{"id":5294,"date":"2021-09-21T06:32:31","date_gmt":"2021-09-21T09:32:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5294"},"modified":"2022-04-04T16:36:49","modified_gmt":"2022-04-04T19:36:49","slug":"smart-city-gulliver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/smart-city-gulliver\/","title":{"rendered":"Smart City Gulliver"},"content":{"rendered":"<p>Ele gostava de se considerar um sujeito normal, e at\u00e9 seria, n\u00e3o fosse a sua altura. Quando chegava em qualquer ambiente, sempre t\u00edmido e discreto, imediatamente se destacava: era maior que os outros; muito maior que os outros. Em todos os sentidos.<\/p>\n<p>Com pequenos abalos s\u00edsmicos, seus passos, mesmo de chinelos, denunciavam a sua entrada; sua cabe\u00e7a e seus pensamentos, bem mais elevados que os nossos, quase chegavam \u00e0s nuvens; e suas palavras iniciais, vindas do c\u00e9u, ressoavam como um trov\u00e3o inesperado. Era assustador. At\u00e9 a gente come\u00e7ar a ouvir de verdade.<\/p>\n<p>Seguindo o trov\u00e3o inicial, daquela figura imponente, vinha uma fala mansa e amiga, t\u00e3o convidativa, que tornava irresist\u00edvel o desejo de abra\u00e7ar as suas pernas como se estiv\u00e9ssemos abra\u00e7ando uma \u00e1rvore. Assim, em volta desse sujeito enorme, nos congreg\u00e1vamos ritualmente para celebrar a amizade e a generosidade que ele inspirava em todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Talvez por isso, quando come\u00e7aram a discutir como tornar a cidade inteligente e intelig\u00edvel, ele foi convocado. Ele conhecia a tecnologia, sim, mas tamb\u00e9m tinha a empatia e a gentileza necess\u00e1rias para fazer essa transforma\u00e7\u00e3o na arquitetura e nos processos da cidade, e nas rela\u00e7\u00f5es e na emo\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o podia deixar de ser, foi um sucesso. A vida de todos melhorou e ele, que j\u00e1 tinha tantos amigos, se tornou amigo de todos.<\/p>\n<p>Apesar de tanta amizade ao seu redor, ele se sentia sozinho: lhe faltava um amor. E n\u00e3o era por falta de tentativa. Ele tentava, insistia, mas nenhuma das candidatas, estava \u00e0 sua altura. Sempre faltava algo. Ele at\u00e9 relevava as falhas das pretendentes, mas elas pr\u00f3prias se afastavam, sempre com o mesmo discurso: \u201cN\u00e3o sou boa o suficiente pra ele\u201d.<\/p>\n<p>O seu sucesso na amizade e o seu fracasso no amor se tornaram t\u00e3o lend\u00e1rios que ele come\u00e7ou a achar que eram quest\u00e3o de destino. At\u00e9 conhecer a Pequenina.<\/p>\n<p>Vinda de fora, a Pequenina era tamb\u00e9m uma especialista em cidades, mas, fora isso, era o seu oposto. Ao contr\u00e1rio dele, nunca usava chinelos, apenas botas; era solit\u00e1ria e feliz com isso; sua voz era baixa, mas incisiva; n\u00e3o conquistava aqueles ao seu redor, mas os dominava. Assim como controlava as pessoas, ela queria controlar as cidades. Enquanto a cidade dele era um encontro prum chopp de fim de tarde, a dela era uma rigorosa fun\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica. Inesperadamente, ele se apaixonou.<\/p>\n<p>Os amigos, que raramente faziam obje\u00e7\u00f5es aos seus relacionamentos, n\u00e3o se furtaram a dar sua opini\u00e3o: \u201cEla \u00e9 muito dura. Ela \u00e9 muito mandona. Ela \u00e9 muito&#8230;muito. Enfim, ela n\u00e3o tem nada a ver com voc\u00ea\u201d. E n\u00e3o tinha. Confrontado, ele se explicava: \u201cVai ver, por isso, eu acho que vai dar certo\u201d. E deu certo. E deu errado, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ele estava nas nuvens. Agora figurativamente. E ela parecia ser, com ele, o oposto do que era com os outros. Em suma, ele estava feliz.<\/p>\n<p>Mas, estranhamente, isso come\u00e7ou a comprometer o seu trabalho. A cidade, sem conseguir competir com esse novo amor, saiu dos trilhos, como uma crian\u00e7a abandonada. E, antes que viessem a questionar a qualidade da sua atua\u00e7\u00e3o, ele mesmo abdicou do seu cargo em nome da amada, que tamb\u00e9m assumiu o seu papel como planejadora da cidade.<\/p>\n<p>No dia em que abriu m\u00e3o da sua miss\u00e3o em nome do amor, ele e a Pequenina sa\u00edram para jantar com os amigos. Dele. Ao inv\u00e9s de choro e lamentos pelo trabalho perdido, ele comemorou como se finalmente estivesse saindo em dire\u00e7\u00e3o a uma viagem muito esperada. Os amigos, conformados com a sua escolha, se despediram deles e os deixaram sozinhos para celebrar a escolha do amor. Varando a madrugada, depois de consumarem repetidas vezes a sua escolha, dormiram.<\/p>\n<p>Com o sol nascendo, ele acordou feliz e esperan\u00e7oso, mas n\u00e3o a encontrou na cama. Tentou se mover, mas n\u00e3o conseguiu. Percebeu que, embaixo do len\u00e7ol, seu corpo estava preso por cordas. Gritou o nome da Pequenina, mas n\u00e3o teve resposta.<\/p>\n<p>Quer dizer, ouviu algo, mas era apenas um zumbido. Seguiu o som quase inaud\u00edvel com os olhos e a viu: a Pequenina. Ela, muito menor do que j\u00e1 era, quase do tamanho do seu dedo polegar, caminhava, nua, vestindo apenas as suas botas, sobre a sua barriga amarrada. Sob o seu olhar de surpresa, ela lentamente se aproximou do seu queixo, beijou sua boca ca\u00edda com seus l\u00e1bios diminutos e sorriu maquiav\u00e9lica: \u201cBem-vindo a Lilliput, Gulliver\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele gostava de se considerar um sujeito normal, e at\u00e9 seria, n\u00e3o fosse a sua altura. Quando chegava em qualquer ambiente, sempre t\u00edmido e discreto, imediatamente se destacava: era maior que os outros; muito maior que os outros. Em todos os sentidos. 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