{"id":4971,"date":"2021-07-16T05:34:11","date_gmt":"2021-07-16T08:34:11","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=4971"},"modified":"2021-07-16T05:34:11","modified_gmt":"2021-07-16T08:34:11","slug":"as-outras-lgaertner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/as-outras-lgaertner\/","title":{"rendered":"As outras lgaertner"},"content":{"rendered":"<p>Como numa linha cruzada digital, vez ou outra,  eu recebo e-mails destinados a duas mulheres que eu nunca vi na vida, uma americana e outra alem\u00e3. Aparentemente existe um sufixo googlemail ou algo similar que se confunde com o meu gmail e, pimba!, toda semana eu recebo mensagens direcionadas a elas.<\/p>\n<p>Quando a confus\u00e3o come\u00e7ou eu at\u00e9 tentei ser polido. Avisava que o e-mail veio pro lugar errado e evitava prestar aten\u00e7\u00e3o ao conte\u00fado. Mas, voc\u00eas v\u00e3o me entender, era imposs\u00edvel n\u00e3o ler. Acabava que a gente, quer dizer, eu lia os e-mails e ficava imaginando suas vidas. <\/p>\n<p>A americana se divorciando, sim, eu recebi os <em>divorce papers<\/em> dela; buscando empregos em diversos estados diferentes para refazer a vida, enquanto vivia um conflito intenso com o treinador de baseball do Mark, o filho dela. Seria essa uma rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio? Eu n\u00e3o tinha ind\u00edcios suficientes para saber.<\/p>\n<p>A alem\u00e3, provavelmente aposentada, sempre envolvida com diversos grupos beneficentes; reformando a cozinha, duas vezes; e tirando f\u00e9rias com a fam\u00edlia nas Bermudas e no Tahiti. Dava quase para ver suas coxas brancas e reluzentes sob o sol inclemente de resorts cafonas ficando vermelhas como camar\u00f5es cozidos.<\/p>\n<p>Acabou que estabeleci uma rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha como, nem queria, entrar em contato com elas, mas a gente, quer dizer, eu comecei a me afei\u00e7oar e me preocupar com essas duas senhoras. <\/p>\n<p>Ficava com raiva do t\u00e9cnico que n\u00e3o deixava o pequeno Mark jogar, da mesma forma que ficava preocupado com os custos alt\u00edssimos do m\u00e1rmore que ia ser colocado na cozinha. Mas ao mesmo tempo que sentia um tipo de, sei l\u00e1, carinho, eu me frustrava com elas, como quando a americana se inscreveu nos <em>mailing lists<\/em> da National Rifle Association e do Make America Great Again e a alem\u00e3 recebia in\u00fameras mensagens da filha pedindo que a perdoasse; mensagens que, pelo jeito, mesmo que as recebesse, ela n\u00e3o iria responder.<\/p>\n<p>Essa semana a nossa rela\u00e7\u00e3o sofreu um certo choque. A americana recebeu um e-mail de um laborat\u00f3rio com um link para os resultados do seu teste de CoVid. Fiquei tentado a abrir, mas respeitei, pelo menos dessa vez, a sua privacidade. Ser\u00e1 que ela est\u00e1 bem? Na hora lembrei que h\u00e1 muito n\u00e3o recebo mensagens para a alem\u00e3. Ser\u00e1 que ela passou por essa pandemia inc\u00f3lume?<\/p>\n<p>Assim, como parte dessa fam\u00edlia de lgaertners, percebi como comecei a me solidarizar com essas mulheres sem rosto e que nunca irei conhecer. Por\u00e9m, de m\u00e3os atadas, a \u00fanica coisa que posso fazer \u00e9 desejar \u00e9 que me cheguem mensagens positivas sobre e para elas.<\/p>\n<p>Que o pequeno Mark esteja arrasando como arremessador, que ela tenha conseguido mudar para um bom estado e que esteja num \u00f3timo emprego. Que, em breve, ela possa receber na sua cozinha belamente reformada a filha para um jantar onde, depois de passarem pelo susto da pandemia, coloquem seus conflitos de lado e lembrem que mais importante que as m\u00e1goas passadas s\u00e3o os la\u00e7os que unem a todos n\u00f3s. <\/p>\n<p>Mesmo que esses la\u00e7os sejam apenas o mesmo nome de usu\u00e1rio numa conta de e-mail. For\u00e7a, lgaertner.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como numa linha cruzada digital, vez ou outra, eu recebo e-mails destinados a duas mulheres que eu nunca vi na vida, uma americana e outra alem\u00e3. Aparentemente existe um sufixo googlemail ou algo similar que se confunde com o meu gmail e, pimba!, toda semana eu recebo mensagens direcionadas a elas. 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