{"id":5609,"date":"2021-12-10T07:28:54","date_gmt":"2021-12-10T10:28:54","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5609"},"modified":"2023-10-12T13:33:54","modified_gmt":"2023-10-12T16:33:54","slug":"o-sofa-o-cama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-sofa-o-cama\/","title":{"rendered":"O sof\u00e1, o cama"},"content":{"rendered":"<p>A cama n\u00e3o era t\u00e3o grande, mas tomava praticamente todo o quarto. Entre a janela e a porta restava um pequeno espa\u00e7o ao seu redor onde s\u00f3 cabiam as pernas finas de Arnaldo, o dono da cama, uma de cada vez, e que s\u00f3 servia para acumular coisas perdidas que ele achava que nunca mais iria recuperar.<\/p>\n<p>Uma vez por m\u00eas, Arnaldo chamava a faxineira que, como m\u00e1gica, fazia o imposs\u00edvel, e recuperava o que deveria ter ficado perdido. Uma calcinha vermelha; a carteira de motorista vencida da dona da calcinha; um poema escrito num guardanapo, para uma outra mulher; 62 reais em notas de 2; uma aposta na megasena, n\u00e3o premiada; uma raspadinha, premiada; um n\u00famero de telefone de uma pessoa desconhecida; um soutien florido de uma conhecida.<\/p>\n<p>&#8211; O fim de semana foi animado, seu Arnaldo- a faxineira resenhava a sua vida.<br \/>\n&#8211; Pois, \u00e9, Marilda. Pois, \u00e9- ele desconversava dando os 62 reais e a raspadinha para a faxineira.<\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 de s\u00e1bado, ap\u00f3s uma costumeira noite de sexta, uma das conhecidas, que j\u00e1 foram desconhecidas, frustrada por ter perdido, como tantas antes, o soutien, lhe fez uma oferta:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem que se livrar dessa cama. Ela n\u00e3o \u00e9 do tamanho da sua vida. Voc\u00ea precisa de um sof\u00e1 cama. Sabe?, eu tenho uma amiga que \u00e9 dona de uma loja de m\u00f3veis usados e est\u00e1 vendendo um. Te interessa?<br \/>\n&#8211; Sof\u00e1 cama? Como isso funciona?<br \/>\n&#8211; Vai dizer que nunca viu um sof\u00e1 cama? \u00c9 tipo uma cama que, quando voc\u00ea n\u00e3o estiver usando, vira um sof\u00e1.<br \/>\n&#8211; E \u00e9 bom?<br \/>\n&#8211; \u00c9, eu acho. Quer ir ver?<br \/>\n&#8211; Quero.<\/p>\n<p>E l\u00e1 foi ele, na loja da amiga da conhecida, conhecer o sof\u00e1. Quer dizer, o sof\u00e1 cama. A primeira impress\u00e3o n\u00e3o foi boa. Era um m\u00f3vel velho e feio, com uma estampa de casa de v\u00f3. Fechado, como sof\u00e1, era desconfort\u00e1vel e pouco convidativo. Aberto, como cama, era desconfort\u00e1vel e ainda menos convidativo.<\/p>\n<p>A conhecida percebeu a sua hesita\u00e7\u00e3o e fez press\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Deita. V\u00ea se voc\u00ea gosta.<\/p>\n<p>Deitou e continuou n\u00e3o gostando. Mentiu, prometendo que ia pensar, e voltou para casa. Olhou para a cama, que tomava todo o quarto, se deitou e suspirou feliz de n\u00e3o ter comprado o sof\u00e1, quer dizer, o sof\u00e1 cama.<\/p>\n<p>Numa noite de sexta, que antecederia mais uma manh\u00e3 de s\u00e1bado, chegou em casa com uma conhecida, outra, e, quando entrou no quarto, se espantou: no lugar da sua cama estava um sof\u00e1, o cama. Em cima dele apenas um envelope com uma mensagem da conhecida, a primeira, dizendo: \u201cEspero que fique feliz com o meu presente\u201d. N\u00e3o ficou.<\/p>\n<p>Acordou na manh\u00e3 de s\u00e1bado, com dor nas costas, e a conhecida, a outra, foi embora com rapidez.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o perdeu nada? &#8211; ele perguntou.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, porqu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Por nada, por nada.