{"id":5134,"date":"2021-08-27T03:58:13","date_gmt":"2021-08-27T06:58:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5134"},"modified":"2021-08-27T07:00:56","modified_gmt":"2021-08-27T10:00:56","slug":"a-maquina-do-nao-impossivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-maquina-do-nao-impossivel\/","title":{"rendered":"A m\u00e1quina do (n\u00e3o) imposs\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>Um dia, umas semanas atr\u00e1s, na volta de buscar minha filha no col\u00e9gio, paramos na loja de brinquedos e l\u00e1 estava ela: a m\u00e1quina. Voc\u00eas conhecem a m\u00e1quina, todo mundo conhece a m\u00e1quina. Uma grande caixa retangular; a parte inferior de metal, em geral pintada de vermelho; a parte superior envidra\u00e7ada; na frente, na altura da cintura, um joystick e um coletor de notas e moedas; e dentro dela, voc\u00eas sabem, uma garra de metal e uma enorme quantidade de bichos de pel\u00facia. Pequenos e grandes; coloridos e engra\u00e7ados; fofos e tentadores. Tremi.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 conhecia a m\u00e1quina. Encontro com ela desde os anos 90. Nem sempre de forma amistosa. A primeira vez, nunca vou esquecer, foi no Barra Shopping. Em vez de ir jogar no fliperama, vi um pessoal lutando contra ela, e por l\u00e1 parei. E n\u00e3o \u00e9 porque goste de bichos de pel\u00facia. N\u00e3o gosto. S\u00f3 me senti desafiado. Todo mundo jogava uma ou duas moedas e sa\u00eda revoltado dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Essa m\u00e1quina \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Me apaixonei.<\/p>\n<p>A dificuldade assumida, a desist\u00eancia alheia, a sensa\u00e7\u00e3o de me jogar obsessivamente atr\u00e1s de um objetivo que n\u00e3o me interessava s\u00f3 pra provar que era poss\u00edvel, tudo na m\u00e1quina me dizia: fui criada pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>Comecei como todo mundo. Comprei umas poucas fichas, tentei, n\u00e3o consegui, me frustrei e sa\u00ed revoltado. Mas, ao contr\u00e1rio dos outros, eu voltei. Uma, duas, v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>A minha obsess\u00e3o em venc\u00ea-la era t\u00e3o forte que, lembro, se formou uma plat\u00e9ia atr\u00e1s de mim, o que s\u00f3 aumentou a minha determina\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o era mais um desafiante solit\u00e1rio, eu era o representante do sonho de todo um povo.<\/p>\n<p>Enfim, depois de gastar quase todo o meu dinheiro, consegui. A garra se lan\u00e7ou naquele mar de pel\u00facia e resgatou de l\u00e1 um pequeno urso azul que dei a uma menina que acompanhava a minha batalha. Recebi de recompensa apenas um beijo na bochecha e o sentimento de ter feito algo que todos consideravam imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, toda vez que a encontro, \u00e9 a mesma coisa. Eu a desafio e, eventualmente, depois de muita persist\u00eancia, a ven\u00e7o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, desde que a minha filha nasceu, eu n\u00e3o a via. At\u00e9 esse dia.<\/p>\n<p>Depois de assistir a alguns pais saindo do col\u00e9gio com seus filhos tentarem venc\u00ea-la e repetirem o mesmo comportamento que vejo desde a primeira vez que a encontrei, minha filha pediu:<\/p>\n<p>&#8211; Posso jogar na m\u00e1quina, papai?<\/p>\n<p>Como dizer n\u00e3o? Como dizer sim?<\/p>\n<p>Fiquei dividido. Um lado meu queria agrad\u00e1-la, mas outro n\u00e3o queria v\u00ea-la frustrada. Um lado meu queria jogar junto com ela, mas o outro tinha medo que ela ficasse t\u00e3o obcecada quanto eu. Ela insistiu:<\/p>\n<p>&#8211; Papai, posso jogar?<\/p>\n<p>Cedi aos meus desejos mais primais e assenti. Mas,dessa vez, o desafio tinha um gosto diferente. Eu n\u00e3o s\u00f3 queria vencer a m\u00e1quina, eu precisava venc\u00ea-la.<\/p>\n<p>Esperei mais algumas pessoas afrouxarem a massa compacta de bichinhos dentro da m\u00e1quina, coloquei 5 moedas no coletor e instru\u00ed a minha filha. Ao inv\u00e9s de buscar o bicho que deseja, mais importante \u00e9 tentar os que s\u00e3o mais f\u00e1ceis de agarrar. Para essa escolha, a posi\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante que o tamanho ou o formato. Os bichos de cabe\u00e7a grande parecem f\u00e1ceis, mas, mesmo quando agarrados, caem com facilidade da garra. O ideal \u00e9 mirar nos que est\u00e3o na horizontal, de prefer\u00eancia com a barriga pra cima. E, estando nessa posi\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea tiver escolha, busque os mais ao centro da m\u00e1quina e os menores.