{"id":5385,"date":"2021-10-13T17:52:17","date_gmt":"2021-10-13T20:52:17","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5385"},"modified":"2021-10-13T17:52:17","modified_gmt":"2021-10-13T20:52:17","slug":"a-gata-mais-linda-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-gata-mais-linda-do-mundo\/","title":{"rendered":"A gata mais linda do mundo"},"content":{"rendered":"<p>Toda noite, quando ca\u00eda no sono, ela se transformava na gata mais linda do mundo. E toda noite ela era uma gata diferente.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes era toda preta; \u00e0s vezes era malhada, com as mais diferentes cores e matizes; \u00e0s vezes branca, como a neve. E algumas vezes, mas nem sempre, ela era laranja como uma gata de desenho animado, ou quase pelada, mais parecendo com um rato. N\u00e3o importava a sua apar\u00eancia que ela assumia ao se transformar, quando dormia ela sempre virava a gata mais bonita do mundo.<\/p>\n<p>Era s\u00f3 ela fechar os olhos que a gata abria os dela.<\/p>\n<p>A gata acordava num mundo noturno, de luzes apagadas, numa casa com humanos dormindo, ignorando morar com a gata mais linda do mundo. A gata caminhava languidamente por quartos e corredores; copas e cozinhas; banheiros e varandas. Vez ou outra esbarrava com outros gatos que dividiam com ela a habita\u00e7\u00e3o; em outras vezes, estava sozinha. Para ela n\u00e3o fazia diferen\u00e7a. Com ou sem companhia, ela subia em estantes, afiava as garras em sof\u00e1s, comia e bebia, desfilando a sua beleza na escurid\u00e3o humana. Mas ela sentia que algo lhe faltava.<\/p>\n<p>Quando cansava, a gata se aninhava nos humanos narcol\u00e9pticos, miando e piscando os olhos para eles, perguntando por que raz\u00e3o, se era t\u00e3o bonita, eles n\u00e3o a notavam. Angustiada, dava pequenas mordidas em suas pernas e cafungadas em suas axilas, buscando in\u00fatilmente a sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o sol nascia, a gata, exausta e frustrada, fechava os olhos para ela acordar. Ela, a mulher mais feia do mundo.<\/p>\n<p>Ela levantava, sem mem\u00f3rias de ter sido a gata mais bonita do mundo. Fazia sua higiene, tomava caf\u00e9 sozinha, se arrumava, mesmo n\u00e3o vendo necessidade em tentar melhorar o que n\u00e3o tinha conserto, e sa\u00eda para trabalhar.<\/p>\n<p>Nas ruas, ningu\u00e9m olhava para ela. Era t\u00e3o feia que n\u00e3o provocava asco nem repulsa. Era apenas apagada. No trabalho, as pessoas se comunicavam com ela pontualmente descarregando nas suas costas as coisas que n\u00e3o queriam fazer. Fora esses pequenos contatos, ela ficava sozinha. Almo\u00e7ava sozinha, ia \u00e0 copa sozinha, ouvia sozinha os papos das pessoas no cafezinho, e retornava para casa da mesma forma que chegou ao trabalho. Sozinha.<\/p>\n<p>Em casa, matava o tempo entre as obriga\u00e7\u00f5es que garantiam a sua subsist\u00eancia e a hora de dormir olhando para fotos de pessoas bonitas e vendo filmes estrelados por pessoas lindas, ou, pelo menos, mais bonitas que ela. Enrolava e se distra\u00eda de sua trag\u00e9dia, beliscando comida vencida da geladeira, fazendo palavras cruzadas f\u00e1ceis e evitando pensar em qu\u00e3o horr\u00edvel ela era, enquanto esperava o sono chegar.<\/p>\n<p>Quando sentia as p\u00e1lpebras pesadas, sorria feliz. Se recolhia e, cheia de esperan\u00e7a, rezava mais uma vez para ser bonita, para ser mais bonita, para ser a mais bonita. Seus olhos fechavam e seus desejos eram atendidos. Os olhos da gata abriam e ela, enfim, era a mais bonita. Mas, apesar de toda a beleza, quando despertava, a gata tamb\u00e9m fazia uma ora\u00e7\u00e3o. Entre miados curtos e sedutores, pedia, n\u00e3o para ser a mais bonita, nem para ser a mais feia, ela s\u00f3 queria ser notada. Bela ou feia, elas continuavam sozinhas; a gata e a mulher mais sozinhas do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda noite, quando ca\u00eda no sono, ela se transformava na gata mais linda do mundo. E toda noite ela era uma gata diferente. \u00c0s vezes era toda preta; \u00e0s vezes era malhada, com as mais diferentes cores e matizes; \u00e0s vezes branca, como a neve. 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