<\/p>\n<p>Naquela semana, a faxineira passou na sua casa e se espantou, tanto quanto ele, com o sof\u00e1, mas n\u00e3o disse nada. Na sa\u00edda, ele perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o achou nada perdido dessa vez?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, por qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Por nada, por nada.<\/p>\n<p>Pensou em ligar para a conhecida, a do sof\u00e1, o cama, mas n\u00e3o lembrava mais qual era seu nome, nem seu telefone. Queria saber para onde tinha ido a sua cama, mas pelo jeito ela tinha sido perdida dentro do sof\u00e1, quer dizer, do cama. Sem sa\u00edda, tentou se acostumar com a trag\u00e9dia que se alojara no seu quarto, enquanto esperava que a conhecida entrasse em contato com ele. Mas ela n\u00e3o entrou. Nem o sof\u00e1 saiu.<\/p>\n<p>Uma coisa ela n\u00e3o podia negar, sua vida ficou mais simples e chata. Quando acordava, fechava a cama. Quando chegava em casa, abria o sof\u00e1. As conhecidas, e as desconhecidas, parecendo prever que a cama tinha ido embora, come\u00e7aram a sumir; e as coisas, antes perdidas, come\u00e7aram a aparecer. A sua carteira da faculdade; o diploma que jurava n\u00e3o ter tirado; uma carteira de dinheiro, vazia; uma agenda cheia de telefones, mas sem nenhum nome; e at\u00e9 um cart\u00e3o da loja de onde veio o sof\u00e1 cama.<\/p>\n<p>Ligou para a loja. A amiga da conhecida atendeu.<\/p>\n<p>&#8211; Oi, n\u00e3o sei se lembra de mim, mas fui ver um sof\u00e1 cama com uma amiga sua.<br \/>\n&#8211; Ah, sei, mas ela n\u00e3o \u00e9 minha amiga. \u00c9 s\u00f3 uma conhecida.<br \/>\n&#8211; Sei, sei. Por acaso, quando voc\u00eas trouxeram o sof\u00e1 cama para minha casa, voc\u00eas sabem para onde foi a minha cama?<br \/>\n&#8211; Sei, est\u00e1 aqui. Foi a pior troca que fiz. J\u00e1 levaram e devolveram essa cama duas vezes. Parece que ela n\u00e3o cabe em lugar nenhum.<br \/>\n&#8211; S\u00e9rio? Querem trocar de volta?<\/p>\n<p>Dois dias depois a cama voltou e o sof\u00e1, o cama, foi embora. Na sexta seguinte, a conhecida, a do sof\u00e1 cama, ligou de surpresa e passou na sua casa.<\/p>\n<p>&#8211; Pra onde foi o sof\u00e1 cama?<br \/>\n&#8211; Que sof\u00e1 cama?- ele se fez de bobo.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado de manh\u00e3, ela foi embora, frustrada, sem a calcinha, engolida pela cama. Na semana seguinte a faxineira apareceu e achou a calcinha.<\/p>\n<p>&#8211; O fim de semana foi animado, hein?, seu Arnaldo- a faxineira comentou como de costume.<br \/>\n&#8211; Pois, \u00e9, Marilda. Pois, \u00e9- ele respondeu satisfeito.<br \/>\n&#8211; Por falar nisso, pra onde foi o sof\u00e1 cama?<br \/>\n&#8211; Que sof\u00e1 cama, Marilda?- ele fingiu n\u00e3o saber que a cama o havia engolido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cama n\u00e3o era t\u00e3o grande, mas tomava praticamente todo o quarto. Entre a janela e a porta restava um pequeno espa\u00e7o ao seu redor onde s\u00f3 cabiam as pernas finas de Arnaldo, o dono da cama, uma de cada vez, e que s\u00f3 servia para acumular coisas perdidas que ele achava que nunca mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[227,206],"tags":[],"class_list":["post-5609","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque","category-microconto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5609"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5609\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5610,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5609\/revisions\/5610"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}