{"id":5113,"date":"2021-08-20T10:41:13","date_gmt":"2021-08-20T13:41:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5113"},"modified":"2021-08-24T12:35:06","modified_gmt":"2021-08-24T15:35:06","slug":"filho-da-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/filho-da-ficcao\/","title":{"rendered":"Filho da fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Toda noite, antes de dormir, minha filha pede para eu contar uma hist\u00f3ria sobre o av\u00f4 que ela n\u00e3o conheceu e j\u00e1 est\u00e1 morto h\u00e1 20 anos. Meu pai. O que conto a ela? Conto suas mentiras? H\u00e1 outra op\u00e7\u00e3o? Mentiras foram tudo o que ouvi.<\/p>\n<p>Segundo me contou, ele nasceu em Santana do Livramento h\u00e1 quase 100 anos, no dia 24 ou 25 de dezembro. Nunca se decidia em qual. Dependendo da fonte, foi no ano de 1922, 1924 ou, at\u00e9, 1926. Ele nunca confirmou pois ele mesmo talvez n\u00e3o soubesse. Dizia que nasceu exatamente na fronteira entre o Brasil e o Uruguai. Se tivesse nascido na cozinha, gostava de lembrar, seria uruguaio. Nasceu no quarto. Brasileiro.<\/p>\n<p>Da sua inf\u00e2ncia, lembrava pouco. Aleijou uma tia por causa de uma brincadeira maldosa. Amarrou uma corda na cadeira em que ela ia sentar e a puxou exatamente quando ela largou o peso do corpo. Improv\u00e1vel. Teve um doberman que gostava de soltar quando recebiam visitas inconvenientes, como um vendedor de j\u00f3ias que foi obrigado a se pendurar em um lustre para n\u00e3o ser mordido. Poss\u00edvel, considerando que mesmo velho tinha a mania de aparecer de cueca na sala quando queria que as visitas fossem embora. E, com raiva por n\u00e3o poder ir ao circo, abriu a jaula do le\u00e3o e colocou a cidade em p\u00e2nico. Mentira. Mas gosto de pensar que foi verdade.<\/p>\n<p>Filho de um coronel que morreu cedo e de uma dona de casa que, ouvi dizer, morreu de cirrose, ficou \u00f3rf\u00e3o na tenra inf\u00e2ncia. Ca\u00e7ula de quatro irm\u00e3s, ele foi enviado ao Rio para morar com tios e, assim que teve idade, foi colocado interno no Col\u00e9gio Militar.<\/p>\n<p>O tio pelo jeito n\u00e3o gostava de suas brincadeiras. Meu pai costumava vestir as roupas do tio e fingia ser um vizinho de visita, ou ser o padeiro ou o leiteiro fazendo entregas. A sua brincadeira preferida era se vestir de mendigo e vender jornais do dia anterior no bonde. Um dia esbarrou com o tio. No susto, pulou do bonde em movimento e quase foi atropelado. Dizia.<\/p>\n<p>Entrou no col\u00e9gio militar e a\u00ed, sua hist\u00f3ria, como boa parte das hist\u00f3rias das figuras folcl\u00f3ricas do s\u00e9culo XX, come\u00e7ou a se misturar com a hist\u00f3ria do Brasil e do mundo.<\/p>\n<p>Segundo ele, t\u00ednhamos, temos, um parentesco distante com Get\u00falio Vargas. Por conta disso, contava, foi convidado a discursar para o presidente em uma de suas visitas ao col\u00e9gio. O problema \u00e9 que o odiava. De todo o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha explica\u00e7\u00e3o, nem hist\u00f3ria familiar ou um claro posicionamento pol\u00edtico que justificasse o sentimento. Cheio de raiva, assumiu o dever do discurso e escreveu dois. Um apresentou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio e foi aprovado; o outro, ilegal, leu na frente do presidente, e de todos alunos e professores, e acabou preso por duas semanas com apenas 12 anos. Estava se tornando homem.<\/p>\n<p>Sexualmente teve a sua inicia\u00e7\u00e3o com as polacas da zona do mangue. Me confidenciou que nunca tirava as meias no ato, pois ficou com trauma. Em uma das suas primeiras vezes, enquanto se despia, fez men\u00e7\u00e3o de tirar as meias e foi impedido pela polaca cheia de sotaques e erres:<\/p>\n<p><em>&#8220;Prra que tirarr meia? P\u00e9 n\u00e3o foderr.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Parece uma hist\u00f3ria desnecess\u00e1ria mas \u00e9 um detalhe importante na sua constitui\u00e7\u00e3o emocional, na medida em que fica claro que aprendeu sobre o sexo, e de uma maneira torta, sobre o amor, com mulheres que ele dizia, o que imagino ser um enorme exagero, lerem o jornal durante o ato.