{"id":4594,"date":"2021-06-10T08:14:13","date_gmt":"2021-06-10T11:14:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=4594"},"modified":"2021-06-10T08:14:13","modified_gmt":"2021-06-10T11:14:13","slug":"os-segredos-do-universo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/os-segredos-do-universo\/","title":{"rendered":"Os Segredos do Universo"},"content":{"rendered":"<p>No fim do s\u00e9culo XX eu estava virando um adultinho. Tinha 3 empregos legais mas mal pagos; o dinheiro era curto, mas eu conseguia morar sozinho num quarto e sala de Copacabana; e sofria existencialmente para terminar na faculdade os dois cr\u00e9ditos que me dariam o diploma que nunca quis. Meus dias eram ao mesmo tempo lotados de atividades e oportunidades para o \u00f3cio. Claro que eu reclamava da vida, quem n\u00e3o reclama?, mas eu tinha consci\u00eancia da rara paz de esp\u00edrito que me acometia naquela \u00e9poca. Por\u00e9m a paz de esp\u00edrito do meu vizinho parecia muito maior e isso me incomodava horrores.<\/p>\n<p>Quando o dia terminava ou na troca de turno entre um emprego e outro, eu sempre esbarrava com ele no botequim embaixo do nosso pr\u00e9dio. De short, chinelos e sem camisa, jogando porrinha no balc\u00e3o pra n\u00e3o pagar cerveja, expediente ao qual tamb\u00e9m recorri diversas vezes, ele me notava, a gente balan\u00e7ava a cabe\u00e7a um pro outro e sorria. Eu, timidamente; ele, de forma ostensiva, quase pornogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Quem podia lhe culpar por ser t\u00e3o feliz? Pelo que o Bigode, o porteiro da noite, fofocou, ele estava com o boi na sombra. Dependendo da semana ele era o modesto herdeiro de uma fortuna, um contrabandista sob prote\u00e7\u00e3o \u00e0 testemunha ou um aposentado de um banco estadual do sul por conta de uma doen\u00e7a cr\u00f4nica, tipo epilepsia ou algo que o valha.<\/p>\n<p>Inv\u00e1lido ou n\u00e3o, ele era o retrato da sa\u00fade; sempre bronzeado, com aquela eterna pinta de estar indo pra ou vindo da praia. Apesar de odiar ir \u00e0 praia, eu o invejava. Se eu tinha paz de esp\u00edrito no meio de um furac\u00e3o, ele a aproveitava numa rede em frente a uma praia deserta vendo o sol se p\u00f4r e curtindo a brisa que vem do mar para terra encerrando o dia. Enquanto eu era um artigo t\u00e9cnico s\u00f3lido numa revista chata, ele era poesia escrita por Vin\u00edcius de Moraes num guardanapo de bar.<\/p>\n<p>Apesar dessa inveja, a gente se dava bem. Divid\u00edamos umas cervejas no botequim e ocasionalmente nos ajud\u00e1vamos em pequenas tarefas um na casa do outro. Na verdade, eu sentia que ele tinha algo a me ensinar, mas eu tinha vergonha de pedir que ele me contasse o segredo do universo de viver com tranquilidade sem fazer nada e sem ter uma forma vis\u00edvel de renda. Eu queria que ele me ensinasse a ser um copacabanense de verdade. Um dia quase rolou.<\/p>\n<p>Eu estava saindo de casa numa noite de s\u00e1bado pra um programa chato mas obrigat\u00f3rio quando esbarrei com ele apoiado no umbral da sua porta tremendo.<\/p>\n<p>&#8211; Opa, c\u00ea t\u00e1 bem?<br \/>\n&#8211; T\u00f4, n\u00e3o. Ajuda? Ajuda\u2026<\/p>\n<p>Corri em sua dire\u00e7\u00e3o e o apoiei. Ele tremia bastante e jogou seu peso em cima de mim em busca de apoio. Apontou para o sof\u00e1 me indicando para onde queria ir. Eu o deitei e fiquei parado no meio da sua sala sem saber o que fazer:<\/p>\n<p>&#8211; Posso te ajudar com mais alguma coisa? Quer que eu ligue pra algu\u00e9m?<br \/>\n&#8211; Isso, ligar pra algu\u00e9m. Ligar\u2026<\/p>\n<p>Indicou onde estava o telefone e me pediu pra discar. Come\u00e7ou a ditar um n\u00famero longo, com certeza um interurbano, o qual errou v\u00e1rias vezes. Enfim consegui que algu\u00e9m atendesse e lhe passei o telefone. Ele come\u00e7ou a bater boca com algu\u00e9m do outro lado da linha, aparentemente recuperado, e, apontando pra cozinha, me disse:<\/p>\n<p>&#8211; Se quiser, pega um uisquinho a\u00ed no balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o estava passando mal. Estava b\u00eabado. Menos mal.<\/p>\n<p>Aceitei a sua oferta e fui encher um copo. No balc\u00e3o, al\u00e9m da garrafa e dos copos, tinha uma pilha de livros. Todos do mesmo autor: ele. Nas contracapas, a mesma foto: ele, bronzead\u00edssimo, de camisa havaiana, \u00f3culos escuros com uma praia id\u00edlica ao fundo. O fot\u00f3grafo realmente captou a sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Ele desligou o telefone e fiz a pergunta idiota que precisava fazer:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o seus?