{"id":5050,"date":"2021-08-06T16:59:40","date_gmt":"2021-08-06T19:59:40","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5050"},"modified":"2021-08-06T16:59:40","modified_gmt":"2021-08-06T19:59:40","slug":"um-necrologio-urbano-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/um-necrologio-urbano-do-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"Um necrol\u00f3gio urbano do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p>Nasci na S\u00e3o Clemente, esquina com a Sorocaba, numa maternidade que n\u00e3o existe mais. Hoje \u00e9 um daqueles pr\u00e9dios  quase brutalistas dos anos 80, com muitas garagens e poucas pessoas.<\/p>\n<p>Aprendi a andar e falar na Gustavo Sampaio, num quarto e sala com vista para a Atl\u00e2ntica. Nasci com o p\u00e9 chato e caminhava na praia para curar. Curei. Depois de jovem e adulto(?) voltei a esse pr\u00e9dio para certas incurs\u00f5es bizarras e tamb\u00e9m pois tinha amigos que moravam l\u00e1. Me surpreendi com a imprecis\u00e3o de minhas mem\u00f3rias. F\u00edsica e Moralmente.<\/p>\n<p>Na primeira inf\u00e2ncia estudei no Leblon em um col\u00e9gio experimental. Voltava a p\u00e9 pela praia com a minha m\u00e3e. Frequentei a pra\u00e7a do Lido antes de ser gradeada, a Ary Barroso, o Clube Radar e o Parque Peter Pan. Ia ao extinto cinema Ryan; ao, hoje fechado, Roxy; e ao, tamb\u00e9m fechado, Cinema Um. No seu lugar hoje tem um Hortifruti. Comecei a formar o meu paladar no Pr\u00edncipe das Peixadas, que hoje \u00e9 um Joaquina, e no Cervantes, em coma por conta da pandemia.<\/p>\n<p>Na volta de uma visita ao meu av\u00f4 em Campina Grande, descobri que tinha sido mudado pro Flamengo, para um pr\u00e9dio que ainda existe; e fui matriculado no col\u00e9gio Bennett que virou uma  universidade Univeritas. N\u00e3o gostei da mudan\u00e7a e sempre quis sair de l\u00e1, o que s\u00f3 foi acontecer 17 anos depois. <\/p>\n<p>Enquanto isso n\u00e3o acontecia, eu ia at\u00e9 onde minhas pernas permitiam. Andava de bicicleta nas cal\u00e7adas no entorno do pr\u00e9dio, onde ca\u00ed e tomei seis pontos no queixo; comprava gibi na banca do seu Ant\u00f4nio, j\u00e1 falecido; e ia \u00e0 papelaria L\u00edder comprar isopor e jogos de tabuleiro. A papelaria ainda existe, mas n\u00e3o tem esse nome, nem os mesmos donos.<\/p>\n<p>Aprendi a ler e me colocaram para estudar num col\u00e9gio em cima de um morro na rua Dom Gerardo, pertinho da pra\u00e7a Mau\u00e1. A rotina era pesada. Sa\u00eda de casa \u00e0s 7 da manh\u00e3 e voltava \u00e0s 6 da noite. N\u00e3o me sobrava muito tempo pra ir a lugar algum, a n\u00e3o ser nos fins de semana. A\u00ed os destinos eram o cinema S\u00e3o Luiz, na \u00e9poca uma s\u00f3 sala, e o cinema Largo do Machado, com duas salas, hoje usurpadas por um culto pentecostal. O programa cin\u00e9filo sempre terminava no McDonalds ou nas sorveterias Babuska e Sem nome. Hoje n\u00e3o tem mais sorvete. S\u00f3 uma Hering e uma Leader Magazine.<\/p>\n<p>Me tornei adolescente e ganhei quil\u00f4metros de coleira. Ia \u00e0 Biblioteca Nacional e \u00e0 Machado de Assis; aos sebos da pra\u00e7a Tiradentes; \u00e0s livrarias do Largo do Machado; e aos cinemas da Tijuca. Nenhum deles sobreviveu. Quer dizer, os sebos, as livrarias e os cinemas. As Bibliotecas ainda est\u00e3o l\u00e1. Por enquanto.<\/p>\n<p>O tempo passou e ganhei a noite. Caminhava sem destino pelo Catete e Flamengo, com breves paradas no Caneco 2, que virou um restaurante \u00e1rabe, e no Machad\u00e3o, transformado numa loja de vitaminas. L\u00e1 a gente ia para conversar sobre a vida, tomar chope, comer casquinha de siri e tomar caldo verde. D\u00e1 saudades.