<\/p>\n<p>Em paralelo, nos fins de semana, vestia o uniforme de gala do col\u00e9gio e penetrava nas festas tijucanas, aparentemente protegido pelo personagem. Por\u00e9m foi pego in\u00fameras vezes, mas nunca punido.<\/p>\n<p>Com essa mesma ilus\u00e3o de sorte e direito adquirido, ele foi para a segunda guerra, nas suas palavras, \u201cpara derrubar Get\u00falio\u201d. Outros dizem que ele foi fazer dinheiro, o que explica ele n\u00e3o fumar e pedir cigarros para vender aos italianos.<\/p>\n<p>No seu tempo de combate, se desligou do Brasil. Chegou a fingir a pr\u00f3pria morte e ter uma missa de s\u00e9timo dia rezada, para se livrar de uma namorada. \u00d3bvio que esbarrou com ela na volta ao Brasil, mas, espertamente, fingiu ser seu pr\u00f3prio irm\u00e3o g\u00eameo para escapar de uma briga. \u00c9 dif\u00edcil de acreditar que algu\u00e9m cairia nessa hist\u00f3ria, mas se voc\u00ea o conhecesse, veria como ele tinha a l\u00e1bia necess\u00e1ria para fazer algu\u00e9m acreditar nisso.<\/p>\n<p>Por toda a sua vida, ele entrava e sa\u00eda de situa\u00e7\u00f5es loucas com extrema facilidade, talvez mais por confian\u00e7a do que por habilidade. Por\u00e9m, quando eu nasci ficou, complicado manter uma hist\u00f3ria coerente.<\/p>\n<p>Se fosse um sujeito calado, talvez eu tivesse ficado iludido por toda a minha vida; mas era um contador de hist\u00f3rias apaixonado pela pr\u00f3pria voz e pelo incr\u00edvel personagem que criou. Assim, um dia, quando eu tinha doze anos, o conflito de contexto entre as suas sedutoras fantasias e a mon\u00f3tona realidade explodiu na sua cara. Me descobri filho de uma fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca o confrontei, mas ele sabia que eu sabia. E, assim, vivemos por mais 15 anos. Ele se retraiu. N\u00e3o contava as hist\u00f3rias que o fizeram famoso com a mesma verve; tentou se matar, mais como teatro do que como verdade; e exacerbou suas tend\u00eancias hipocondr\u00edacas inventando doen\u00e7as novas toda semana. Lembro de assistir, escondido atr\u00e1s das cortinas, ele caminhando com dificuldade apoiado numa bengala, s\u00f3 para atravessar a rua correndo quando achava que n\u00e3o estava sendo observado.<\/p>\n<p>Um dia uma doen\u00e7a de verdade o abateu e feriu justamente o que achava ter de melhor: a masculinidade torta que anos de col\u00e9gio militar e fanfarronice lhe colocaram na cabe\u00e7a. Durante a convalesc\u00eancia que levou \u00e0 sua morte, eu, sob tratamento psicoter\u00e1pico, tentei confront\u00e1-lo sobre a verdade. N\u00e3o tive sucesso. Nem ele devia saber mais o que era real ou n\u00e3o. Nos afastamos.<\/p>\n<p>Ele morreu distante de mim, sem consci\u00eancia de quem foi e de quem inventou que era. Quando quis vel\u00e1-lo, fui expulso por seus parentes do cemit\u00e9rio. Uma hist\u00f3ria curiosa que parece bem com as que costumava contar.<\/p>\n<p>Vez ou outra, quando sua neta me pede hist\u00f3rias sobre ele, eu penso em tudo isso e me pergunto por que n\u00e3o tenho mais fotos ou documentos que possam comprovar a sua exist\u00eancia. Eu busco, busco, mas n\u00e3o acho. Tudo o que restou dele foram as hist\u00f3rias, ent\u00e3o, s\u00f3 me resta cont\u00e1-las a conta gotas, at\u00e9 que elas deixem de ser suas, de ser minhas e se tornem de sua neta e de todos que as ouvir\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase 100 anos ele nasceu, mas sua vida \u00e9 mais forte hoje do que nunca. Ele deixou de ser verdade, chata e previs\u00edvel, e virou o que sempre quis ser: fic\u00e7\u00e3o. E eu, seu filho, gra\u00e7as a ele, virei um ficcionista.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4458\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura.jpg\" alt=\"\" width=\"984\" height=\"213\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura.jpg 984w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-300x65.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-768x166.jpg 768w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mundial_escritura-720x156.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda noite, antes de dormir, minha filha pede para eu contar uma hist\u00f3ria sobre o av\u00f4 que ela n\u00e3o conheceu e j\u00e1 est\u00e1 morto h\u00e1 20 anos. Meu pai. O que conto a ela? 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