{"id":5208,"date":"2021-09-06T08:38:04","date_gmt":"2021-09-06T11:38:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5208"},"modified":"2021-09-06T08:38:04","modified_gmt":"2021-09-06T11:38:04","slug":"os-sinais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/os-sinais\/","title":{"rendered":"Os Sinais"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m entendia por que, apesar de todas as trag\u00e9dias, ela continuava lendo os jornais, mas ela tinha uma boa raz\u00e3o para faz\u00ea-lo. Perdidos entre os desmandos de ditadores; misturados aos sinais de crescimento da gan\u00e2ncia e da ignor\u00e2ncia; escondidos atr\u00e1s das mortes pela peste, pela fome e pela guerra provocadas pelos insens\u00edveis que n\u00e3o paravam de falar em Deus; l\u00e1 estavam eles: os sinais.<\/p>\n<p>&#8211; Apesar dos pesares, se a gente olhar direitinho, d\u00e1 pra encontrar coisas que nos dizem que a vida pode ser melhor- se defendia.<\/p>\n<p>Uma vez foi uma s\u00e9rie de not\u00edcias curtas sobre uma flor que s\u00f3 se abre uma vez ao ano. Primeiro, tr\u00eas linhas mencionando a expectativa pela sua abertura; depois, uma entrevista com um bi\u00f3logo do jardim bot\u00e2nico garantindo que ela abriria em breve; seguida de um informe meteorol\u00f3gico nada animador que poderia comprometer esse acontecimento; e, enfim, uma s\u00e9rie de fotos coloridas da flor aberta sendo visitada por muitas pessoas e uma reedi\u00e7\u00e3o da cr\u00f4nica do Rubem Braga, Flor de Maio. Como ela dizia, sinais.<\/p>\n<p>Outra vez foi a hist\u00f3ria de um cachorro perdido. Mostraram a mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade em busca do c\u00e3ozinho de uma crian\u00e7a; um cronista contou com leveza e emo\u00e7\u00e3o a biografia do c\u00e3o; houve um grande est\u00edmulo \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de animais abandonados; e, pra encerrar com um final feliz, noticiaram o reencontro do c\u00e3o com a crian\u00e7a para aquecer os nossos cora\u00e7\u00f5es. Como ela dizia, apesar das trag\u00e9dias, sinais.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que possa parecer, ela n\u00e3o era alienada. Ela lia o restante do jornal. Encarava o mal para depois terminar com o bem. Defendia, inclusive, que o jornal seguisse por uma linha de crescente otimismo, com as piores not\u00edcias na primeira p\u00e1gina e as boas not\u00edcias, os sinais, na \u00faltima.<\/p>\n<p>&#8211; Pra dar um pouquinho de esperan\u00e7a pra gente no final- justificava.<\/p>\n<p>E os sinais n\u00e3o vinham de fatos apenas. Podiam aparecer num poema escondido entre duas colunas policiais; numa tira em quadrinhos que quase ningu\u00e9m mais l\u00ea; ou mesmo num dos desafios das palavras cruzadas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabem a palavra que eu li hoje: temperan\u00e7a. A virtude de quem \u00e9 moderado. Aprendi hoje, t\u00e1 nas palavras cruzadas. Que beleza- se encantava.<\/p>\n<p>Um dia ela acordou mal, achou que fosse um resfriado, mas antes do sol se p\u00f4r sua vida se acabou, como se fosse uma das boas not\u00edcias que ela tanto amava ler.<\/p>\n<p>Os amigos contrataram o cronista da hist\u00f3ria do cachorro para escrever seu obitu\u00e1rio. Ele seguiu uma linha comparando a vida dela com a bela flor de maio que s\u00f3 se abre uma vez ao ano e como ela era ao mesmo tempo surpreendente e mal entendida. O texto ficou t\u00e3o bonito que muita gente participou de uma vaquinha e publicou a homenagem no jornal.<\/p>\n<p>Hoje, numa segunda-feira, sem boas not\u00edcias na economia, na pol\u00edtica, na sa\u00fade e at\u00e9 nos esportes, l\u00e1 estava ela no jornal, como uma p\u00e9rola. Representando ao mesmo tempo a tristeza que tivemos de perd\u00ea-la e a alegria de termos tido a oportunidade de conviver com ela. Ela, t\u00e3o fascinada pelas pequenas boas not\u00edcias da vida, como n\u00e3o podia deixar de ser, se tornou uma delas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m entendia por que, apesar de todas as trag\u00e9dias, ela continuava lendo os jornais, mas ela tinha uma boa raz\u00e3o para faz\u00ea-lo. 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