{"id":5515,"date":"2021-11-15T17:11:54","date_gmt":"2021-11-15T20:11:54","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5515"},"modified":"2023-10-12T13:31:40","modified_gmt":"2023-10-12T16:31:40","slug":"a-biblioteca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-biblioteca\/","title":{"rendered":"A Biblioteca"},"content":{"rendered":"<p>Antes aqui n\u00e3o tinha nada. Agora tem tudo. Mas, pensando bem, isso tudo j\u00e1 existia antes, s\u00f3 nos faltava o tempo de esperar esse sonho florescer.<\/p>\n<p>Lembro quando chegamos a esse terreno vazio, nessa pequena cidade costeira, e vimos, por cima do mato e do vazio insistente, tudo que h\u00e1 agora. Talvez n\u00e3o exatamente o que acabamos construindo com vidro, pedra, madeira e metal, mas o mesmo conceito espiritual est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com a casa central. Seguindo a inspira\u00e7\u00e3o dos diversos livros sobre lares japoneses que li durante anos para alimentar meus sonhos, montamos uma estrutura simples e transparente. Uma casa quadrada e expans\u00edvel, com fortes pilares ligados por vidros, onde a nossa privacidade, garantida por di\u00e1fanas cortinas claras, podia ser aberta ou fechada ao nosso bel prazer. Quando queremos nos recolher, as fechamos; quando queremos receber nossos amigos ou conhecer novas pessoas, elas s\u00e3o descortinadas progressivamente, abrindo com vagar a vis\u00e3o do nosso lar e o espa\u00e7o dentro dos nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Aos poucos fomos nos despindo de muitas coisas f\u00edsicas mantendo apenas o essencial, para abrir espa\u00e7o para o que realmente importa: nossos afetos, nossas emo\u00e7\u00f5es e livros, milhares deles.<\/p>\n<p>Uma hora, como j\u00e1 era esperado, os livros precisaram da sua pr\u00f3pria casa e a constru\u00edmos no mesmo modelo da casa central: um espa\u00e7o acolhedor e seletivamente transparente. Para proteger a riqueza e o conhecimento que h\u00e1 dentro deles, criamos prote\u00e7\u00f5es contra a maresia e contra o sol, dentro dos limites necess\u00e1rios para que a sua seguran\u00e7a n\u00e3o impedisse a sua conex\u00e3o com o mundo.<\/p>\n<p>Quando ficou pronta, primeiro abrimos a biblioteca \u00e0 cidade. Recebemos alunos de escolas, moradores interessados ou apenas curiosos. Aos poucos, pessoas de lugares, longe ou perto, come\u00e7aram a aparecer para conhec\u00ea-la, e, dependendo do nosso humor e da empatia que sent\u00edamos, deixamos elas entrarem. Dependendo do elo que formamos com elas, podem apenas circular pelas estantes, ou ler por breves ou longos momentos nos pufes convidativos e poltronas confort\u00e1veis, ou at\u00e9 mesmo levar uma das obras pelas quais tenham se apaixonado. Desde que, \u00f3bvio, deixem uma outra no lugar.<\/p>\n<p>Com o passar dos anos, come\u00e7amos a fazer pequenos eventos, encontros, reuni\u00f5es, e a transformar a cidade que come\u00e7ou a abrigar cineclubes espont\u00e2neos e pe\u00e7as de teatro cl\u00e1ssicas, influenciadas pelas palavras da biblioteca.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o da comunidade, como n\u00e3o podia deixar de ser, aumentou a nossa responsabilidade e a nossa visibilidade. Por isso constru\u00edmos tamb\u00e9m um lugar para receber mais pessoas que quisessem passar mais tempo perto dos nossos livros e, quem sabe, escrever os seus ao nosso lado.<\/p>\n<p>Passamos, assim, a receber pessoas que ficavam pouco ou muito tempo, e podiam devorar, al\u00e9m dos livros, as minhas feijoadas de sexta feira, meu caf\u00e9 gelado, meus mistos-quentes com ovos, e meus espor\u00e1dicos chilis.<\/p>\n<p>Chegamos a pensar em construir uma piscina no terreno, mas a proximidade do mar a tornou sup\u00e9rflua, e a obra encerrou onde devia: num deck onde pod\u00edamos nos reunir para conversar, e num chuveir\u00e3o para refrescar nossos \u00e2nimos e nossos corpos.<\/p>\n<p>O tempo passou, nossa filha cresceu junto com a biblioteca e se mudou para seguir a vida que ela mesma escolheu. N\u00f3s a apoiamos como podemos, e adoramos receb\u00ea-la nos fins de semana e f\u00e9rias para nos visitar e reencontrar a biblioteca que se tornou a sua irm\u00e3 de papel, vidro e metal.<\/p>\n<p>Imerso nessas mem\u00f3rias, percebo que o sol acabou de raiar. Enquanto leio e escrevo essas linhas, fa\u00e7o meu caf\u00e9, admirando voc\u00ea e velando o seu sono. Coloco um ponto final nesse texto e me levanto da minha escrivaninha para abrir mais uma vez as portas dessa biblioteca pregui\u00e7osa.<\/p>\n<p>Em breve os convidados tamb\u00e9m ir\u00e3o acordar e nos encontrar entre livros e cervejas para falar de tudo e de nada. No meio da tarde passearemos na beira mar e voltaremos para um chuveir\u00e3o antes do jantar. A lua aparecer\u00e1 e colocarei a biblioteca para dormir, para que ela recupere suas for\u00e7as e amanh\u00e3 volte a receber aqueles que aprender\u00e3o com ela a escrever novos livros que far\u00e3o parte do seu crescente conhecimento.<\/p>\n<p>A obra n\u00e3o acabou. Nunca acaba, mas estamos chegando l\u00e1. Onde? N\u00e3o sei, mas estamos sempre um dia mais pr\u00f3ximos do que ambicionamos ser e criar. E isso \u00e9 o suficiente. N\u00e3o \u00e9?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes aqui n\u00e3o tinha nada. Agora tem tudo. Mas, pensando bem, isso tudo j\u00e1 existia antes, s\u00f3 nos faltava o tempo de esperar esse sonho florescer. Lembro quando chegamos a esse terreno vazio, nessa pequena cidade costeira, e vimos, por cima do mato e do vazio insistente, tudo que h\u00e1 agora. 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