o escambau.<\/p>\n<p>Quando os consultores come\u00e7aram a apresentar os resultados, me espantei. Eles estavam pintando um mundo dos sonhos, onde havia respeito pelas opini\u00f5es alheias, toler\u00e2ncia ao erro e di\u00e1logo em todas os n\u00edveis. Um mundo completamente diferente do que eu conheci: um ambiente de medo, hierarquia pesada e acobertamento de informa\u00e7\u00f5es. Do alto da minha inoc\u00eancia, fui obrigado a me manifestar:<\/p>\n<p>&#8211; Sorry, mr. consultor, mas quem voc\u00eas entrevistaram para fazer esse retrato?<\/p>\n<p>Eles explicaram a metodologia e os p\u00fablicos trabalhados, e a\u00ed entendi de onde vinha a distor\u00e7\u00e3o. O espertalh\u00e3o, querendo fazer bonito, botou eles pra falar s\u00f3 com as lideran\u00e7as que nunca iam dar a real. Do alto da minha inoc\u00eancia, fui obrigado discordar:<\/p>\n<p>&#8211; Sorry, mr. consultor, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim que a banda toca\u2026<\/p>\n<p>E relatei o que tinha descoberto nos meus seis meses de viagem de campo. O ruim e o bom, as barreiras e as oportunidades, a realidade e as fantasias. Os consultores ficaram em polvorosa e come\u00e7aram a dizer que os resultados da pesquisa tinham que ser revistos com essa nova informa\u00e7\u00e3o e que o plano, criado, considerando uma maturidade muito maior da empresa, ia precisar ser mudado. Ao inv\u00e9s das diversas viagens ao exterior para fazer benchmarking na NASA, no Google e nos diabos que os carreguem, ia ser preciso intensificar o trabalho de campo e base que eu j\u00e1 estava fazendo.<\/p>\n<p>O espertalh\u00e3o viu seus sonhos ca\u00edrem por terra. Sem apresenta\u00e7\u00f5es de trabalhos em congressos internacionais, sem contatos com gente que aparecia na Voc\u00ea S.A., seus planos de carreira iam atrasar uns 10 anos, e, pior, ele ia ser obrigado a fazer o trabalho para o qual foi contratado. O horror, o horror.<\/p>\n<p>Os consultores come\u00e7aram a me pedir mais informa\u00e7\u00f5es e no meio de uma explica\u00e7\u00e3o, o espertalh\u00e3o tentou reverter o rumo da prosa:<\/p>\n<p>&#8211; Ele n\u00e3o sabe o que est\u00e1 dizendo pois \u00e9 novo na empresa- me diminuiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o costumo ser dessas coisas, mas, no calor do momento, respondi:<\/p>\n<p>&#8211; E ele, que est\u00e1 aqui h\u00e1 muito tempo, conduziu o trabalho de forma desonesta pois j\u00e1 est\u00e1 institucionalizado.<\/p>\n<p>O sangue subiu \u00e0 cabe\u00e7a do espertalh\u00e3o e ele, sedento do meu sangue, partiu na minha dire\u00e7\u00e3o gritando:<\/p>\n<p>&#8211; Shut up. Shut UP! SHUT UP!<\/p>\n<p>\u00d3bvio que a reuni\u00e3o foi encerrada na hora e todos voltamos ao escrit\u00f3rio em sil\u00eancio. N\u00e3o sei o que passava na cabe\u00e7a de cada um, mas sabia que o gerente agora tinha certeza absoluta que seria demitido.<\/p>\n<p>Deu o hor\u00e1rio de sair e corri pra ir pra minha an\u00e1lise. No hall dos elevadores, esbarrei com o espertalh\u00e3o. Ele sorriu pra mim, deu um tapa nas minhas costas e me perguntou sobre a minha camiseta. Respondi:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 de um web comic sobre um Xam\u00e3 detetive na \u00e9poca de Genghis Khan.<br \/>\n&#8211; Legal, legal. Bom fim de semana.<\/p>\n<p>Quando sa\u00ed do pr\u00e9dio algo se alterou em mim. Senti meu rosto aquecer, minha cabe\u00e7a doer e minhas extremidades come\u00e7arem a ficar dormentes. Ao mesmo tempo que queria me sentar, queria andar por horas, sem parar. Era como se estivesse tendo um surto psic\u00f3tico, um ataque card\u00edaco e um derrame cerebral ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Por que diabos aquele cara tinha me abalado tanto? Um sujeito oportunista, incompetente e desrespeitoso, jogando por terra todo o trabalho que eu tinha feito por conta de caprichos e desejos ego\u00edstas. E, para ele, todo aquele embate escandaloso n\u00e3o tinha passado de uma luta de telecatch, um teatro para fazer valer as suas vontades sobre as necessidades da comunidade. Ele representava tudo o que eu abominava e abomino. Era o maior exemplo do que eu n\u00e3o quero ver no mundo: mau-caratismo, falta de educa\u00e7\u00e3o e desonestidade moral e intelectual. Por que diabos aquele cara tinha me abalado tanto? Eu tinha minhas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o saquei na hora, mas estava sentindo raiva. Uma coisa com a qual at\u00e9 hoje n\u00e3o estou acostumado. Sem saber o que fazer com esse \u00f3dio, parei numa lanchonete, pedi uma coca cola bem gelada e a bebi quase num s\u00f3 gole. A bola baixou um pouco, peguei meu celular, mandei uma mensagem pra um colega do meu antigo trabalho pra ver se tinha como me contratarem e, de repente, passou. Acontecesse o que acontecesse, o problema estava endere\u00e7ado.<\/p>\n<p>Fui para a minha an\u00e1lise e, como o espertalh\u00e3o desejou, tive um bom fim de semana. Como dizem, a vida \u00e9 muito curta pra ser passada com gente que te incomoda. E pra sentir raiva.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/mundialdeescritura.com\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4458\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura.jpg\" alt=\"\" width=\"984\" height=\"213\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura.jpg 984w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-300x65.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-768x166.jpg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-720x156.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante um per\u00edodo de 2010, eu viajei pelo interior do pa\u00eds visitando diversas obras e plantas industriais para entender quais eram a cultura e o processo de aprendizagem da empresa onde trabalhava. A equipe era pequena. Al\u00e9m de mim, tinha um coitado que cuidava do curso dos \u201cl\u00edderes\u201d; o gerente, que vivia em p\u00e2nico de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-4512","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4512"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4512\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4515,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4512\/revisions\/4515"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}