{"id":4534,"date":"2021-06-05T07:37:44","date_gmt":"2021-06-05T10:37:44","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=4534"},"modified":"2021-06-05T08:49:45","modified_gmt":"2021-06-05T11:49:45","slug":"433-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/433-2\/","title":{"rendered":"4:33"},"content":{"rendered":"<p>O sinal fechou.<\/p>\n<p>Ele freou o carro em cima da faixa. Por pouco n\u00e3o conseguiu passar. Bufou e checou o celular. Ainda nenhuma mensagem, mas ele sabia que ela ia mandar uma. Ou, pior, ligar. \u201cCad\u00ea voc\u00ea? Voc\u00ea n\u00e3o vem?\u201d. \u201cSim, sim. Eu vou, eu vou\u201d ele responderia.<\/p>\n<p>Olhou pro rel\u00f3gio. Sete e onze da noite. Pelo que lembrava, e j\u00e1 tinha cronometrado, esse sinal demorava quatro minutos e trinta e tr\u00eas segundos para abrir. Porqu\u00ea? N\u00e3o tinha a menor ideia. S\u00f3 sabia que esse era o sinal mais demorado da cidade. E, o pior, numa rua escura e cheia de \u00e1rvores. Um perigo.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o arredondar o tempo de espera para baixo ou mesmo para cima? Quatro minutos e meio ou cinco fariam mais sentido. Mas para que as coisas precisam fazer sentido mesmo?<\/p>\n<p>Aproveitando a longa espera, dois meninos surgiram do nada e se posicionaram em frente ao seu carro fazendo malabarismos com bolas. Um terceiro surgiu do lado do carro e bateu no vidro lhe pedindo dinheiro. Ela ligou. Sete e doze. Ele fez sinal para o menino esperar e atendeu:<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00f4.<br \/>\n&#8211; Al\u00f4, voc\u00ea t\u00e1 vindo?<br \/>\n&#8211; T\u00f4, t\u00f4.<br \/>\n&#8211; T\u00e1, t\u00e1. S\u00f3 queria saber. O pessoal t\u00e1 esperando bolo.<br \/>\n&#8211; OK. OK. Eu sei.<\/p>\n<p>Desligou. O menino bateu novamente na janela do carro. Ele olhou pra conferir o bolo no banco de tr\u00e1s e percebeu que era o \u00fanico carro parado no sinal. O show era particular. Fez um sinal para o menino continuar esperando enquanto procurava uns trocados nos bolsos. Os meninos na frente do carro, agora, tinham deixado os malabares de lado, e faziam acrobacias pulando uns sobre os outros e por dentro de bambol\u00eas.<\/p>\n<p>Ele achou uma nota amassada no bolso, abaixou o vidro, e a entregou ao menino que foi em dire\u00e7\u00e3o aos amigos sorrindo excessivamente satisfeito. Ele desconfiou. Tentou mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia ver de quanto era a nota que tinha entregue. Tinha se enganado, tinha dado dinheiro demais.<\/p>\n<p>Colocou a cabe\u00e7a pra fora e acenou para o menino voltar. Os tr\u00eas acenaram de volta agradecendo. Estavam sendo sonsos? Ele acenou mais vigorosamente e um dos meninos veio em sua dire\u00e7\u00e3o enquanto os outros dois buscavam uma garrafa de querosene e tochas.<\/p>\n<p>&#8211; Menino, acho que te dei dinheiro demais.<br \/>\n&#8211; Deu n\u00e3o, tio. Brigad\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o entendeu, menino. EU DEI dinheiro demais. Deixa eu trocar essa nota com voc\u00ea.<\/p>\n<p>O celular tocou. Era ela. De novo. Sete e treze. Ele fez sinal pro menino esperar e atendeu:<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9?<br \/>\n&#8211; T\u00f4 s\u00f3 ligando pra te lembrar das velas.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o esqueci. Eu sei. T\u00e1 comigo.<br \/>\n&#8211; T\u00e1, eu s\u00f3 queria dizer\u2026<br \/>\n&#8211; Eu sei. Eu sei.<\/p>\n<p>Desligou o telefone e enfiou a m\u00e3o no bolso, de onde tirou umas moedas, e as entregou ao menino.