{"id":5170,"date":"2021-08-31T16:23:39","date_gmt":"2021-08-31T19:23:39","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5170"},"modified":"2021-08-31T16:25:53","modified_gmt":"2021-08-31T19:25:53","slug":"a-raquete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-raquete\/","title":{"rendered":"A raquete"},"content":{"rendered":"<p>Cansada de ser vampirizada, ela comprou a raquete.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea vai ver s\u00f3 como a nossa vida vai ficar melhor,\u201d proclamou a quem quisesse ouvir.<\/p>\n<p>No mesmo dia a colocou em a\u00e7\u00e3o. Desperta, no meio da madrugada, toda vez que sentia que estava para ser mordida, ligava a raquete e eletrocutava os insetos que a incomodavam.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o entendo esse \u00f3dio,\u201d eu protestava. \u201cOs bichos s\u00f3 est\u00e3o seguindo as suas naturezas\u201d<\/p>\n<p>Ela ignorava meus apelos zen-filos\u00f3fico-ambientalistas e, como um misto de Serena Williams e Thomas Edison, fazia mosquitos, muri\u00e7ocas e at\u00e9 um marimbondo desgarrado pegarem fogo e iluminarem a nossa noite como pirilampos suicidas.<\/p>\n<p>\u201cA-ha! Esse sangue voc\u00eas nunca mais v\u00e3o chupar,\u201d se regalava sobre o cad\u00e1ver de seus inimigos.<\/p>\n<p>Talvez como uma tentativa de reduzir o karma ocasionado por esse genoc\u00eddio, na mesma \u00e9poca, ela resolveu fazer compostagem. Num apartamento. Aos mosquitos, muri\u00e7ocas e aos marimbondos desgarrados se uniram pequenas mosquinhas sem clara identifica\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o odiadas quanto.<\/p>\n<p>Como durante o dia eu ficava em home office e ela no presencial, mesmo sabendo da minha avers\u00e3o \u00e0 raquete, ela me deu uma miss\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cQuando eu n\u00e3o estiver em casa, se as mosquinhas come\u00e7arem a proliferar, mete bronca. Dessas voc\u00ea consegue dar cabo.\u201d<\/p>\n<p>Demorei pra tentar, arrumava desculpas, tinha pena. Depois de muita press\u00e3o, cedi. Mas, ao contr\u00e1rio do que ela esperava, n\u00e3o dava conta.<\/p>\n<p>Depois de muitas tentativas, quando finalmente consegui matar a primeira, tomei um susto. Um estalo seco e uma fa\u00edsca diminuta; um grito silencioso e uma alma partindo. Tomei um susto, mas me senti poderoso. Peguei gosto e, assim, ia al\u00e9m do chamado do dever.<\/p>\n<p>Mesmo que elas n\u00e3o estivessem proliferando ou incomodando, ou mesmo vis\u00edveis, eu, em cada intervalo ou brecha no trabalho, ia atr\u00e1s delas. Buscava-as atr\u00e1s de portas, em c\u00f4modos onde n\u00e3o costumavam estar e at\u00e9 no corredor do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>\u201cAhhh,\u201d eu gemia de satisfa\u00e7\u00e3o quando elas pipocavam na raquete como fogos de artif\u00edcio em miniatura.<\/p>\n<p>A obsess\u00e3o ficou t\u00e3o forte que at\u00e9 quando ela estava em casa, eu andava pelos c\u00f4modos ca\u00e7ando as mosquinhas.<\/p>\n<p>\u201cEstou gostando de ver. Mas por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso agora?\u201d ela questionava.<br \/>\n\u201cU\u00e9, voc\u00ea n\u00e3o mandou?\u201d eu me defendia, fingindo compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Era mentira; eu descobri: essa era a minha natureza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cansada de ser vampirizada, ela comprou a raquete. \u201cVoc\u00ea vai ver s\u00f3 como a nossa vida vai ficar melhor,\u201d proclamou a quem quisesse ouvir. No mesmo dia a colocou em a\u00e7\u00e3o. Desperta, no meio da madrugada, toda vez que sentia que estava para ser mordida, ligava a raquete e eletrocutava os insetos que a incomodavam. 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