<br \/>\n&#8211; Sim, todos eles- respondeu vindo pra cozinha se servir de mais um copo.<br \/>\n&#8211; S\u00e3o sobre o que?<\/p>\n<p>Ele encheu um copo generoso, tomou um belo gole e sorriu como se me contasse um segredo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o d\u00e1 pra ver? Autoajuda.<\/p>\n<p>Os t\u00edtulos n\u00e3o deixavam d\u00favida: Como viver sem ningu\u00e9m lhe aporrinhar, Ponha a culpa nos outros, Escape dos seus credores sem medo, e assim por diante.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o \u00e0 s\u00e9rio?<br \/>\n&#8211; Claro, eu fa\u00e7o o que professo. \u00c9 preciso liderar pelo exemplo.<\/p>\n<p>Dei uma diagonal nos t\u00edtulos e 3 me chamaram especialmente a aten\u00e7\u00e3o. Parecia ser uma trilogia chamada Os Segredos do Universo e cada um dos volumes tinha um subt\u00edtulo mais instigante que o outro: Como n\u00e3o Fazer Nada, Como Viver sem Dinheiro e Como n\u00e3o se Preocupar com o Futuro.<\/p>\n<p>&#8211; E essa trilogia? \u00c9 sobre o que?<br \/>\n&#8211; Como posso resumir? Bom, a maioria dos nossos problemas surgem pois temos a necessidade de valida\u00e7\u00e3o externa. Queremos que pessoas, grupos e institui\u00e7\u00f5es nos amem. Esse amor vem na forma de s\u00edmbolos sociais, como compromisso, status e dinheiro. Por\u00e9m, mesmo quando nos entregam esses s\u00edmbolos falsos de afei\u00e7\u00e3o, continuamos ansiosos, insatisfeitos e com medo que esse amor n\u00e3o seja real. Os livros falam sobre como n\u00e3o fazer nada pelos outros, j\u00e1 que eles n\u00e3o merecem sua aten\u00e7\u00e3o; como n\u00e3o se preocupar com dinheiro, a medida enganosa do amor capitalista; e como cagar pro dia seguinte, afinal, ele pode nem chegar.<br \/>\n&#8211; Uau- foi tudo o que pude dizer.<\/p>\n<p>O interfone tocou e ele foi atender:<\/p>\n<p>&#8211; Fala, Bigode. Quem \u00e9? Pode mandar subir.<\/p>\n<p>Desligou o interfone e, com pressa, veio apertar a minha m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Cara, muito obrigado pela ajuda. Agora voc\u00ea precisa ir que eu vou atender uma \u201cpessoa\u201d. Sacou? Passa outro dia pra gente tomar mais um u\u00edsque e conversar.<\/p>\n<p>Antes que pudesse falar qualquer coisa, estava no corredor. Meio desorientado, retomei o rumo pro meu programa de s\u00e1bado e, no caminho para o elevador, passei pela \u201cpessoa\u201d loira e mignon, metida num vestido preto de l\u00e1tex obscenamente justo, que iria lhe visitar. Com certeza ele teve um fim de s\u00e1bado bem melhor do que eu.<\/p>\n<p>Nas semanas seguintes fiquei com os seus livros na cabe\u00e7a. Ser\u00e1 que ele realmente explicava como viver como ele, sem fazer nada, sem se preocupar com dinheiro ou com a aceita\u00e7\u00e3o alheia ou mesmo se estaria vivo amanh\u00e3? Tomei coragem e bati na sua porta trazendo uma garrafa de u\u00edsque. Uma velhinha, que eu nunca tinha visto, atendeu. Perguntei dele e ela me esclareceu:<\/p>\n<p>&#8211; Ah, meu filho, eu n\u00e3o sei. Mudei semana passada e j\u00e1 n\u00e3o tinha nada nem ningu\u00e9m por aqui. O pessoal da imobili\u00e1ria disse que o inquilino anterior sumiu sem avisar e deixou um bando de d\u00edvidas de aluguel e condom\u00ednio. Desculpa n\u00e3o poder ajudar.<\/p>\n<p>Perguntei se por acaso o morador tinha deixado algum livro pela casa e ela lamentou, mas disse que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor sorte da pr\u00f3xima vez- ela resumiu minha cara de frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00e1 se foi a minha chance de conhecer Os Segredos do Universo nessa encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, ainda hoje, 20 anos depois, num fim de dia duro e cansativo, eu me lembro desse vizinho, e vou nos sites de livros usados procurar pelos Segredos do Universo. Estou, como todos, em busca de uma sa\u00edda, em busca de esperan\u00e7a, em busca de ajuda, mas at\u00e9 hoje nunca os encontrei. Esses foram segredos que o s\u00e9culo XXI nos fez esquecer.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/mundialdeescritura.com\/\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4458\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura.jpg\" alt=\"\" width=\"984\" height=\"213\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura.jpg 984w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-300x65.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-768x166.jpg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-720x156.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No fim do s\u00e9culo XX eu estava virando um adultinho. 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