{"id":5551,"date":"2021-11-27T20:16:53","date_gmt":"2021-11-27T23:16:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5551"},"modified":"2021-11-27T20:16:53","modified_gmt":"2021-11-27T23:16:53","slug":"destinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/destinos\/","title":{"rendered":"Destinos"},"content":{"rendered":"<p>Depois de um tempo de viagem, todos os lugares parecem iguais. Todos tem um aeroporto, uma rodovi\u00e1ria, um posto de gasolina na beira de uma estrada, uma esta\u00e7\u00e3o de trem. Um ponto de entrada e sa\u00edda que causa a pior impress\u00e3o poss\u00edvel do lugar, e, por isso, talvez, a mais verdadeira.<\/p>\n<p>Depois tem o transporte. Em geral, t\u00e1xis. Transporte coletivo \u00e9 reservado para aqueles lugares que j\u00e1 conhecemos bem. E, portanto, n\u00e3o s\u00e3o mais lugares iguais. S\u00e3o apenas lugares similares de maneiras reincidentes.<\/p>\n<p>Se os pontos de entrada resumem os lugares, os taxistas representam seu povo. Como exploradores, nos aproximamos desses nativos sob rodas com a boa vontade de mission\u00e1rios mal intencionados e com o medo dos soldados furiosos. Ol\u00e1, como vai, tudo bem, por favor, n\u00e3o me roube, nem me engane; eu vim em paz. O que nem sempre \u00e9 verdade, mas \u00e9 melhor n\u00e3o levantar o assunto.<\/p>\n<p>No caminho para os hot\u00e9is, um outro ponto de destaque dos lugares, ouvimos as lam\u00farias dos motoristas, que representam as aspira\u00e7\u00f5es e conflitos desse povo. Os pre\u00e7os altos, os pol\u00edticos ladr\u00f5es, as informa\u00e7\u00f5es sobre pontos tur\u00edsticos e inferninhos, a esperan\u00e7a que tudo vai melhorar ou acabar numa imensa bola de fogo, o que meio que d\u00e1 no mesmo; ouvimos tudo que nos interessa e que n\u00e3o nos interessa; mas que nos d\u00e1 a certeza que al\u00ed voc\u00ea nunca vai querer morar. Ou em qualquer outro lugar.<\/p>\n<p>Enfim, o hotel. Como um carro aleg\u00f3rico, o hotel representa a imagem que o lugar quer nos passar. \u00c9 a fantasia do povo do que significa viver bem. Caf\u00e9s da manh\u00e3 nababescos e frigobares deprimentes; espa\u00e7os para reuni\u00f5es de neg\u00f3cios ou encontros sexuais secretos, ambos igualmente escusos; piscinas e academias que n\u00e3o servem para se exercitar; camas convidativas e p\u00e9ssimas sele\u00e7\u00f5es de canais na TV a cabo. <\/p>\n<p>O atendimento do hotel nos permite outra percep\u00e7\u00e3o sobre o povo, especialmente como eles s\u00e3o falsos em seus discursos e a\u00e7\u00f5es. Por tr\u00e1s de cada mesura quase educada e de cada cortesia pouco voluntariosa, h\u00e1 inten\u00e7\u00f5es escondidas, conte\u00fados latentes, que dizem \u201cme use, que n\u00f3s vamos abusar de voc\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>E se n\u00f3s temos tempo, energia ou azar, acabamos por ser obrigados a conhecer os pontos tur\u00edsticos da regi\u00e3o. Frente a esses \u00eddolos ca\u00eddos e tradi\u00e7\u00f5es esquecidas, mercen\u00e1rios nos cobram por fotos que n\u00e3o queremos tirar, lembran\u00e7as que queremos esquecer, nunca tentativa v\u00e3 de nos convencer que esses lugares j\u00e1 foram grandiosos. Mas n\u00e3o foram.<\/p>\n<p>Por fim chega a hora de partir. Cheios de falsa emo\u00e7\u00e3o, dizemos que j\u00e1 sentimos saudades e n\u00e3o esperamos a hora de voltar. N\u00e3o esperamos, porque torcemos fervorosamente que nunca mais precisemos voltar.<\/p>\n<p>Descobrimos em cada destino torto, em cada viagem que poderia ter sido uma visita a um site na internet, que o nosso lar \u00e9 nosso por uma raz\u00e3o. N\u00e3o porque o amamos nem porque eles fazem parte das nossas identidades, n\u00e3o. Tamb\u00e9m nos sentimos mal por voltar. O nosso lar \u00e9 nosso porque l\u00e1 somos t\u00e3o ruins e decadentes quanto os outros os s\u00e3o nos lugares aos quais tentam nos atrair e nos quais tentam nos aprisionar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de um tempo de viagem, todos os lugares parecem iguais. Todos tem um aeroporto, uma rodovi\u00e1ria, um posto de gasolina na beira de uma estrada, uma esta\u00e7\u00e3o de trem. Um ponto de entrada e sa\u00edda que causa a pior impress\u00e3o poss\u00edvel do lugar, e, por isso, talvez, a mais verdadeira. Depois tem o transporte. 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