{"id":5017,"date":"2021-07-24T18:40:08","date_gmt":"2021-07-24T21:40:08","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5017"},"modified":"2021-07-24T18:40:08","modified_gmt":"2021-07-24T21:40:08","slug":"meu-processo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/meu-processo\/","title":{"rendered":"Meu Processo"},"content":{"rendered":"<p>Tenho ideias. \u00c0 be\u00e7a. Umas me enchem mais o saco que outras. Essas, mais insistentes, mesmo que n\u00e3o pare\u00e7am t\u00e3o boas, acabam vencendo a corrida de prioridades e me comprometo com elas. Mas, confesso, sou um consorte relapso. <\/p>\n<p>Eu as deixo anotadas em cadernos, falo delas com os amigos nos botequins, mas demoro pra me mover. Poderia dizer que estou fazendo pesquisa, mas n\u00e3o se parece nada com isso. \u00c9 uma esp\u00e9cie de procrastina\u00e7\u00e3o gourmet, durante a qual esbarro continuamente com a ideia sem a m\u00ednima ideia do que estou fazendo.<\/p>\n<p>Mas as ideias s\u00e3o espertas. Elas me conhecem melhor do que eu mesmo e continuam insistindo. \u00c0s vezes elas se juntam e vem de bando; vez ou outra, uma morre esquecida depois de dois par\u00e1grafos; outras, mais malandras, se aglutinam e viram uma terceira coisa que eu n\u00e3o sei bem o que \u00e9. Elas se movimentam enquanto eu claramente fico na retranca. Enfim, um dia, depois de tanta press\u00e3o, acabo fisgado.<\/p>\n<p>Nessa hora, acuado, eu escrevo. Compulsivamente. T\u00e3o compulsivamente que nem sinto o tempo passar. Quando estou exausto, paro; leio, releio, e n\u00e3o gosto de nada. N\u00e3o me admira. Nesse primeiro encontro, nada foi planejado. Sorvete de sabor indefinido sempre tem gosto ruim.<\/p>\n<p>Nessas horas lembro que escrever, pra mim, n\u00e3o \u00e9 dar forma a ideias. Escrever, pra mim, \u00e9 tentar descobrir o que eu penso a respeito de algo. A\u00ed, cheio de autoindulg\u00eancia, eu leio, releio, e tento descobrir o que eu penso a respeito do que eu acho que eu escrevi a respeito. E quando encontro algum fiapo de sentido, eu me agarro a ele e reescrevo. Uma, duas, muitas vezes.<\/p>\n<p>Uma hora eu desisto. Seja porque cansei de revisar ou  porque cheguei a conclus\u00e3o que nunca ficar\u00e1 bom mesmo; e abandono o texto em lugares p\u00fablicos como um \u00f3rf\u00e3o indesejado. Em mensagens e postagens na internet; em livros eletr\u00f4nicos que ningu\u00e9m l\u00ea; em fanzines de uma p\u00e1gina distribu\u00eddos na pra\u00e7a na frente da minha casa,<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando me livro desse filho sempre maldito, tudo acaba e eu me acabo. Volto pra casa, me deito sozinho no quarto escuro, cheio de saudades do momento da cria\u00e7\u00e3o e lamentando n\u00e3o ter feito mais essa ou aquela altera\u00e7\u00e3o; at\u00e9 que eu me conformo, e, enfim, descanso. Mas n\u00e3o dura muito. Logo, eu sinto, chegar\u00e1 uma pr\u00f3xima ideia, uma pr\u00f3xima inquieta\u00e7\u00e3o da qual, novamente, n\u00e3o vou conseguir me livrar.<\/p>\n<p>E, como num seriado ruim dos anos setenta, aparece a tem\u00edvel legenda <em>To be continued&#8230;<\/em> <\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KoYB-F8yY4A\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">Fazer o qu\u00ea?<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho ideias. \u00c0 be\u00e7a. Umas me enchem mais o saco que outras. Essas, mais insistentes, mesmo que n\u00e3o pare\u00e7am t\u00e3o boas, acabam vencendo a corrida de prioridades e me comprometo com elas. Mas, confesso, sou um consorte relapso. 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