{"id":4630,"date":"2021-06-12T18:27:14","date_gmt":"2021-06-12T21:27:14","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=4630"},"modified":"2021-06-12T18:43:09","modified_gmt":"2021-06-12T21:43:09","slug":"numeros-da-vacina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/numeros-da-vacina\/","title":{"rendered":"N\u00fameros da Vacina"},"content":{"rendered":"<p>Exatamente um ano e tr\u00eas meses depois da OMS declarar CoVid uma pandemia, fui tomar a minha primeira dose da vacina. Se voc\u00ea esquecer que vivemos num pa\u00eds desgovernado h\u00e1 dois anos e meio por um genocida que promove a doen\u00e7a e dificulta a imuniza\u00e7\u00e3o, d\u00e1 at\u00e9 pra dizer que foi r\u00e1pido; mas n\u00e3o foi. Foi uma eternidade; e nesse per\u00edodo perdemos pessoas queridas das nossas vidas e importantes para a nossa coletividade. Como n\u00e3o quero ser uma delas, como n\u00e3o quero ser mais uma das v\u00edtimas da campanha negacionista da mil\u00edcia dos zero-zeros do Vivendas da Barra, fui me vacinar.<\/p>\n<p>Ansioso, preparei uma bolsa no dia anterior com tudo que eu ia precisar: carteira de identidade e CPF; os dois atestados m\u00e9dicos de comorbidade e o exame positivo de CoVid para justificar estar entrando na repescagem; um livro, um fanzine, e uma graphic novel para me ocupar sem precisar ficar olhando pro celular; e uma caneta pro caso de querer escrever algo nas margens dos livros. Nunca se sabe que ideias podemos ter ou que curiosidades podemos presenciar.<\/p>\n<p>Acordei \u00e0s quatro e vinte e seis, bem mais cedo do que preciso, como sempre, e tentei matar o tempo at\u00e9 a hora de partir pro posto de vacina\u00e7\u00e3o: ouvi a R\u00e1dio Acoustika FM de Rio das Ostras; tolamente li os jornais, s\u00f3 pra me dar mais raiva do pa\u00eds, dos tiranetes fascistas que nos oprimem e seus seguidores ac\u00e9falos; e tentei tirar o gosto ruim de desamparo da garganta com uma overdose de palavras cruzadas. Sem sucesso.<\/p>\n<p>Sete horas da manh\u00e3, me vesti; dei um beijo na minha mulher, que fez um infrut\u00edfero esfor\u00e7o para acordar; coloquei duas m\u00e1scaras, uma cir\u00fargica e uma de tecido; e chamei um Uber para curtir uma fila. Cheguei na frente do Museu da Rep\u00fablica \u00e0s sete e doze, e, \u00f3bvio, n\u00e3o era o primeiro. Na minha frente, vinte e uma pessoas esperavam, tomando caf\u00e9, conversando, fumando, como se estivessem aguardando para entrar numa boate. Li o fanzine, a graphic novel, quarenta e tr\u00eas p\u00e1ginas do meu livro, disse n\u00e3o a dois pedintes sem m\u00e1scara, e logo deu oito da manh\u00e3, quando o posto deveria abrir, mas n\u00e3o abriu. No longu\u00edssimo minuto e meio em que as portas demoraram para ser abertas e impediram os funcion\u00e1rios do posto de vir organizar a fila, mandei duas mensagens e meia reclamando da demora.<\/p>\n<p>A fila andou e nos colocaram sentados em quatro filas de quinze cadeiras cada. Eu era o s\u00e9timo da segunda fila. Uma funcion\u00e1ria da secretaria de sa\u00fade passou por n\u00f3s perguntando as idades ou as comorbidades que nos permitiam tomar a vacina: cinquenta e quatro, doen\u00e7a autoimune, cinquenta e sete, cinquenta e oito, obesidade, defici\u00eancia permanente, doen\u00e7a renal cr\u00f4nica, cinquenta e quatro, cinquenta e quatro, press\u00e3o alta, cinquenta e quatro, press\u00e3o alta. De tr\u00eas em tr\u00eas \u00e9ramos encaminhados para duas mesas onde anotavam nossos nomes, cpf, identidades, idades, e as datas quando devemos voltar para a segunda dose. Pra mim, quatro de setembro. Uma espera de oitenta e quatro dias.<\/p>\n<p>Segui pelo sal\u00e3o ministerial, observado pelos quadros de oito ex presidentes brasileiros, at\u00e9 uma saleta onde uma enfermeira me esperava. Ela pegou a ampola de cinco mililitros de Astrazeneca, encheu a seringa, pediu pra eu subir a manga direita da camisa, relaxar o bra\u00e7o e, pronto, estava vacinado. Ao mesmo tempo, tudo era diferente, e nada parecia ter mudado.<\/p>\n<p>Agradeci \u00e0 enfermeira, e sa\u00ed do Museu da Rep\u00fablica segurando o algod\u00e3o no meu bra\u00e7o, o \u00fanico sinal de que algo havia acontecido ali. O sol bateu nos meus olhos e fiquei desorientado. Por um segundo senti todos os poss\u00edveis efeitos colaterais da vacina, febre, dor no corpo, cansa\u00e7o, dor de cabe\u00e7a, mas logo passou. Olhei pro c\u00e9u azul e senti grossas gotas de chuva sobre o meu rosto. De onde viriam? Tive noventa e sete porcento de certeza que as coisas iam melhorar. Ainda havia, \u00f3bvio, muito o que esperar antes de melhorar, mas, definitivamente, menos que ontem; um dia a menos, pelo menos. E um dia, \u00e0s vezes, faz toda a diferen\u00e7a. Hoje fez.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/mundialdeescritura.com\/\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4458\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura.jpg\" alt=\"\" width=\"984\" height=\"213\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura.jpg 984w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-300x65.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-768x166.jpg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-720x156.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exatamente um ano e tr\u00eas meses depois da OMS declarar CoVid uma pandemia, fui tomar a minha primeira dose da vacina. 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