<\/p>\n<p>Entrei na faculdade e me mudei espiritualmente para Copacabana. Quando n\u00e3o estava na sala de aula, primeiro na G\u00e1vea, depois na praia Vermelha, eu ia pra Copa pra beber nos bares da orla, da pra\u00e7a do Lido e no Cervantes, al\u00e9m de fazer amizades das quais n\u00e3o me orgulho. Ia tamb\u00e9m \u00e0s saudosas boates, Galeria, Basement e 1904, e \u00e0s diversas livrarias que n\u00e3o existem mais no bairro.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o ia a outros lugares, frequentava o Mosca Feliz na Lauro Muller, que se mudou para a Lapa, e de nome para n\u00e3o ser reconhecido, e curti umas noites nas boates da Visconde Silva, onde eu n\u00e3o me encaixava mas era bem acolhido.<\/p>\n<p>Um dia me vi sozinho em casa, todos da fam\u00edlia tinham se mudado, e resolvi abandon\u00e1-la tamb\u00e9m. Fui para a Tijuca onde tirei um sab\u00e1tico de 2 anos, sem passar dos limites da Marqu\u00eas de Valen\u00e7a e da S\u00e3o Francisco Xavier. Por obra e gra\u00e7a de entrar no mercado de trabalho, consegui voltar pra Copa onde fiquei tamb\u00e9m circunscrito a poucos quarteir\u00f5es, nesse caso em torno da Djalma Ulrich, dividindo meu tempo entre o botequim Vedete e a creperia Yonza. N\u00e3o sei que fim eles tiveram. <\/p>\n<p>A idade adulta chegou e tornou o Rio um borr\u00e3o geogr\u00e1fico para mim. Morei em Ipanema e em Botafogo, mas nesse per\u00edodo frequentei poucos lugares de nota como o Adriano na Real Grandeza, que ainda sobrevive, gra\u00e7as a Deus; mas, no mais, ficava dentro de casa. Esse afastamento da cidade chegou a um ponto em que a abandonei.<\/p>\n<p>Fiquei 4 belos anos em BH. N\u00e3o farei coment\u00e1rios, pois o necrol\u00f3gio \u00e9 do Rio e n\u00e3o de Belo Horizonte. E os meus amigos que ainda moram l\u00e1 dizem que ela merecia um necrol\u00f3gio \u00e0 parte. Acabei voltando, mas a rela\u00e7\u00e3o com o Rio azedou.  <\/p>\n<p>Voltei para Copacabana em plena prepara\u00e7\u00e3o para as Olimp\u00edadas. N\u00e3o foi uma vis\u00e3o bonita. Uma cidade cheia de tapumes e com lugares tradicionais sendo transformados em armadilhas para turistas. Alguns lugares acabaram fechando pois n\u00e3o atendiam \u00e0 vis\u00e3o pasteurizada que o Rio errou em seguir. Mais uma vez acabei me fechando em poucos quarteir\u00f5es para criar rela\u00e7\u00f5es mais humanas e significativas. N\u00e3o queria ser cliente, mas, sim, fregu\u00eas.<\/p>\n<p>Por obra e gra\u00e7a da crise multifatorial que assola o pa\u00eds, me mudei pra pra\u00e7a S\u00e3o Salvador. Confesso que inicialmente achei estranho, mas me adaptei bem. Acabei fazendo amigos no Salvatore Caf\u00e9; comecei um fanzine local de humor pol\u00edtico; mas assisti ao fechamento de neg\u00f3cios cl\u00e1ssicos, como a papelaria Macris, que deu lugar a, Deus nos perdoe, uma hamburgueria gourmet.<\/p>\n<p>Agora, esperando o momento certo para sair novamente \u00e0s ruas, me questiono o que encontrarei nesta terra devastada. Tive a sorte de crescer numa cidade, mesmo em crise permanente, com hist\u00f3ria. A pandemia e as p\u00e9ssimas escolhas de nossos eleitores destru\u00edram tudo que havia, sem deixar nada no lugar. Talvez haja uma maneira de olhar positivamente para isso; talvez seja o momento de construir a nova hist\u00f3ria da cidade. Afinal viver no espa\u00e7o f\u00edsico \u00e9 um constante participar de vel\u00f3rios e nascimentos de uma arquitetura urbana que nos fala sobre quem somos e quem queremos ser. Espero que dessa vez n\u00e3o nos esque\u00e7amos do que veio antes de n\u00f3s, nem repitamos, mais uma vez, os erros com os quais n\u00e3o cansamos de desaprender. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nasci na S\u00e3o Clemente, esquina com a Sorocaba, numa maternidade que n\u00e3o existe mais. Hoje \u00e9 um daqueles pr\u00e9dios quase brutalistas dos anos 80, com muitas garagens e poucas pessoas. Aprendi a andar e falar na Gustavo Sampaio, num quarto e sala com vista para a Atl\u00e2ntica. 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