{"id":5559,"date":"2021-12-01T07:42:29","date_gmt":"2021-12-01T10:42:29","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5559"},"modified":"2021-12-01T07:42:29","modified_gmt":"2021-12-01T10:42:29","slug":"sons-de-sansa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/sons-de-sansa\/","title":{"rendered":"Sons de Sansa"},"content":{"rendered":"<p>Aos domingos, era o chorinho. Por volta de 10 da manh\u00e3, ele come\u00e7ava a atrair as pessoas para o coreto. \u00c0s 11, os m\u00fasicos chegavam e adicionavam sopros e cordas ao tilintar das garrafas verdes que reluziam ao sol que imperava na pra\u00e7a. Era glorioso, como Jesus, Alegria dos Homens numa catedral a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>Na hora do almo\u00e7o, o p\u00fablico e os m\u00fasicos, cansados ou b\u00eabados, rumavam aos barzinhos para tomar as saideiras ou comer algo bem gorduroso para esticar a bebedeira. As crian\u00e7as assumiam  o palco e corriam em volta do escorregador e dos balan\u00e7os, produzindo uma sinfonia ao mesmo tempo dissonante e inexplicavelmente calmante.<\/p>\n<p>O sol, relutante, se punha atr\u00e1s do corpo de bombeiros e a barraca dos poetas assumia as carrapetas com o melhor do brega internacional e nacional dos anos 70 e 80, conclamando os mais guerreiros a dan\u00e7ar em nome da nostalgia das r\u00e1dio FM.<\/p>\n<p>Nas noites de segundas, tinha o circo. Mas por incr\u00edvel que pare\u00e7a, n\u00e3o apareciam crian\u00e7as o suficiente para justificar o espet\u00e1culo. Mesmo assim, os artistas se reuniam. Palha\u00e7os, malabaristas, acrobatas se apresentavam no entorno do chafariz  atraindo os que voltavam da escola ou do trabalho, produzindo risos e aplausos.<\/p>\n<p>Nas ter\u00e7as de tarde, o caminh\u00e3o de mudan\u00e7as abria a sua ca\u00e7amba e dois sanfoneiros faziam um baile improvisado que seguia secretamente at\u00e9 a sua vontade ou alegria de tocar se encerrar. Em geral, tinha alegria e forr\u00f3 pra quase meia noite. Os s\u00edndicos odiavam, mas os moradores dan\u00e7avam agarradinhos na pra\u00e7a ou em seus apartamentos.<\/p>\n<p>Na quarta, era  pra ser folga. Afinal ningu\u00e9m \u00e9 de ferro e todo mundo precisa de um dia para aparecer, s\u00f3brio, em casa, e descansar o f\u00edgado. Por\u00e9m, \u00e9 dia de jogo do campeonato, seja ele qual for, e, em nome do seu time do cora\u00e7\u00e3o, ou pra zicar o seu desafeto preferido, o povo quebrava a quase abstin\u00eancia para tomar uma em p\u00e9 em volta dos bares e acompanhar um jogo emocionante mas de resultado previs\u00edvel. Ganhando ou perdendo, todos ganharam, e perderam, mais um dia. Ou uma noite,<\/p>\n<p>J\u00e1 nas quintas de noite, o som era dos discursos. Partid\u00e1rios, n\u00e3o partid\u00e1rios e apartid\u00e1rios se reuniam discretamente do lado esquerdo da pra\u00e7a pra denunciar os males da pol\u00edtica, a opress\u00e3o da nossa ditadura nascente e beber em mem\u00f3ria de um pa\u00eds que j\u00e1 foi, mas n\u00e3o foi. Foi?<\/p>\n<p>Na sexta, a surpresa. No fim do expediente era sempre um show diferente. Um cinema no parquinho, um rock no Salvatore, uma banda de jazz \u00e0 sombra do chafariz. O povo chegava cansado da labuta e comemorava a inven\u00e7\u00e3o do dia da liberta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o circular, falando mal de seus ganha-p\u00e3os e exibindo os planos pro fim de semana que nunca iriam cumprir. A m\u00fasica e a algazarra iam longe para o terror dos s\u00edndicos conservadores que apoiavam publicamente o gradeamento da pra\u00e7a e sonhavam secretamente com a morte de suas esposas tacanhas para se juntar \u00e0 bagun\u00e7a. <\/p>\n<p>No s\u00e1bado, o samba ainda persiste e resiste. No mesmo lugar do chorinho, e no mesmo hor\u00e1rio, cercado por uma feira que at\u00e9 pouco n\u00e3o existia, o povo canta e dan\u00e7a com saudade de um pa\u00eds pr\u00e9 fascismo e pr\u00e9 pandemia, pedindo em ora\u00e7\u00e3o pela volta dos sons de uma pra\u00e7a atualmente bem calada. <\/p>\n<p>Cheia de alegria e esperan\u00e7a,  essa \u201cgente que num \u00f4nibus lotado vai batalhar um trocado\u201d sonha com um tempo melhor. Um tempo em que todos os dias a pra\u00e7a voltar\u00e1 a gritar para toda cidade, pra todo pa\u00eds, pra todo mundo, que \u201capesar de voc\u00ea, amanh\u00e3 h\u00e1 de ser outro dia\u201d. E, tenha certeza, se \u201cSe algum candidato atrevido for fazer promessas vai levar um pau\u201d.<\/p>\n<p>Que se abram as cortinas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos domingos, era o chorinho. Por volta de 10 da manh\u00e3, ele come\u00e7ava a atrair as pessoas para o coreto. \u00c0s 11, os m\u00fasicos chegavam e adicionavam sopros e cordas ao tilintar das garrafas verdes que reluziam ao sol que imperava na pra\u00e7a. Era glorioso, como Jesus, Alegria dos Homens numa catedral a c\u00e9u aberto. 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