{"id":4869,"date":"2021-07-07T08:08:06","date_gmt":"2021-07-07T11:08:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=4869"},"modified":"2021-07-07T13:34:48","modified_gmt":"2021-07-07T16:34:48","slug":"amanhecer-na-terra-de-casimiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/amanhecer-na-terra-de-casimiro\/","title":{"rendered":"Amanhecer na terra de Casimiro"},"content":{"rendered":"<p>Acordar com o sol nascendo pois, no quarto onde te colocaram, as janelas n\u00e3o t\u00eam cortinas. Sair do quarto com cuidado para n\u00e3o acordar as meninas. Passar na ponta dos p\u00e9s pela sala, e se questionar, pela milion\u00e9sima vez, como algu\u00e9m consegue construir uma sele\u00e7\u00e3o de CDs como a exposta no rack.<\/p>\n<p>Abrir a porta da geladeira, encher um copo de \u00e1gua, e notar que conseguiram, conseguimos(?), acabar com toda a cerveja de ontem. Ir pro quintal e usar o banheiro de fora, pois o da casa n\u00e3o tem a press\u00e3o de \u00e1gua necess\u00e1ria para suas necessidades matinais.<\/p>\n<p>Ligar o computador da garagem e colocar, baixinho, numa web r\u00e1dio local. Ler um resto de jornal velho que algu\u00e9m abandonou numa cadeira de praia, enquanto fuma o primeiro cigarro do dia. Apagar o cigarro, terminar de ler as not\u00edcias vencidas e fechar os olhos curtindo a ecl\u00e9tica sele\u00e7\u00e3o musical. Sentir-se em paz. Sentir-se vivo. Sentir-se com fome.<\/p>\n<p>Voltar pro quarto pra pegar carteira, celular e chaves e sair de casa em busca de alimento.<\/p>\n<p>Caminhar pelo prai\u00e3o vazio sob uma garoa invis\u00edvel, ou ser\u00e1 a maresia?, contando os quiosques abandonados e as casas orf\u00e3s de turistas. Entrar na rua de esquina da padaria e caminhar at\u00e9 a rodovia. Se assustar com os caminh\u00f5es que passam como foguetes a caminho de lugar nenhum levando cargas fantasmas.<\/p>\n<p>Entrar na padaria na esperan\u00e7a de encontrar algo diferente e se deparar com o mesmo de sempre. P\u00e3o; mortadela; aquele queijo minas, que se finge canastra; e o p\u00e3o de queijo ruim que alimenta o cora\u00e7\u00e3o. Complementar a culpa gulosa na forma de refrigerantes e isot\u00f4nicos para curar as ressacas dos anfitri\u00f5es e convidados.<\/p>\n<p>Voltar, cheio de pregui\u00e7a, pela beira da estrada, vendo se esbarra com um lugar onde comprar um jornal para fingir que se importa com o que est\u00e1 acontecendo no mundo. Achar apenas o Valor Econ\u00f4mico e comprar assim mesmo. Pelo menos ele \u00e9 grosso e vai matar seu tempo at\u00e9 a hora do churrasco.<\/p>\n<p>Chegar perto da casa e ouvir os cachorros soltos, anunciando que a casa j\u00e1 acordou e os libertou do canil. Abrir o port\u00e3o com cautela, pros cachorros n\u00e3o fugirem, e encontrar todos na mesa esperando pelo caf\u00e9 que, sabiam, voc\u00ea iria trazer.<\/p>\n<p>Beijos e abra\u00e7os de bom dia. Algu\u00e9m aumenta o volume da r\u00e1dio e uma m\u00fasica que faz parte da hist\u00f3ria de todos toca. Voc\u00eas a ouvem em sil\u00eancio, enquanto enchem a boca de refrigerante, p\u00e3o, mortadela e amor. O p\u00e3o de queijo continua ruim, a casa continua hospitaleira.<\/p>\n<p>Amanheceu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordar com o sol nascendo pois, no quarto onde te colocaram, as janelas n\u00e3o t\u00eam cortinas. Sair do quarto com cuidado para n\u00e3o acordar as meninas. Passar na ponta dos p\u00e9s pela sala, e se questionar, pela milion\u00e9sima vez, como algu\u00e9m consegue construir uma sele\u00e7\u00e3o de CDs como a exposta no rack. 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