<\/p>\n<p>Ela me olhou sem entender, mexeu a garra sem foco, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Vou tentar o polvinho.<\/p>\n<p>Um erro. A garra desceu, ficou bloqueada por uma parede compacta de outros bichos e mal arranhou a superf\u00edcie do bloco de pel\u00facia.<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e1quina maldita- a amaldi\u00e7oou.<\/p>\n<p>Fui obrigado a intervir e ensinar pelo exemplo. Minha m\u00e3o tocou o joystick e me senti como h\u00e1 30 anos atr\u00e1s. A eletricidade, a emo\u00e7\u00e3o, o prop\u00f3sito. Encontrei um burrinho de barriga pra cima. Levei a garra at\u00e9 em cima dele, chequei pelo lado se ela estava alinhada na outra coordenada, esperei a garra parar de balan\u00e7ar e apertei o bot\u00e3o. A garra desceu em c\u00e2mera lenta. Um pai nos assistia com o filho e comentou:<\/p>\n<p>&#8211; Filho, deixa essa m\u00e1quina pra l\u00e1, isso \u00e9 m\u00f3 engana trouxa.<\/p>\n<p>N\u00e3o me senti ofendido. Ele tinha raz\u00e3o. Era uma m\u00e1quina para trouxas, mas apenas os que n\u00e3o a conheciam podiam ser chamados assim.<\/p>\n<p>A garra alcan\u00e7ou a superf\u00edcie do mar de bichinhos e se encaixou diretinho em volta do burrinho. Quando ela come\u00e7ou a subir, o burrinho estava solidamente preso nela. Com alguns sobressaltos acompanhamos a garra vir at\u00e9 seu local inicial para se abrir e nos entregar nosso pr\u00eamio.<\/p>\n<p>Minha filha delirava, enquanto o pai que nos assistia estava boquiaberto. Deveria estar aprendendo alguma li\u00e7\u00e3o com isso, mas qual ela era? N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>A garra soltou o burrinho e n\u00f3s o pegamos. Minha filha o levantou acima da cabe\u00e7a como um trof\u00e9u, enquanto as pessoas se reuniam ao nosso redor.<\/p>\n<p>Uma m\u00e3e me ofereceu uma ficha para pegar um bichinho para a filha dela.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, assim \u00e9 muita press\u00e3o. Eu n\u00e3o sou m\u00e1gico pra conseguir pegar toda hora- declinei.<\/p>\n<p>Ainda t\u00ednhamos 3 fichas. Eu precisava continuar.<\/p>\n<p>&#8211; Papai, agora o polvinho- minha filha indicou.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 tinha pego um, achei de bom tom seguir a sua sugest\u00e3o. Mesmo n\u00e3o conseguindo peg\u00e1-lo, eu j\u00e1 sairia no lucro. Acionei a garra e fui atr\u00e1s do polvinho. Na primeira vez, o movi um pouco, mas quase n\u00e3o o tirei do lugar. Na segunda consegui levant\u00e1-lo, mas ele logo caiu e se virou exatamente como eu queria: de barriga pra cima. Na terceira, todos estavam aguardando a finaliza\u00e7\u00e3o da minha partida: minha filha, o pai descrente, a m\u00e3e pregui\u00e7osa, e seus filhos. A tens\u00e3o e o sil\u00eancio eram quase palp\u00e1veis. Movi a garra para a \u00faltima tentativa. Acertei sua posi\u00e7\u00e3o, conferi a coordenada, esperei a garra parar de balan\u00e7ar e apertei o bot\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa vez a garra foi como um raio. Caiu pesada sobre os bichinhos e, para a minha surpresa, agarrou n\u00e3o um, mas dois polvinhos. O povo, quer dizer, minha filha, o pai, a m\u00e3e, e seus filhos, aplaudiu entusiasmado. Quando minha filha os pegou, ofereceu um para cada uma das crian\u00e7as que nos assistiam.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea j\u00e1 me deu um, papai- se explicou sem necessidade.<\/p>\n<p>Minha miss\u00e3o estava cumprida. Como desafiante e como pai.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, quando voltamos do col\u00e9gio, sempre fa\u00e7o o m\u00e1ximo para evitar o caminho que passa pela loja de brinquedos. N\u00e3o por medo de falhar nem para evitar ceder \u00e0s minhas obsess\u00f5es. Por mais que fique tentado a me botar \u00e0 prova novamente, acho melhor manter a m\u00edstica que o imposs\u00edvel sempre pode ser poss\u00edvel. Sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia, umas semanas atr\u00e1s, na volta de buscar minha filha no col\u00e9gio, paramos na loja de brinquedos e l\u00e1 estava ela: a m\u00e1quina. Voc\u00eas conhecem a m\u00e1quina, todo mundo conhece a m\u00e1quina. 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