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui, \u00f3. Agora me d\u00e1 a nota.<br \/>\n&#8211; Dou, n\u00e3o, tio. N\u00e3o \u00e9 justo. Isso \u00e9 muito pouco.<br \/>\n&#8211; \u00c9 justo, sim. O dinheiro \u00e9 meu.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 mais. Voc\u00ea me deu.<\/p>\n<p>Enquanto eles discutiam, os meninos na frente do carro, talvez empolgados pela gorjeta polpuda, se preparavam para fazer um show de cuspir fogo. O celular deu um toque. Ela mandara uma mensagem de texto. Sete e quatorze. \u201cAmor, n\u00e3o fica chateado. S\u00f3 falo pelo nosso bem\u201d. Ele se irritou:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui, \u00f3, menino, n\u00e3o quero mais discutir. Me d\u00e1 a nota e fica com essas moedas.<br \/>\n&#8211; Quero, n\u00e3o. Eu te devolvo,se voc\u00ea me der pelo menos metade da nota.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 doido? Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que eu t\u00f4 com pressa?<br \/>\n&#8211; O sinal demora, tio. Pode procurar.<\/p>\n<p>Os meninos come\u00e7aram a cuspir labaredas um em dire\u00e7\u00e3o ao outro e queimavam as pontas das folhas das \u00e1rvores da rua que desciam sobre o asfalto como vagalumes. Ele procurou nos bolsos, abriu a carteira e nada. N\u00e3o tinha nenhuma nota pra oferecer pro menino.<\/p>\n<p>&#8211; Achou, tio?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o achei, n\u00e3o\u2026<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, tio, nada feito.<\/p>\n<p>O menino sorriu e, debochado, fez uma mesura de agradecimento. Isso n\u00e3o caiu bem. Ele fez men\u00e7\u00e3o de gritar pela janela do carro, mas se assustou com as l\u00ednguas de fogo que sa\u00edam das bocas dos meninos. O menino com a nota agora a exibia aos amigos vitorioso, dan\u00e7ando entre eles enquanto cuspiam fogo como drag\u00f5es. O telefone tocou. Era ela de novo. Sete e quinze. Faltava pouco pro sinal abrir. Ele atendeu:<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! O que voc\u00ea quer agora?<br \/>\n&#8211; Amor, voc\u00ea t\u00e1 chateado comigo? Voc\u00ea sabe que eu te amo\u2026<\/p>\n<p>Na frente do carro os tr\u00eas meninos dan\u00e7avam como menestr\u00e9is medievais cuspindo fogo e exibindo o dinheiro que tinham ganho.<\/p>\n<p>&#8211; Amor, t\u00e1 tudo bem? Por que voc\u00ea n\u00e3o me responde? Voc\u00ea comprou o bolo de sorvete que a gente combinou?<\/p>\n<p>Ele chegou ao seu limite. Revoltado, atirou o celular pela janela em dire\u00e7\u00e3o ao menino que dan\u00e7ava com o dinheiro. O menino, com presteza, se abaixou e o celular foi direto no queixo do outro menino que cuspia uma labareda para o c\u00e9u. O fogo, como uma f\u00eanix, fez uma curva atingindo a copa das \u00e1rvores e retornando para a cabe\u00e7a do menino que come\u00e7ou a arder como uma das velas do bolo que ela esperava receber.<\/p>\n<p>\u00c0 dist\u00e2ncia, paralisado, ele ouviu o telefone tocar insistentemente, enquanto galhos em chamas ca\u00edam sobre o carro, derretendo o bolo de sorvete, e os meninos tentavam acudir o companheiro que pegava fogo. N\u00e3o atendeu.<\/p>\n<p>O sinal abriu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sinal fechou. Ele freou o carro em cima da faixa. Por pouco n\u00e3o conseguiu passar. Bufou e checou o celular. Ainda nenhuma mensagem, mas ele sabia que ela ia mandar uma. Ou, pior, ligar. \u201cCad\u00ea voc\u00ea? Voc\u00ea n\u00e3o vem?\u201d. \u201cSim, sim. Eu vou, eu vou\u201d ele responderia. Olhou pro rel\u00f3gio. 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